Veterano

bola

A bola veio a feição, devo reconhecer. Após uma raríssima boa trama de passes, a bola finalmente se ofereceria em condições de um chute frontal com chance concreta de gol para o nosso time. E estávamos precisando, pois àquela altura sofríamos uma goleada em plena noite gélida de um sábado qualquer.

A tarefa não seria das mais difíceis a quem estava a menos de dois metros da bola – no caso, eu. Acelerar o passo e chegar chutando de peito de pé, para estufar as redes. Daquela distância azar era do goleiro. Fácil? Para quem nunca teve lá muita habilidade com os pés – motivo pelo qual pesou para migração ao gol – e sempre tentou optar pela velocidade, não seria complicado. Explosão muscular, apenas.

Porém, com 30 anos a comunicação entre cérebro e pernas talvez já não seja a mesma. Ou até é, mas a resposta, definitivamente, não. Fato que tentei correr, fato que inclinei o corpo para frente. E fato que caí sozinho, ralando o joelho que nem criança e sem nem ter a oportunidade de cavar falta, já que o marcador precisou pular para não acertar o corpo que se estendia no chão.

O futebol, às vezes, tem uma face cruel até para seus apaixonados seguidores. Principalmente aqueles que ingressaram na casa dos 30 anos e que, das arquibancadas dos estádios, adjetivam jogadores desta faixa etária como “veteranos”.

A bola pune, sempre.

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Sem graça são os outros

charlie

Tudo está perdoado?

Longe de mim ser fiscal de opinião alheia em busca de coerência. Mas certos fatos teimam em chamar a minha atenção. O limite do humor é um deles.

Meses atrás houve comoção, cujo ápice cunhou a frase “Je suis charlie” como um símbolo tanto de protesto ante ao terrorismo como de um grito em prol da liberdade de expressão. Liberdade, inclusive, que não previa limites para o humor. Ataque ele quaisquer símbolos, sejam ou não sagrados para alguma religião, mesmo que ela tenha lá cerca de 1,5 bilhão de seguidores.

Não deixava de ser uma defesa a uma revista que, por conta de uma série de piadas que para 20% da população mundial soam sem graça e até ofensiva, foi vítima de um terrorismo bárbaro. E aqui ressalte-se: nada justifica o que aconteceu na redação da Charlie Hebdo naquele dia de janeiro de 2015.

Pois bem.

Passado esse tempo, em que o caldo político fervilhou o clima no Brasil, o esquete Porta dos Fundos, então adorado por boa parte do público. Público esse que faz o canal um dos principais casos de sucesso na internet brasileira – eles ganham dinheiro com conteúdo digital, algo que muito jornal grande aí não consegue.

Foi por conta do vídeo “Delação”. Há uma piada sátira contra a Polícia Federal, essa que há meses vem buscado um monte de petistas (e indiciado gente de uma gama de outros partidos também) em casa para levá-los à prisão.

Soou como um atentado terrorista virtual. Cobraram o fechamento do esquete, com tuitaço #RipPorta, campanha de boicote e tudo mais. Nos comentários, agressões e um palavras de um calão tão baixo que chega a ser negativo. Por quê? Por conta, veja só, de uma piada.

Faltou contexto, nos ataques. Disseram que eles se venderam, falaram em dinheiro via Lei Rouanet. Talvez nem tenham se lembrado que um de seus fundadores, Antonio Tabet, é um crítico feroz ao governo ou que em vários outros vídeos teve crítica forte a petistas em geral.

A questão ignorada foi o respeito a opinião alheia, à liberdade de expressão, algo defendido no “Je Suis Charlie”. Algo comum por esta época, afinal o inferno são os outros. Sempre.

Sinal do tempo

Surgiu malandro, furtivo, em meio à fila do buffet livre em almoço de dia de semana. Certo da impunidade devido às minhas duas mãos ocupadas, refletiu ali no espelho – garboso – acima da testa, no meio da franja. Resplandeceu sua alvidez, o fio branco. Não foi o primeiro em 29 anos, mas o mais abusado, com certeza. Não quis a periferia de seus antecessores.

Ali, entre panelas de arroz, feijão, próximo à ilha de saladas, eu não tinha o que fazer. Apenas segui-lo pelo espelho para, depois, arrancá-lo, afinal, ainda não chegou a hora – e nem o ano – de se permitir grisalho. Restam-me não muitos meses, porém posso dizer que estou na jovial  “casa dos 20”.

Mas ele sumiu, o fio branco. Ao fim da sobremesa, quando chegaria a sua hora, já não estava mais ali – acima da testa, no meio da franja. Escondeu-se em meio aos (ainda) muitos cabelos da região, não sei. Mas poderia jurar que não está mais ali (será que caiu? Será que isso é uma tendência?).

Imagino que o malandro esteja em fase de testes, de estudo. Às vezes aparece de um lado, às vezes aparece de outro, como um índio camuflado na selva, que decide a hora de mostrar-se. E quando atacar, será sem dó. Emplacará o grisalho, não importa o tempo ou a idade que for. Será uma batalha perdida. Mas não agora, na casa dos 20. Isso eu não permito.

Carta de despedida

Vim para cá naqueles tensos fins de 2008 meio fugido, admito, ainda que já tinha ouvido falar em ti e teu pujante futuro – que às vezes teima em parecer tão distante. Ao longo desses mais de cinco anos acredito que te coloquei definitivamente em novo status: “Emergente”. Bonito, não?

Mostrei a você uma boa vida que não se tinha muito por aqui. Crescemos juntos, em estrutura e, hehehe, milhões. Aliás, acho que essas expressões “milhões, bilhões” tu não dizias desde aquelas moedinhas mixurucas de décadas passadas, não é?

Bom, sei que você pode não entender bem a minha saída, é difícil de explicar e já tem vários teóricos tentando fazer isso. Mas é simples: vou voltar para casa. Nosso tempo foi bom, mas busco mais algo mais… estável. Acho que você me entende.

Em vias de partir, te desejo boa sorte. Tenho certeza que você se vira sem mim, Brasil.

Até logo, se trovejar lá fora, eu volto,
Dinheiro

Ah, esse vil metal

A lição do homem das tesouras

   Fidelidade masculina não se exige, se conquista. É assim e ponto, nem adianta discutir ou tentar outro modo. Um homem nunca será fiel simplesmente porque outrem quer. Será, sim, a quem cativar tal merecimento.
   Ele só será fiel a quem lhe ganhe de verdade, seja o coração, seja a confiança. Para tê-la, é necessário ter a humildade de reconhecer a concorrência espalhada pelo mundo. E, consciente disso, reunir a confiança suficiente para tornar-se insubstituível.
   Não é fácil, mas é bem possível. Certo é que é um erro brigar querendo a exclusividade. Se não fizer por merecer, não tem jogo. Pode até conseguir no início, porém mais cedo ou mais tarde a coisa desanda… E não adianta vir com cobranças depois.
   Fidelidade masculina, às vezes, é um assunto simples demais para mulheres compreenderem. Por vezes, tentando alcançá-la, extrapolam. Ao invés de comportarem-se como mulheres, viram fiscais rabugentas. “Amor, onde você está. Seu amigo, aquele, está junto? Que horas você chega, vai demorar muito?”
   Boa parte delas complica o que é tão fácil. Algo que qualquer (bom) barbeiro sabe como ninguém. Sim, os barbeiros de mãos calejadas de tesouras. Mestres nessa arte, sabem a medida certa entre a conversa sobre a última rodada do futebol e o silêncio compreensivo das manhãs de segunda-feira. Nada de cobranças ou problemas. Pelo contrário, muitas vezes ainda apontam uma solução.
   E, detalhe importante: eles nunca ligam enraivecidos se, por acaso, souberem que o corte de cabelo do mês ocorreu em outro lugar e sequer cogitam a possibilidade de provocar ciúme enquanto passa a tesoura por outra cabeça. Nada disso.
   Há barbeiros que conseguem fazer um homem atravessar a cidade para encontrá-los. Sim, o caminho da fidelidade masculina pode ser ridiculamente simples.

O meu caso com Betty, a Feia

   Na verdade não foi bem um caso que tive com Betty, a Feia, em certa feita, nos áureos tempos da adolescência colegial. Não posso chamar assim, pois, simplesmente, levei um fora dela. Com Betty, aprendi a primeira lição que um homem deve saber: nunca duvide de uma mulher. Mesmo as não maquiadas.
   Lembro-me que Betty e eu éramos bastante amigos. Tanto ao ponto de eu praticamente tratá-la como um par, despejando nela bobagens que um guri menor de 18 anos é capaz de argumentar. Dar em cima, nem pensar. Não fazia a menor noção do que tinha por trás daquele disfarce dos óculos e do rabo de cavalo.
   Contentava-me com suas palavras. Não queria mais que aquilo.
   Uma noite, porém, Betty, a Feia, revelou-se. Retocou a sombra e os cílios, soltou os cabelos e empinou levemente o nariz. Absolutamente linda, surgiu em qualquer festa na qual eu também estava, pisando sobre um salto dez centímetros e acima até da própria confiança.
   Quando a vi, não acreditei. Antes do “oi”, esfreguei os olhos para enxergar de novo. Foi uma das primeiras vezes em que parei para me questionar até que ponto o etanol estava influenciando na visão. E não era o caso.
Um pouco de produção é capaz de fazer milagres em corpos femininos. E no caso de Betty foi só um pouco mesmo. Fiquei brabo comigo por conviver com ela diariamente e não ter notado aquela beleza.
   Imberbe, cumprimentei-a admirado. Satisfeita, aposto que pensou “viu, só?”.
   Tentei colorir nossa amizade nessa ocasião. Lembrei do nosso bom relacionamento e devo ter citado mais uma ou outra palavra com a inspiração do álcool. Bulhufas! Ouvi um dos nãos mais convincentes que já me foram dados. Resignado, nada me restou a mais do ser aceitar a derrota. Vitoriosa, Betty, a Feia, continuou exibindo seu sorriso colgate.
   Depois do amanhecer, contei os minutos até a segunda-feira. Quando ela chegou, ansiei pelo recreio, quando enfim pude vê-la novamente. Esperava-a linda. Mas não. Recolocou os óculos de grau e prendeu os cabelos. Disfarçou-se no lugar-comum do dia-a-dia. Sua beleza, no fim, preferiu guardar em segredo. Idiotas como eu, afinal, eram perfeitamente dispensáveis.
   Desde então jurei nunca mais duvidar de uma mulher.

3×4

   Tive que tirar retrato 3×4 cm dias atrás. Nem bem, com o canto do olho, havia espiado o resultado e já reafirmei uma velha máxima minha: não levar fotos desse tipo na carteira ou em qualquer outro lugar visível.
   É impossível alguma pessoa ficar bonita nessa pose, de carão – opinião de mãe ou avó não vale. Sei que é até um gesto carinhoso e tal, mas, pra que fazer isso se todo mundo tem sua imagem maculada nesses 12 centímetros quadrados?
   Se gosto de alguém, procuro manter as melhores memórias e momentos conservados e não difamá-lo em um retrato 3×4. Procuro dar mais espaço a quem me faz feliz. Reparar em pequenas assimetrias e fiozinhos fora do lugar nunca faz bem.