Quando eu aprendi a vaiar

Não lembro quando foi que me ensinaram a vaiar. Remontei minha memória esportiva e o máximo que consegui buscar é que já sei isso faz tempo. Por certo uma herança de algum Gre-Nal de décadas passadas. Até hoje carrego este costume, adquirido ao longo de anos de arquibancada em estádios de futebol e dezenas de competições. Ainda que me nego a vaiar meu próprio time, quando ele não está bem, nem por protesto. Por quê? Porque sei que isso deve atrapalhar os jogadores pelos quais eu torço.

Claro, assim como eu, muitos milhões de brasileiros aprenderam a vaiar adversários ainda durante a tenra infância e não poupem um “uh” a atletas em arenas olímpicas por aí. Com o não-desportivo intuito de mais atrapalhar o adversário do que ajudar minha equipe.

As vaias de fato atrapalharam o saltador francês Renaud Lavillenie, na final do salto com vara dos Jogos Olímpicos do Rio. Vi a prova: ele claramente teve a sua estratégia destruída pelo brasileiro Thiago Braz. E justo quando se viu pressionado, ouviu as vaias – algo incomum para um atleta de ponta como ele. Foi saltar atordoado e, como sabido, não conseguiu bater a marca de Braz.

Lavillenie ainda teve a infelicidade de comparar o que ouviu ao ocorrido na Berlim nazista. Ou se comparar a Jesse Owens. Ambas análises equivocadas. Arrependeu-se, mas não a tempo de livrar-se de uma nova e sonora vaia num dos momentos mais sublimes da carreira de um esportista: o pódio olímpico. De lá, chorou. Diante do mundo, em um evento agregador realizado numa cidade famosa por seu alegre carnaval.

Foi humilhante, como ele escreveu. Mas lamentável também. Cabe a reflexão, por nós, brasileiros. Somos um país hospitaleiro, alegre, feliz. O que aconteceu no Engenhão, agora visto por todo o contexto, nada tem a ver conosco. Dava para ter saído por cima.

A vaia na competição pode até ser do jogo em alguns esportes e como nossa cultura é limitada a futebol, vôlei ou outros esportes coletivos – onde o clima é mais acirrado – achamos natural este barulho todo. Mas é uma oportunidade para aprender que não vale para todos. Já a vaia na consagração olímpica beira a maldade. No caso de Lavillenie, foi um erro vingando outro. E foi contra não só o espírito olímpico, assim como o espírito do carioca.

Menos mal que panos quentes foram postos em cima de toda a situação. Melhor assim. Sempre importante aprender com os erros. Deles nossos.

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3 pensamentos sobre “Quando eu aprendi a vaiar

  1. Eu acho de total baixo tom essas vaias que estão acontecendo nos jogos Olímpicos, todos são merecedores de estar concorrendo pois os selecionados já passam por um crivo muito grande. Sabemos que existem ‘N’ esportistas e existem delegações que só se pode enviar um candidato, portanto ele é o melhor de seu país e não é merecedor de vaias e sim de aplausos. Acho horrível o que esta acontecendo, querendo ou não esta sendo um evento tão lindo de se ver, mas péssimo para se ouvir.

    HuG!

    http://www.andrehotter.com

    • É que é uma cultura nossa. Às vezes não é nem por maldade, é pelo espírito de competição mesmo. Dessa vez, porém, acho que perdemos o tom. Que sirva de aprendizado pra todos.

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