O que aprendi nas ruas

fotoCentenas de jovens nas ruas reclamando de algo é uma situação. Centenas de jovens voltando às ruas por dias e dias seguidos é outra. E aqueles que mantêm uma rotina dessas não podem simplesmente ser taxados de “vagabundos”, “baderneiros” ou “vândalos”. Há muito mais complexidade nesta massa do que apenas transtornos no trânsito ou mera “baderna”.

Talvez eliminar este pré-conceito tenha sido o maior ensinamento que tive como jornalista nos primeiros meses de 2013. A força dos gritos das ruas – uma grata surpresa, diga-se de passagem –, a tensão do ambiente e uma outra gama de fatos que presenciei e cobri entre março e abril deste ano e que vejo agora se repetir em outras cidades me fizeram refletir sob muitos aspectos, como cidadão e profissional de comunicação.

Das poucas conclusões que é possível chegar é que, por mais esforço que haja, nunca haverá a cobertura perfeita, pois diante de uma sociedade extremamente dividida, as verdades são muitas e cada um escolhe a que lhe convir. Existe depredação à toa, existe abuso policial, existem provocações (de ambas as partes). Há, no meu ponto de vista, uma obrigação ao repórter: de se manter (ou pelo menos tentar) o equilíbrio.

Repórter x tempo

2013-04-04 18.39.41Todo grande protesto envolve uma complexidade enorme de lados. O repórter, que vive contra o tempo e não vê diariamente uma coisa dessas na sua cidade, tem diante de si a revolta da população contra um aumento abusivo, os danos ao patrimônio público, o caos no trânsito da região e um deadline ou uma entrada ao vivo. Tudo isso é notícia e só puxar por um viés é errado, afinal.

O manifestante tem imbuído em si a coragem das grandes massas e a indignação transbordando. Isso não lhe dá o direito de sair quebrando o que tiver na frente, porém. Ainda mais se o objeto que receber sua raiva for público. No front também há os policiais e guardas municipais. Que, em sua maioria, recebem um salário ridículo e tem no estresse uma companhia permanente. Muitos deles, imagino, não recebem o treinamento adequado para a situação. Muitos deles, imagino, nem sabiam que a população se revoltava assim. E aposto que a mobilização tem surpreendido os próprios manifestantes pela força.

Ou seja, o pavio ali no front sempre é curtíssimo.

Em Porto Alegre, a vitória das ruas não chegou a demorar a acontecer e foi legítima, reconhecida na justiça. Na minha opinião, todos os atores passaram por mudanças no decorrer dos atos. Se boa parte dos jornalistas narrou a manifestação mais pelo caos no trânsito, os editoriais foram trocados em seguida por questionamentos cabíveis.

Uma grande vitória. Até junho

2013-04-04 19.04.15Os manifestantes oscilaram, mas no geral tinham diminuído o prejuízo alheio – até explodirem novamente numa nova revolta, agora em junho, quando o quebra-quebra foi grande e houve a promessa de reviver uma nova Turquia. A censura aos vândalos dentro do movimento aumentou no grupo, ao menos. Ainda assim, não chegou a conter os atos.

Policiais, depois de uma briga feia no primeiro protesto, apenas trataram – ao menos na maioria das vezes – de manter a ordem nos encontros seguintes. Até este último, agora em junho, quando mais prisões aconteceram e balas de borracha cruzaram a noite porto-alegrense.

Este último protesto em Porto Alegre, diga-se, aconteceu horas depois de o Tribunal de Contas do Estado confirmar a vitória nas ruas, mantendo as passagens em R$ 2,85, valor que pode baixar ainda mais com um novo cálculo. Até a noite de 13 de junho, uma certa calma pairava na capital gaúcha, que serviu de exemplo a muitos.

Despreparo político e policial  

Assistindo de longe as manifestações em outras cidades, especialmente em São Paulo e no Rio, torço que esta “evolução” aconteça em breve, mesmo que os sinais não apontem isso. Ao menos nas primeiras matérias se vê mais isso: vandalismo exagerado, excesso de violência da parte dos policiais, além de uma falta de contexto maior nas reportagens. E aquilo que se vê no Twitter é ainda mais assustador. Isso é uma derrota para todos.

O maior revés à população, contudo, acho que é a incômoda ausência dos governantes no calor da hora. Em todas as ocasiões os vi realmente distantes do povo, não importa orientação política, não importa legenda. Quando falam, tempos depois do confronto, tentam culpar alguém e algumas frases chegam a constranger.

Em meio ao movimento, eu, que não sou sociólogo nem tenho bola de cristal, estou acreditando que isto é só o estopim. Que começou por R$ ,020 do transporte público, só que vai se espandir a outras áreas sociais. Mas isto talvez seja uma verdade apenas minha e que certamente não convém a todos.

*Escrevi este texto antes do protesto do dia 13. Horas depois, claro, precisei adaptá-lo.
**As fotos são minhas, dos protestos em março e abril. Foram tiradas com meu celular, na correria de enviar algo para a redação.

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2 pensamentos sobre “O que aprendi nas ruas

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