Razão ou coração?

     Era uma disputa de pênaltis entre os sexos de uma das turmas da 8ª série do Colégio Barddal, em Florianópolis. Como chovia naquele dia, meninos e meninas tiveram que dividir o mesmo espaço. No gol, um colega novo despontava como bom candidato a vaga no time. Em poucas aulas de educação física, havia se destacado e, em tempo recorde, chegou a ‘seleção da turma’. Naquela chuvosa manhã, defendia todas sem dó nem piedade.
     Até que a Thainá ajeitou a bola na marca penal. Encararam-se – como faziam em todas as aulas –, afinal de contas, gostavam-se. A turma toda já sabia disso, embora nenhum dos dois admitisse e refutasse, bem como fazem adolescentes de 13, 14 anos. Logo começaram os risos maliciosos e as piadinhas por parte dos colegas. Dúvida no ar. Será que ele deixaria entrar? Será que ele deveria deixar? Ela não era qualquer uma. Ela era ‘ela’.
     Thainá partiu, desferiu o chute. Fraco, mas em direção ao gol, como quase todas as outras gurias. Ele, que torcia para a bola ir para fora, viu-se em uma sinuca de bico: ou deixava a bola entrar e continuaria a ouvir piadinhas, além de ter sua invencibilidade quebrada quase no final do período, ou defendia, agindo exemplarmente, como fizera em todas oportunidades anteriores.
     Enquanto a bola vinha, pensava. Estendeu a mão para defendê-la, mas logo em seguida recolheu um pouco o braço, de uma maneira que permitiria o gol, depois esticou… e assim sucessivamente até o instante final. O instante em que a bola parou em suas mãos. Olharam-se de novo. Ele um riu, tímido pelo ato – em tese correto – e ela, mesmo sem aparentar tristeza, baixou a cabeça.
     Lembrei-me dessa história dia desses, quando conversava assuntos desse nível com uma colega minha. Dissertávamos sobre destinos e escolhas num canto de bar. Nessa situação, a dúvida é sempre a mesma. “É que Deus fez a cabeça, em cima do coração, para que o sentimento não ultrapasse a razão” – me responde um samba. Pode ser, mas estaria sempre certo isso?
     O goleiro pegou todos os outros pênaltis, terminando invicto naquela aula. No entanto, não saiu satisfeito. Sem dúvida, agira de maneira exemplar, da maneira esperada – principalmente de um goleiro. Todavia, fico eu na dúvida, se cometesse uma transgressãozinha só, talvez não o condenassem, talvez sequer ficasse com peso na consciência. Mas, é aí é que está o litígio: ‘Talvez’! Nunca se sabe o que pode acontecer quando não se pensa bem nos atos.
     Não que eu pretenda responder essa questão irrespondível, só quis compartilhar contigo, caro (a) leitor, esse debate que tive. Acho que ninguém tem uma resposta convincente para isso, porque ‘Depende’ não vale! Até a própria música que citei agora há pouco se confunde no refrão: “Saudade, saudade, hoje eu posso dizer o que é dor de verdade.”
     Apesar de meu signo – dizem – ser do elemento terra e com isso – dizem – tenho tendência de usar a razão, vez que outra, acho que um ato pela emoção cai bem. A razão é fundamental – ó o capricorniano se manifestando –, mas o coração pode proporcionar momentos inesquecíveis.
     Isso se percebe com o passar do tempo. Eu aprendi depois de ter pegado aquele pênalti e, logo depois, sair do Barddal e nunca mais ter visto a Thainá.

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10 pensamentos sobre “Razão ou coração?

  1. Esse duelo entre razão e emoção é o que faz a vida valer a pena.
    O importante é saber-se o que vale a pena. Muitas vezes atos que a nossa razão nos condenam são o que dão o tempero de nossas vidas, são o que nos lembramos anos mais tarde. A resposta do grande mistério é perceber os nossos sentimentos, identificá-los, racionalmente – parece paradoxo, mas é verdade. Temos que conhecer nossos sentimentos e investir racionalmente naqueles que julgamos que valem a pena. Talvez se aquele goleiro, tivesse tomado aquele gol, desse azo a realização de uma emoção, de um desejo, que por causa da sua racionalidade não se permitiu. Esse é, de fato, um grande dilema de nossas existências.

  2. Que dilema, hein?!
    Pois é, temos q alinalisarmos mto antes de tomar uma decisão, ver oq realmente vale a pena. Mtas vezes o coração fala mais alto do q a razão… e agradecemos por termos tomado aquele decisão sem pensar mto… ou não, às vezes a razão é mais importante… isso faz parte da vida…
    nesse dilema, q vamos tocando nossas vidas, às vezes acertando, e mtas errando, mas não considero tdo o erro ruim… pq vale de experiência !
    beijos te amo muito, meu irmão!

    ps: realmente na situação desse goleiro, ficou mto complicado resolver em alguns segundos… a Thainá, podia ter sido a mãe dos meus sobrinhos, e vc tyalvez estaria morando aqui… ou nao neh?! talvez esse gol nao teria mudado nda… MISTÉRIO!

  3. Ahhhhhh! Que lindo, gente!!! Como sempre (quase sempre). Estive ausente um tempinho, porque me mudei de Ituiutaba pra Uberlândia, também em MG. Estou fazendo faculdade… Cinema. Mto legal, tô adorando o curso. Só que não pude trazer o meu computador…. por isso estou sem acesso à internet. Sobre o seu post, a vida é assim mesmo…. a gente sempre passa por isso…. nunca vamos saber se fizemos certo ou errado…. eu, geralmente, não passo vontade, não! Se me dá vontade de testar uma coisa dessas, eu vou lá e faço; fico pensando: “vai que dê certo…. eu não posso deixar essa chance passar”. Já me dei bem e já me dei mal nessas. Mas nunca fiquei pensando: “como teria sido???”. Beijos… saudades de ti.

  4. Nunca mais viu essa tal índia (sim, com um nome desses ela deve ser índia) justamente pq pegou o penalti.
    Perdeu um cabaço e não ganhou um campeonato!

    Que burrrrrrrrrrro… dá zero pra ele, professor!

    E o pior de tudo, perdeu de rebatizá-la de índia Jacumí.

    No próximo penalti feminino, já sabes…

  5. Ola adorei a historia e estou passando por um momento “entre a razão e o coraçao”….esse dileme é de enlouquecer…Sem contar q tbm sou do signo de capricornio que dizem ser do elemento terra…Sim muitas vezes vou pela razão mas nao nego q meu espirito muitas vezes tbm sente a vontade de se libertar….tipo:” libera e joga tudo pro ar” e seguir o coraçao.
    Ultimamente tenho mudado e seguido mais meu coraçao…
    Sei la acho q a vida é uma só para ficar se prendendo tanto a razão, afinal dizem q ela é feita de riscos.
    Sei q meu coraçao nao vai acertar sempre, vai me fazer chorar
    mas no final de tudo eu poderei olhar pra mim mesma e dizer EU VIVI!!!

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