Meu caminhão de lembranças

     Arrumar o quarto é sempre, no mínimo, uma experiência ímpar, uma verdadeira viagem no tempo. Ao menos para aqueles como eu que não costumam fazer isso com uma freqüência que uma aula de etiqueta recomendaria. Além do mais, sou do time que costuma guardar tudo – isso torna tal ato ainda mais interessante.
     Dia desses, tomado por uma necessidade de pôr tudo em ordem, olhei para minha mesa e disse: “É hoje”. Gastei quase duas horas para ajeitar tudo. Detalhe: ela não tem mais de metro e meio de largura e possui apenas uma única gaveta.
     Acabado o serviço, pude constatar: como eu guardo coisas. Mesmo! E como essas coisas me remetem a determinados momentos da minha vida, que hoje estão empoeirados em algum canto da minha memória.
     Todos os cacarecos que se espalham pela minha gaveta – “de jogos” (não tem onde guardar? Joga lá), como diz o Tiago* – por exemplo, tem suas histórias. E todos eles guardam alguma parte da minha história também, como as palhetas. (Aliás, caro(a) leitor, sabias que já tive uma banda? E de reggae ainda… pois é, minhas palhetas estão aí pra contar).
     Os fones de ouvidos remetem à viagem a Cuba, mais especificamente aos aviões da Copa Airlines. O relógio parado lembra o Chuí e que eu preciso trocar sua pilha há mais de dois anos. Ainda há a régua escolar dos tempos de Rainha do Brasil e um colar de sementes dado pela ex-namorada…
     Mas nada tem tanto valor sentimental quanto as 13 publicações proibidas para menores de 18 anos empilhadas sobre os trabalhos da faculdade no vão inferior esquerdo da mesa.
     Lindas mulheres, como Maitê Proença – a primeira Playboy que comprei, de agosto de 1996 – e Cléo Brandão – a última, de maio de 1999 –, foram musas da minha adolescência. No entanto, hoje já não são mais reverenciadas e estão ali, abandonadas, apenas por estar.
     Confesso, faltou coragem para colocá-las fora ou então vendê-las como se fossem meretrizes. Não, elas não merecem. Contudo, ao mesmo tempo, hoje só ocupam espaço inutilmente. Devo arranjar um destino digno para todas elas. A solução seria um primo entre 11 e 14 anos de idade, com vontade de descobrir “como era a diversão sem internet e photoshop”**.
     A viagem, o carinho, o apreço com aquelas épocas são tão grandes que chega a ser difícil de acabar a arrumação e voltar para o presente. Ainda mais quando o objetivo dela era arranjar mais espaço para livros, café, blocos e canetas para começar a escrever o temido Trabalho de Conclusão de Curso.
     E, metaforicamente, substituir passado por futuro.

*Não sou o Pelé para falar em 3ª pessoa, então, não confunda-se, o Tiago referido é o Trindade.
**Pippo, 2008.

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Entre a tensão e a satisfação

     Passada a primeira reunião de orientação da minha monografia – o tal trabalho de conclusão de curso – percebi uma coisa: será difícil dar tchau pra Famecos. Não esperava moleza, mas também não queria um bicho de sete cabeças. Até o meu dead line, em 13 de novembro, pirarei, com certeza. 
     Mas azar, nunca fui de negar pauta mesmo!

***

     Seis horas depois dessa reunião chegou o 26 de agosto. O que isso significa? Que estou brincando de blogar há dois anos. Nessa data, em 2006, criei a Telha do Tiago, na versão weblogger – hoje falecida, por causa do abandono.
     O legal dessa história é que, em 26 de agosto de 2007, escrevi um post agradecendo aos dois mil, quatrocentos e poucos acessos. Um agradecimento realmente sincero e feliz. Agora, porém, em pouco mais de dez meses de wordpress, foram mais de 10 mil visitas.
     O que eu posso dizer? Obrigado, muito obrigado. E volte sempre!

Trabalho de Hércules

     Chegue cedo na biblioteca. Pesquise, anote, rabisque. Escreva tudo o que pensares e irrite-se com as lindas gurias que passam e insistem em desviar sua atenção com suas voluptuosas nádegas e decotes inescrupulosos.
     Vá à cata dos livros. Os que você quer, coincidentemente, estarão na prateleira mais de baixo. Sente-se no chão do corredor. Recline-se. Procure, vasculhe. Surpreenda-se, pois eles têm mais páginas a serem lidas do que tempo que você dispõe para lê-los. 
    Abra-os, folheie-os e olhe para cima. Há muito mais livros a serem lidos. Entristeça-se – poeticamente falando – ao mirá-los, porque você se dá conta que ainda terá que ler muito para aprender alguma coisa e “ser alguém na vida”, finalmente.
    Ache a bibliotecária e pergunte aonde está aquela bendita dissertação de mestrado da sua professora, cuja aula foi há semestres e que você nem prestava muita atenção quanto deveria.
    Arrependa-se disso!
    A bibliotecária te guiará por corredores e mesas. Numa dessas, você enxerga uma pessoa exausta debruçada sobre pilhas e pilhas de livros. Nesse momento, você percebe: esse será o seu futuro muito em breve.
     E olha que a monografia só está no começo…