Olhos de ressaca

capitu

Nunca tinha sido muito próximo aos livros. Não percebera, então, que aquele era bem mais que um simples olhar. Bem mais.

Dentre tantos relacionamentos líquidos, deixara de notar justo a sua Capitu. Não viu seus olhos, lembrou-se apenas na ressaca.

Agora fica no aguardo. Quem sabe de um próximo romance. Talvez algo do realismo, pois de poesia (e subjetividade) passou longe.

Manhã de sábado

Insistentes raios de sol vão se espalhando pela casa após trespassarem as frestas da janela. A casa está em uma soberana tranquilidade, incomum para aquela hora da manhã. Mas hoje pode. hoje é sábado e o despertador está de folga depois de mais uma semana puxada.

Na cama, acordo. Só que ela não. Espero, desperto. Ela dorme profundamente. Cuido qualquer movimento para não importuná-la. Mas sigo despertando e ela, sonhando. Já quero levantar, ganhar o dia e ela, nada.

Inquieto, fico em dúvida. Há um mate, um texto pra ser feito. Tenho que arrumar a casa, a mesa, a vida. Mas com ela é mais difícil… Dormindo, ela percebe a pré-agitação. E não precisa de palavra alguma para me convencer a ficar. Sequer acorda.

Apenas se ajeita, de uma forma que só mulheres amadas sabem como fazer. Cola seu corpo no meu e mia um miado que se sente, mas não se entende. Uma prova irrefutável: ela me ama, e isso que importa. O mundo, e o sábado, que esperem um pouco mais.

Quando elas nos ganham

     O beijo é bom. O sexo é ótimo. Unanimidade, isso. No entanto, não são as melhores partes no relacionamento entre homem e mulher. Esse momento que digo é aquele no cinema, na rua ou mesmo num banco bem no fundo de um ônibus.
     Quando as mãos se encontram e os dedos se entrelaçam naturalmente, como se uma procurasse a outra.
     Sim! Sou completamente a favor do passeio de mãos dadas. Da mesma forma com os abraços e a troca de risos por quaisquer bobagens. Pois poucas coisas são melhores que um bom carinho feminino. Aliás, nada é melhor que isso.
     Momentos em que o beijo, que é bom, e o sexo, que é ótimo, são perfeitamente dispensáveis. Até mesmo as palavras tornam-se fúteis. Quando se deseja apenas o contato, o abraço. O carinho, enfim.
     Tenho lá uma teoria a qual diz: mulheres são más e não prestam. E não a nego. Até diria mais, são cruéis. Porém, elas também sabem fazer bem a um homem. Tanto é que mesmo sendo assim, dissimuladas, nos conquistam.
     Nos ganham sempre quando permitem aquele momento do abraço, do carinho, de dormir junto. Nessa hora, o beijo é perfeitamente desnecessário. Mas depois…

O gol da desonra

     Era pra ser só mais uma pelada de domingo à noite. Mas era impossível ser só mais uma pelada de domingo à noite por um mero detalhe: Laura estava na torcida. E, em campo – e em times opostos –, estavam Rodrigo e Daniel. Respectivamente, o ex e o atual namorados dela.
     Nenhum dos dois costumava jogar lá, contudo como tinham o mesmo grupo de amigos, o acaso os reuniu novamente naquela cancha. Eles, que outrora foram amigos, não se falavam desde que Daniel iniciou seu romance com Laura, dois meses depois do fim do relacionamento entre ela e Rodrigo. Motivos óbvios, portanto.
     Rodrigo era goleiro. Daniel, atacante. Não se olharam, muito menos se cumprimentaram antes, durante e depois da partida. Enquanto os outros disputavam uma pelada, os dois jogavam uma final de Copa do Mundo em jogo noturno. Queriam provar que eram melhor que o outro. A juíza estava ao lado da quadra, assistindo a tudo.
     O time de Rodrigo vencia fácil: 4 a 0, porém, estranhamente, ele comemorava mais as suas defesas do que os gols de sua equipe. Já Daniel corria, se movimentava, procurando o espaço e a chance ideal para liquidar com aquele goleiro. Um golzinho só já o deixaria feliz. O resultado final não interessava.
     Já o arqueiro estava concentrado. Não era à toa que o escore do outro time ainda estava zerado. Jogava concentrado, obstinado e com atenção especial naquele movediço atacante que teimava em rondar a área. Que tomasse gols, tudo bem, mas não dele. Era mais que uma partida, era uma disputa pessoal.
     Do lado de fora, Laura olhava friamente. Não demonstrava torcida por nenhum. Estava muito feliz com o atual, cujo namoro já superava em tempo o relacionamento que teve com o ex. No entanto, também fora bem feliz com o anterior. Preferiu não se manifestar, optando pela indiferença feminina.
     Como em toda pelada, um time que aplica uma goleada logo no começo do jogo, não necessariamente mantém o resultado até o final. Aliás, quase sempre deixa empatar. Naquela de domingo à noite não era diferente: 4 a 3. No entanto, Daniel ainda não havia conseguido um bom arremate contra Rodrigo que, mesmo com o adversário encostando no placar, parecia não dar muita bola para isso.
     A partida já se aproximava do final. Os times tiravam pé e afrouxavam a marcação pelo cansaço. Rodrigo sabia disso. Os dez minutos finais seriam o clímax não só do jogo, como também de sua disputa particular. Naqueles momentos que se seguiriam, Daniel provavelmente teria mais chances. E teve.
     Num lançamento em profundidade para o atacante, o zagueiro antecipou-se. Ciente da situação, tinha como missão evitar uma trombada entre os dois. Um encontro de frente poderia resultar se não em morte, em uma fratura exposta numa tíbia descuidada. E pensar que tudo ocorria por causa de uma mulher.
     Restando pouco menos de cinco minutos para o término, a vitória para a equipe de Rodrigo já estava assegurada. O tradicional placar peladeiro: um montão a um montinho. Com isso, a defesa afrouxou de vez. Pouco antes, fizera duas interceptações importantes, em que o atacante estava livre na sua frente.
     Nesse último ataque, o adversário da vez era Daniel. Livre, leve, solto, correndo pelo flanco esquerdo do campo. O embate agora era inevitável. Da entrada da área, desferiu o chute. A bola não foi forte, a mão do goleiro a encontraria sem maiores dificuldades. Mas teve um pé no meio do caminho. Um pé de zagueiro atrasado. Na ânsia de cortar, desviou para própria meta.
     Gol!
     O goleiro tomba, o atacante comemora. O resto dos jogadores não entendem tal vibração e tamanha desilusão dos protagonistas do lance. Porque era pra ser só mais uma pelada de domingo à noite. Mas era impossível ser só mais uma pelada de domingo à noite, pois Laura estava na torcida.

Pedaço de Paraíso – Parte IV

     Roots! Assim, em uma única palavra, pode ser definida a Praia do Rosa. Dessas, em que para se chegar a faixa de areia, é preciso caminhar um pouco (ou um muito). Outra opção é subir e descer um morro e passar na beira de um lago. Das ruas que passei, vi apenas uma calçada – o resto é de chão batido. Artigos hippies são importantes para a economia local, da mesma forma que as pousadas.
     Assim que chegar no Rosa, caro(a) leitor, faça um favor a si mesmo: esqueça internet, carros, problemas. Esqueça que existe um mundo cujas cores não são o verde da natureza que tem lá. Ouça o trinar dos pássaros e nem se lembre mais do barulho da cidade. E leve um violão. Alguém ainda vai me explicar, mas é bem legal tocar no Rosa do que em outro lugar.
     O espírito do surfe predomina no balneário. As ondas são convidativas para o esporte e as mulheres com seus biquínis também tomam sol com a marra surfista. Na faixa de areia, também se encontra ‘às pencas’ gaúchos e argentinos. Aqui no sul, defendem que a região de Garobapa deveria ser incorporada como litoral do Rio Grande do Sul, inclusive.
     Num local em que há encontro de hippies e surfistas, uma coisa não poderia deixar de faltar, a maconha. Praticamente onipresente em toda a praia. Confesso que fiquei espantado, pois as pessoas fumam tranqüilamente pelas vias, porém não esquecem do capacete ao andarem de moto. Pelo menos as leis de trânsito são respeitadas.
     Se tu, caro(a) leitor, não se incomodar com a turma do cachimbo da paz, certamente conseguirá aproveitar o máximo as belezas. Particularmente, eles não me incomodam. Procuro me divertir com a quantidade de bobagens e viagens que falam logo após o consumo da erva. Mas vale a velha lógica: tudo que é em exagero, fica chato.
     A cena noturna do Rosa é boa. Há alguns lugares interessantes para ir depois das 22h. Cito dois: Mar del Rosa e Beleza Pura. Há bem mais, infelizmente meu tempo não foi suficiente para conhecer todos. No primeiro, nem cheguei a ir, pois minha realidade financeira não me permitia festas com ingressos a R$ 40,00. Além do mais, lá toca eletrônica, um tipo de barulho que eu não gosto.
     Já o Beleza Pura, unia duas coisas que adoro: festas roots e argentinas. Um capítulo a parte, essas argentinas. Pra quem acha que as gaúchas são difíceis, é que não conhece las porteñas… Nem com apoio de um amigo argentino consegui hablar español con las muchachas. Azar, a diversão é garantida. Só prepare o bolso, pois a cerveja – como quase tudo comestível lá – é cara. Exemplo: R$ 6,00, a cerveja; R$ 2,50, o litro do leite; R$ 14, 00, o buffet. No entanto, nada que uma boa pechinchada não resolva… Principalmente no restaurante Aquarius.
     Enfim, o Rosa é um lugar sensacional. Voltei de lá com a teoria de que todo mundo merece quatro dias no Rosa. Mesmo que, às vezes, seja deveras difícil de chegar até lá, é uma terapia anti-estresse perfeita, desde, claro, que o visitante não se incomode com certos costumes locais e queira passar quatro dias na maneira que o lugar exige: roots!

Sim, eu sei que vocês esperam fotos. Tirei-as. O problema é que a câmera era de uma amiga, então tenho que esperar ela me enviar. Assim que fizer, prometo que publico-as imediatamente para tu, caro(a) leitor, comprovar porque o Rosa recebeu o congresso dos 30 balneários mais lindos do mundo… Por enquanto, vá imaginando uma praia paradisíaca, com pedras, muito verde, mulheres gostosas, surfistas e locais – por incrível que pareça – simpáticos.

UPGRADE: Eis, as fotos. Clicando aqui 

Epopéia Jorge Beniana

     Eu, como a maioria, gosto de Jorge Ben Jor. E, assim como a maioria também, não tenho lá muitas oportunidades de vê-lo ao vivo, porque raramente ele toca em Porto Alegre, além disso, muitos dos seus shows são em eventos vips – coisa que, definitivamente, não sou. Por isso, resolvi dar uma de fã e encarar uma indiada daquelas para assisti-lo no Planeta Atlântida de Florianópolis. Embora já (faz algum tempo) não tenha idade para isso. 

O Planeta Atlântida. Ou “Por causa de você…”
     Pra quem não sabe, o Planeta Atlântida era um grande festival de rock aqui do sul, realizado pela rádio Atlântida (criativo, não?). Digo era, pois a Atlântida há muito deixou de ser uma rádio rock – hoje toca até funk na sua programação – então o Planeta virou mais um festival musical, cada vez mais aos moldes do que tem na Bahia.
     Já gostei muito de ir ao Planeta. Ansiava quase um ano para que chegasse o grande momento. Era o máximo. Sujeirada, mulherada, pegação e, de quebra, alguns shows nacionais. Uhuu! Mas isso aconteceu no auge da minha adolescência. Pouco antes e logo depois do Brasil ser pentacampeão mundial de futebol.
     Hoje não mais. Por acaso, até fui no ano passado. Ou melhor, o meu corpo esteve presente. Em meu álcool havia muito sangue. Quer dizer, o contrário. Ah, vocês entenderam… O problema é que Jorge Ben Jor ia tocar nesta edição. O cara que embala todas minhas noites aventuradas e desaventuradas na cidade baixa. Tinha que ir. Era uma obrigação.

O dia. Ou “Chove chuva…”
     A chuva que caía em Porto Alegre na manhã de 11 de janeiro era desanimadora para a realização qualquer ato fora do leito. Coincidência ou não, nem ouvi meu despertador tocar e quase me atraso pro trabalho. Tive que ser macho o suficiente para encarar aquele tempo fulo e ir a labuta. Lá, dei um jeito e fiz o que tinha para fazer em 8 horas em 5. Mazá! Às 15h20min, rumei ao aeroporto, para dali a 40 minutos embarcar rumo a Ilha de Santa Catarina.
     Chegando ao Salgado Filho, uma surpresa. Onde está a maldita fila para o meu vôo? Última vez que viajei de avião – registre-se: pela Gol – mofei na fila até 15 minutos antes de embarcar. Dessa vez, não. Preocupação. Dirijo-me ao check-in da Tam e tenho uma péssima notícia: meu vôo sairia na hora. Por quatro minutos o perdi. Puta-que-o-pariu, cadê o caos aéreo??? Tive que esperar mais duas horas no aeroporto por causa dessa pontualidade. Menos mau que portava o “Noites Tropicais”, do Nelson Motta, e isso colaborou para o tempo passar mais rápido.

O vôo. Ou “A girar… Que maravilha”
     Viajar de avião é algo único. Principalmente pra Floripa, cuja duração do vôo é 40 minutos, a medida certa para não encher o saco das alturas. O legal mesmo ficar na janelinha. Lá cima, tudo é diferentemente menor.
     As nuvens então. Capítulo a parte numa viagem de avião. Elas têm fases à medida que se vai subindo. A primeira dela é a encardida. Logo depois da decolagem, todas parecem estar meio sujas – ou pelo menos pareciam, já que o tempo não tinha firmado ainda. No entanto, é só subir mais um pouquinho que todas embranquecem de vez. Alvas como propaganda de Omo Progress. A fase seguinte é o Éden. O Sol refletindo nas nuvens e brilhando, parecido com quadros paisagísticos-religiosos que minha avó tinha em casa, desses que dão esperança de que os problemas têm jeito e todos podemos ser felizes. Sensacional, essa visão. Até se tornar monótona e perder a graça. Aí é hora de olhar para outra coisa. 
     O avião que estava dispunha de 11 canais de ‘rádio’. Interesso-me pelo canal três, cuja programação, segundo a revista, anunciara Maria Rita em ‘Samba Meu’. Tri! Queria mesmo conhecer esse disco. Conecto o fone e mesmo com seus dois plugs, havia um mau contato leve, porém irritantemente percebível, daqueles que a única solução é ficar apertando de uma maneira mágica. Azar! Funcionava, ao menos.
    O locutor começa: “alô amigos passageiros da Tam, hoje faremos um especial de uma dupla muito especial” – Putz! Duplas especiais… – “Sandy e Júnior!!!”. Merda. Ao invés da filha de Elis Regina, os filhos do Chitãozinho (ou seriam do Xororó?) no canal 3. Recorri a outro canal de música imediatamente.
     Não sei se foi o lanche servido pelas lindas aeromoças ou os milhares de pés de altura que provocaram um mal-estar súbito na passageira alocada na minha frente. Mas quando ouvi aquele barulho – um som intraduzível para onomatopéia – e senti um cheiro nojento de vômito, percebi que os últimos minutos de vôo seriam longos. Éca!
     De repente, o alvo fica escuro. Começamos a descer. Turbulência, cheiro de vômito, poltrona na posição vertical, que esse avião chego logo, pelamordedeus!!!
     Quando já era possível avistar a ponte Hercílio Luz e nitidamente acontecia a aproximação do solo – no caso, mar –, o avião sobe. E certamente não seria porque a música do Seu Jorge estava boa no meu fone de mau contato. Medo! Não foi bem uma arremetida, mesmo assim: medo! A aeronave sobrevoa Florianópolis. Aos poucos, o temor foi sendo substituído pela tietagem na janelinha. Paisagem linda e, nesse momento, me dou conta que minha câmera está a 500km de mim. Lá de cima, vejo minha casa, o Campeche, o Morro das Pedras, as pontes, tudo isso. E minha câmera a 500km de mim… Que merda mesmo.
     O comandante, enfim, nos explica o motivo da manobra: tinha um outro avião na pista na hora do pouso. Se ele descesse, talvez acontecesse um acidente. Ah, então é aqui que está o caos aéreo!!! Eu sou um azarado mesmo.

A noite. Ou  “Prudência e dinheiro no bolso não faz mal a ninguém”
     Toquei o solo florianopolitano às 19h23min, quase duas horas depois do planejado. Chovia. E Planeta com chuva é motivador. Para ficar em casa. Como disse, já não tenho mais idade para isso. Tudo bem, não era agora que ia desistir, o Jorge ia tocar logo mais.
     Na ilha, precisava resolver alguns tramites pessoais e burocráticos. Um deles, era a questão da locomoção. Para quem não conhece, Florianópolis é uma cidade onde tudo fica longe de tudo. Inclusive o local do show da minha casa. Não tinha tempo para caminhar 30km, portanto precisava de um carro. O da minha irmã, que é um pessoa humanamente subornável, surgiu como uma boa opção. Lataria pouco amassada, pneu meia-boca, mas andava, oras. Depois de uma rápida negociação, fui-me.
     Assim que comecei a dirigir o automóvel, Chorão, do Charlie Brown Jr, dava boa noite pra ‘galera’. A banda fez o último show antes do Jorge, ou seja, tinha pouco tempo, já que estava no continente, teria que ir até o norte da ilha pra buscar o meu amigo – e também fã do Jorge – Rodrigo, voltar um pouco para o sul, estacionar, trovar cambista, comprar ingresso e entrar. Um dia farei as coisas com um pouco mais de planejamento, prometo.
     O percurso ia tranqüilo rumo a canasvieiras. A estrada meio cheia, claro, porém, estava andando e isso me aliviava. O Charlie Brown fazendo um show muito parecido, com as mesmas falas entre as músicas, as mesmas marras e mensagens da época que eu era fã deles – no tempo que eu gostava do Planeta. Pouco antes da entrada de Jurerê, o engarrafamento previsto. Tudo bem, já esperava. O problema é que tinha ambulantes vendendo água na beira da estrada e caminhando por ela – o que já é bem ruim –, sinal de trânsito lento. Só que, pior ainda, é que eles estavam andando vaga e distraidamente e, ainda assim, mais rápido que o meu carro. Tensão, tensão.
     Numa velocidade pouco maior que a inércia, rodei 10km. No momento que Chorão acabou o show, passei na frente do Planeta. Podia ter marcado com o Rodrigo ali mesmo, canasvieiras não era longe. Mas não. Por que eu faço tudo em cima da hora sempre??? Segui mais alguns minutos até encontrar meu amigo. Quando ele entrou no carro, percebi que daria tempo pra chegar lá e ver a tão esperada apresentação.
     Acelero rumo ao Planeta. Vai dar, vai dar. O Jorge já está para entrar no palco. Acho um buraco – pago, obviamente – para deixar o carro. A banda começa a se posicionar. Desço do carro, a mulher me pede ‘vintão’ pelo estacionamento. Jorge começa a tocar sua guitarra. Descubro que os cambistas querem R$ 100 pelo ingresso, porque ‘tem Ivete depois’. O público vibra. Eu desanimo. Todo mundo canta. Eu vou embora. Frustração…

Sin perder la ternura jamás. Ou “Pelas moças bonitas, eu vou torcer”
     O que fazer? O relógio marcava 23h, cedo ainda. Se não vamos até Jorge, ele que venha até nós. Pelas ondas do rádio, sem graça, mas, um tipo de consolo. Acabamos indo para um boteco em Jurerê Internacional tomar uns chopes. A todo momento, o Rodrigo suspirava: “Logo hoje, que até me vesti de planetário?!”. Sim, ele estava mal-vestido, coitado.
     Depois de dois chopes e conversas acerca de diversos assuntos, saímos de lá. Dirigimo-nos para o lugar mais portenho de Santa Catarina: canasvieiras. Não me pergunte o que fazia ali, também não sei. Sorvi uma cerveja quente de marca desconhecida em uma birosca de oitava categoria e tendo o espanhol como língua principal. Situação periclitante.
     Eis que chegam três gringas, faceiras e a fim de papo. Descobri que conversar com argentina bêbada é uma coisa difícil. Tanto em espanhol como inglês – português é impossível para elas. Insisti dez minutos. Queria um consolo para minha frustrada tentativa de ver o show, entretanto uma hora é preciso aceitar a derrota. Essa hora chegou quando a argentina feia e de verruga no nariz aproximou-se perigosa e maldosamente de mim. Aí sim, percebi que a noite tinha chegado ao fim. No outro dia teria que voltar a Porto Alegre. De fusca, ainda. Porém, a história deste possante fica para o próximo post.
     Enfim, maldita seja a Ivete!

Um olhar dos sonhos

     Então os olhos dela encontraram os meus. No meio de uma multidão, miramo-nos. Caminhava apressado, provavelmente atrasado, como sempre. Ela estava parada e com aparência tranqüila quando lançou aquele irrefutável olhar. Foram alguns segundos sublimes, confesso.
     Eu vinha de alguma conquista importante, estava a caminho da comemoração. Acho que me levavam para algum lugar de festa, porém não haveria de existir presente melhor que aquele. Ou melhor, aquela. Uma neo-hippie moreninha de lindo cabelo castanho claro e um penteado desleixado.
     Só que foram poucos segundos apenas. Eu passei e ela ficou sozinha. Levaram-me para comemorar em outro lugar que nem lembro mais. Assim como não recordo por que fui festejar, muito menos do resto do sonho que tive essa noite. Mas aquele olhar ainda está na minha cabeça e acho que deve estar em algum lugar por aí.
     Aliás, me soa até familiar.