Crônica de litoral, parte 1

litoral

Um dia só foi verão

Cada vez ando mais concretizando a ideia de que, num piscar de olhos – que na verdade durou algum punhado de anos –, distorceram completamente a forma original de se veranear – verbo este que tenho impressão que só ouvi com frequência ao Sul do Rio Mampituba.

Talvez a primeira e maior discrepância com o que se faz hoje comparado com os veraneios da minha infância seja o tempo. Antes era algo bem maior. O veraneio começava ali pelo Natal, pelo meu aniversário, e se estendia longamente até quase o despertador tocar às 6h de um dia de março, quando tonto de sono me arrumava para ir às aulas do Colégio São João.

Era um tempo meio mágico, tenho certeza – ainda que o passar dos anos possa ter afetado um pouco da minha memória (além dos meus cabelos). Lembro-me de uma época livre, sem perigos maiores afora o de se afogar no mar. Uma das diversões, somada à praia, era entrar em casas alheias que por ora estavam vazias. Vivia-se um tempo tão impensável hoje, aquele, que nem grades havia. E que a brincadeira de se esconder acontecia à noite, com um grupo de amigos temporais, que só se via naquela época ou, por vezes, em um único e determinado verão.

Aquele lugar ainda se chama Tramandaí – uma praia do litoral gaúcho que, pela minha lembrança, ficava bem mais longe da minha casa do que hoje. Talvez a estrada tenha diminuído, sei lá. Não sei bem precisar o tempo que se levava de viagem, mas recordo que, quando criança, achava-o desgastante. Hoje é apenas uma hora e meia, no máximo.

Talvez à medida que a praia ficou mais perto o veraneio foi mudando. Primeiro, porque aquele lugar mágico deixou de existir somente entre dezembro e março para se fazer presente em outros meses e estações. Faz até frio por lá. Aí muitas coisas mudaram. Saíram os castelos de areia e entraram namoricos, o (frustrado, mas divertido) surfe e festas.

Os veraneios, aí, perderam a ingenuidade dos primeiros tempos mágicos.

Hoje a praia, seja ela Tramandaí ou qualquer outra, parece algo antagônico àquilo. Cercas, carros, asfaltos e prédios se proliferaram, invadindo um cenário de então tranquilidade. Sem falar do som dos vizinhos, que parece ser mais potente ano após ano. E pensar que foi num piscar de olhos que deixamos que tudo isto acontecesse.

Mas das importações urbanas mais graves, o individualismo se sobressai. Inventaram esta mania de se isolar em grandes casas dentro de condomínios de grandes muros e protegidos por cercas, que até elétricas são. A beira-mar deixou de ser algo legal para muita gente que vai à praia.

Por mais esquisito que soe, este conceito foi tão bem aceito que qual minha surpresa ao ver o slogan (?) de Xangri-Lá, uma vizinha igual à Tramandaí: “A capital dos condomínios”. Melhor tentar esquecer que esta frase – que em nada remete ao querido e antigo veraneio – foi apresentada (e quiçá elogiada) por muita gente até ser publicada.

Menos mal que o único ente constante nesta virada de tempos é o mar, que, por mais concorrentes que tenha, mantém seu rugido forte, característico no litoral gaúcho. Como um velho sábio, que cita sempre o mesmo conselho. Constante, como nós não somos.

Fevereiro de 2014

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