Textos baianos: Saudade do Morro

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Havia 66 notificações pedindo alguma atenção em apenas um aplicativo de rede social. Isso sem falar nas mensagens, que sempre apareciam às dezenas quando o celular encontrava um mínimo de conexão. Tinha ainda os e-mails. Sisudos, carregados de compromissos, eles.

Mas havia também o mar! Bem em frente. E não apenas uma, mas quatro praias de águas verdes e pedrinhas multicoloridas de encantar crianças – e, ok, adultos também. Morro de São Paulo, Bahia. Uau, que diferença para seu xará do Sudeste. Sois verdadeiramente opostos batizados com o mesmo nome.

Ante aos compromissos de vidas permanentemente digitais, ondas. Ininterruptas. Não de dados, mas de vida. Uma vida mais simples e pacata. Mais ligada à natureza do que às possibilidades provindas de um cartão de crédito. Ondas que, pouco a pouco, carregam o peso de dias que quase não tinham fim na rotina do trabalho.

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Num mundo tão sem pausas, um recomeço à beira-mar do Morro de São Paulo é revigorante.

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Diários Mexicanos: Turismo para o bem e para o mal

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Quantos mexicanos há numa praia mexicana?

Cancún é um polo turístico como outros tantos neste planeta. Tal como um, vive numa dualidade incrível, entre o povo que vem de fora e o povo que vive lá. Mesmo escancarada, a realidade nem sempre é percebida por quem vai lá com foco em tomar a direção do aeroporto (ou da marina) dali a alguns dias.

O próprio aeroporto já é um indicativo. Se lá de cima vê-se um monte de ruas sem asfalto, na pista há um número considerável de aviões de pequeno porte, esses que carregam gente que paga bem mais para não precisar sentar ao lado de desconhecidos em voos comerciais.

A Zona Hotelera de Cancún em nada lembra a horizontalidade de áreas que ficam a não muitos quilômetros dali. O mesmo dinheiro que ergue prédios e resorts enormes à beira da praia, às vezes afasta quem é, originalmente, dali. De tantos prédios quase à beira-mar, entradas públicas à praia transformam-se em ruas quase estreitas entre espigões enormes.

E no mesmo asfalto em que passam carros seis dígitos de dólar, passam ônibus lotados de mexicanos – e alguns turistas mais humildes, ressalte-se. Ainda assim, há diversão entre os locais, que, ao menos num primeiro momento, não escancaram alguma “turismofobia” como em outros cantos do mundo. Talvez, isso de relevar (até certo ponto) a desigualdade, seja uma característica latino-americana.

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A praia e seus espigões

No fim, não é para se reclamar de tudo mesmo. A grana que vem de longe faz a roda girar. E o povo se vira e se esforça para ficar com verdinhas alheias. O vendedor de souvenir fala qualquer coisa para gerar um mínimo de intimidade e atrair aquele que vem de longe, o marinheiro trata bem para expor ao fim da viagem um pequeno cofre em forma sugestiva de porquinho e dizer que vivem da “propina” oferecida. O mexicano se veste de Máscara em frente ao Coco Bongo para surfar a mesma onda e levar uns dólares a mais daquela carteira internacional.

O turista, de fato, recebe grande atenção por onde passa em Cancún. Mas talvez tudo não passe de encenação. Tudo seja uma simpatia paga. Sorrisos para se conseguir dinheiro e evitar dores lá na frente.

E a vida segue.

Diários Mexicanos: Um mar mais claro que o céu

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Navegar é preciso

Existem bem mais de sete mares neste mundo – são dezenas, na verdade. Alguns mais calmos, outros revoltos, uns escuros, outros de uma transparência absurda. Dos que já vi, um é de cenário hipnotizante: o Mar do Caribe. E é preciso conhecê-lo, ao menos uma vez na vida experimentá-lo.

É necessário mergulhar, de preferência em local onde não se dá pé. Imergir e espantar-se com o mundo e a vida submersa. Uau, como é claro. Uau, como é possível enxergar ao longe, mesmo debaixo d’água. Mesmo num mundo que produz tanta poluição e finge não se preocupar muito com isso.

Qualquer gaúcho que passou a infância em Tramandaí quase não conseguirá entender como o mar pode e é assim, de um azul-turquesa que já se destaca de longe quando se aproxima de Cancún. Ou como a areia pode ser clarinha e fofinha, sem ser aquele piso resistente, por vezes manchado, que se encontra a 100 quilômetros de Porto Alegre. Além de conchas e outras formas que vêm do mar.

Nada contra o mar gaúcho, deixemos claro. O mar do Sul do Brasil tem uma força impressionante e uma sisudez quase que constante, é seu jeito e não adianta. Já o do Caribe vive outro tempo. Se o mar destas bandas é inverno, os caribenhos inspiram um verão infinito – não muito diferente da Bahia, por exemplo. Aliás, não recusem um convite para conhecer a Praia do Forte, em Mata de São João.

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Talvez a vida fosse melhor se todos pudessem ir a uma praia caribenha como iguais, sem all inclusive, falando o idioma que fosse. Apenas com o mais infantil intuito de banhar-se e ser feliz. Como num eterno verão à beira-mar.

Rio, seu cafajeste

O Rio é como um cafajeste de marca maior: tão lindo e deslumbrante quanto a má-fama que carrega consigo há anos por conta de um comportamento distante do ideal que esperamos.

Talvez nem devêssemos elogiá-lo e sim superá-lo, afinal nosso país tem tantas e tantas outras belezas naturais. Mas o Rio sempre conquista. Como resistir à sua ginga malandra, a sua cor-Brasil? Ou, na forma bem direta – e cafajeste de ser: como não se apaixonar pelas curvas do Rio?

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Sejam curvas de garotas (ou garotos, a quem preferir) de Ipanema, das ondas da calçada de Copacabana ou da geometria do Pão-de-Açúcar. Difícil ignorar, quem dirá esquecer desde a primeira vez.

Uma lista de defeitos, quem sabe, seria capaz de escancarar este cafajeste carioca. E não faltam: violência e o medo constantes, é a desigualdade revoltante, o Hell de Janeiro que o Brasil deixou florescer perto da praia.

De repente, devia-se evitar o Rio. Só que como resistir a olhar uma vez mais a Enseada de Botafogo, a uma espiadela ao Cristo Redentor lá no alto? Ou como não pensar em ir a um jogo no Maracanã? Rio, cê não presta!

O Rio é um cafajeste de marca maior, não à toa que conquista a todos. Tem um sem-número de defeitos, solenemente ignorados diante de sua divina beleza, que a cada amanhecer samba na nossa cara, diante de qualquer desdém.

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Rio, ah, o Rio.

Fotos: Rio2016

Os mares do mar, num lugar só: Lisboa

(Ou: Quase dentro do mar)

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Lisboa, não sei bem o porquê, me dá saudades. Desde o dia em que saí de lá penso em voltar. É uma cidade cosmopolita, com jeito de pacata e intimamente ligada ao mar, ainda que seja banhada por um enorme rio, o Tejo.

A cultura portuguesa remete a um mar sem fim, às navegações e conquistas inéditas de séculos atrás, quando corajosos gajos lusos embarcavam em naus sem ter direito certeza do que – ou quem – iriam encontrar pela frente nos meses seguintes.

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Mas muito do mar hoje está na capital portuguesa. Mais precisamente desde 1998, quando foi inaugurado o Oceanário de Lisboa, um dos passeios mais legais que fiz por lá, quando lá estive (ai, que saudade!).

Se hoje lembramos dos navegadores e dos destinos conquistados por navegadores portugueses, o oceanário lembra por onde eles passaram. Seus ambientes levam o visitante a diferentes e inóspitos cantos do mundo marinho. Habitats que se localizam a milhares de quilômetros estão alojados a poucos passos.

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Vi pinguim e peixe-palhaço, assim como tubarões e o inesquecível peixe-lua ao longo do tempo em que estive no oceanário. Passei frio e calor, conhecendo um pouco do ambiente ártico e do Oceano Índico. E nem precisei viajar mais ou pagar uma entrada adicional para espiar esses mundos. Bastou apenas caminhar e seguir adiante, tal qual os navegadores de séculos passados.

Todos estes oceanos e lugares distintos de cada canto do oceanário quase ligados a um imenso aquário central, de três andares de altura e nele contendo um sem-fim de espécies de peixes e criaturas marítimas. Ainda que, reclamemos, acabei saindo de lá sem ver nenhuma baleia!

O oceanário, que fica até um pouco distante da tradicional Alfama, mas é acessível pelo metrô, é um dos lugares, enfim, que faz eu sentir uma permanente saudade de Lisboa.

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Como dica amiga, sugiro ao potencial visitante ter em mãos um “Lisboa card”, bilhete que garante passagem pelo metrô e outros modais. Assegura um descontinho amigo na hora de comprar o ingresso, cujo preço máximo, hoje, é de € 15,30, mas também pode ser adquirido com desconto no site.

As pazes com Maceió

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Navegando por águas tranquilas

Se o dia anterior havia sido um tanto frustrante, ao menos a manhã veio com uma nova oportunidade. Já atento tanto à hora e à maré, pulei cedo da cama e, num horário considerado pornográfico para mim, já estava na praia de Pajuçara, em Maceió, sabendo que a maré estava vazando.

Consegui zarpar na primeira jangada rumo às piscinas naturais para enfim conferir se Alagoas é mesmo o paraíso das águas, conforme o marketing local anuncia. Parêntese: por acaso e sorte negociei um passeio direto com o jangadeiro e não com um intermediário. Como de praxe em todo o comércio nordestino, tive alguma margem para a pechicha. O telefone dele é 82-98742.8896.

Da areia à área delimitada das piscinas são 15 minutos navegando por um mar tranquilo e protegido das grandes ondas pelos corais mais adiante. Atentos perceberão desde logo tartarugas e outros peixes nadando na volta.

Passados dois quilômetros chega-se às piscinas. E finalmente se pula naquela convidativa-e-morna-água-azul-turquesa-de-não sentir-saudade-de-Caribe-algum. Malandros que são, os jangadeiros levam para o mar pedaços de pão, que são jogados aos peixes que, mais malandros ainda, aproximam-se para abocanhar a refeição fácil, enriquecendo a experiência.

Em outros horários, jangadas-bares ancoram por ali, porque um dia alguém se deu conta que vender bebidas lá seria um grande negócio, em virtude das geladeiras mais próximas estarem um tanto quanto longe.

Após uma série de mergulhos, finalmente fiz as pazes com Maceió após aquela tarde pouco abonada nas redondezas da capital. Posso lhes garantir que, depois de duas semanas de um frio porto-alegrense, algumas vezes já me peguei suspirando de saudade daquele mar.

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Reparem nos peixes e em Maceió lá atrás

Sobre hora e maré no Nordeste do Brasil

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Dependendo da hora, o negócio é ficar dentro ou fora’água

Eis dois fatores que o pessoal daqui do Sul não atenta muito, mas que são fundamentais no Nordeste. Primeiro, a hora. No Nordeste o sol nasce mais cedo que nos lados meridionais e às 6h o dia não só raiou, como até um calorzinho já faz. Na outra ponta do dia, 17h o pessoal já começa a se preparar para ver o pôr do sol.

Ou seja, chegar às 15h30min, 16h na praia é quase para se preparar para ver a noite chegar ao som das ondas. É o tal clima de “fim de festa” que citei no post anterior, quando da vez em que estive na Praia do Francês. Digamos que 16h equivale a cerca de 17h30 no “fuso” gaúcho. É a chance de um mergulhinho e deu, em suma.

Outro ponto importante: a maré é fundamental para a maioria dos passeios turísticos. Tanto as jangadas em Maceió, quanto os barcos das praias do Gunga ou do Francês – e, imagino, em Maragogi – só navegam na maré baixa. O mesmo vale para os mergulhos. Se chegar atrasado, perde-se o dia.

Aconteceu comigo em Alagoas, mas poderia ter ocorrido dias antes na Bahia, onde só pude aproveitar as piscinas da Praia do Forte por ter chegado na baixa da maré. E, em verdade lhes digo, valeu – e muito – ter se atentado a este detalhe e feito a programação correta.

Mas como saber quando a maré vai estar alta ou estar baixa? Existe a opção interpessoal de perguntar a guias e/ou pessoas que oferecem os passeios e também há a boa e velha alternativa nerd e prática: a internet. A Marinha mantém este site atualizado diariamente. Outros aplicativos também fazem o mesmo.

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Na maré alta, jangada boa não vai pra água