Contexto da corneta olímpica

Tiago Camilo rio 2016

Tiago Camilo, um vencedor: quatro Olimpíadas, duas medalhas | Foto: Marcio Rodrigues/CBJ

Não gosto deste tipo de corneta, mas é normal, vamos lá. Acontece sempre com torcedores brasileiros na primeira semana dos Jogos Olímpicos – quando a grande maioria das medalhas distribuídas são as de modalidades individuais, ainda um calcanhar de Aquiles no esporte brasileiro e, dentre as quais, apenas o judô consegue relativo sucesso.

Então. Amanheceu o sexto dia de Olimpíadas no Rio de Janeiro e o Brasil tem apenas dois pódios – e, especialmente hoje, espero que este dado fique desatualizado em poucas horas. É um pouco aquém do esperado, claro. Há, já, aquele grito contido na garganta e bons resultados sem medalhas começam a incomodar.

Mas antes de sair corneteando atletas a esmo, que tal antes contextualizar alguns fatos? Até para se embasar. É rápido, prometo. Sugiro, para isso, a leitura de apenas duas matérias da revista piauí – ok, nem tão rápido assim. Uma escancaram em alguns parágrafos uma grave promessa não cumprida, que se reflete direto no Rio: “Governo não gastou com atletas metade do previsto”.

Conforme a matéria, aquilo que eram R$ 690 milhões e investimento para colocar o Brasil num audacioso top-10 do quadro de medalhas virou R$ 328 milhões (até dezembro de 2015). Chegou menos da metade do apoio acenado. Grave, não é?

A segunda reportagem, que na verdade é a versão completa do primeiro levantamento, aprofunda o problema. Afinal, não adianta apenas dinheiro no bolso, é necessário equipamentos, ginásios, locais para treinar, enfim.

Houve uma promessa para se criar polos esportivos de Norte a Sul – algo que, pelo amor de Deus, como não existe isso ainda hoje? Pouco saiu do papel. E deste pouco alguns ainda nascem já com um problema de gestão, pois toda quadra nova gera uma conta de luz e uma conta d’água, sem falar nos outros gastos. Quem pagará a nova conta nesses tempos de crise?

Gestão é o que diferenciará uma arena poliesportiva moderna de um imenso elefante branco – não esqueçamos da Copa! Lembremos aqui que são estes ginásio que deverão treinar tanto atletas de ponta, quanto – e principalmente! – crianças com potencial de serem novas Rafaelas Silvas, por exemplo. O esporte brasileiro não pode depender de milagres de encontrar uma Daiane dos Santos fazendo piruetas na pracinha.

Dinheiro, salientemos, não “compra” pódios olímpicos. Existem outros tantos fatores para chegar à consagração. Mas também seria injusto cobrar os resultados especulados por políticos quatro anos atrás com metade do investimento tendo se tornado realidade.

As duas leituras acima são, enfim, contextualizadoras e até certo ponto revoltantes por tal descaso, ou seja, têm os ingredientes sempre presentes no texto do bom jornalismo. Aqui registro meus parabéns aos autores Cristina Tardáguila, Juliana Dal Piva e Raphael Kapa.

Mais a mais, também não é feio reconhecer e parabenizar as finais inéditas na ginástica, o sexto lugar na canoagem, as quartas de final na esgrima ou um eventual quinto lugar no judô. Tem um gosto mais amargo que o doce pódio, claro, mas é importante ressaltar o feito dos atletas.

Olimpismo (e gestão no esporte) não se restringe a vitórias.

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