Respingos do Iguaçu, parte 3

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Foz do Iguaçu, já dissemos aqui, não tem lá uma geografia complicada. É uma cidade plana e suas ruas dividem-se em um grande “L”. Entre seus limites há duas pontes – para Argentina e Paraguai. Em suas pontas, duas obras magnânimas, uma da natureza e outra, veja só, do homem.

Aquilo que o homem fez chama-se Itaipu Binancional. Aquele canto de Foz não é Brasil, nem Paraguai. É uma terra administrada em conjunto por brasileiros e paraguaios. É uma obra-prima de engenharia, que gera 80% da eletricidade consumida no Paraguai e 15% da consumida no Brasil, um país com 204 milhões de habitantes.

itaipu-2Ao visitá-la, é impossível não se impressionar com tudo o que fizeram para fazê-la surgir. Um trabalho de anos, ressalte-se, para o qual veio gente de diversos cantos de Brasil e Paraguai e que transformou completamente este canto de região do Brasil, junto ao extremo Leste do Paraguai.

Itaipu é uma obra que começou lá na década de 70 e só foi concluída mesmo no início deste século, ainda que tenha começado a operar em 1984. Gente que veio de longe e alguns ainda ficaram por ali e que se animam em contar a história, como é o caso do Seu Domingos, um simpático senhor cheio de prosa, que trabalha no EcoMuseu, ali do lado. É uma dessas pessoas que são uma enciclopédia viva.

Itaipu, onde o ruído das águas é constante, significa em “a pedra que canta” na linguagem indígena (e agora, em tupi ou guarani?). São sons e construções – a barragem chega a 196 metros de altura – que se impõem na fronteira:

No outro lado do “L” de Foz ficam as cataratas do Iguaçu. É, sim, um cenário tão conhecido por nossos olhos, por meio de fotos e vídeos que chegam via redes sociais ou matérias de televisão. São quase clichês, tal como o Cristo Redentor no Rio, as ruínas de Cusco, o Elevador Lacerda em Salvador ou mesmo a Torre Eiffel de Paris e o Coliseu de Roma.

Mas, como em todos esses casos supracitados, ressalto: é preciso ver com os próprios olhos!

Há uma força incrível nas quedas de água do rio Iguaçu, que só pode ser sentida de perto. Não que forcem uma reflexão da pequeneza do homem diante da natureza ou algo assim, porém é uma força que te paralisa, que te arranca um “uau” de forma tão espontânea quanto embasbacada assim que elas são visualizadas em meio às trilhas que a contornam. Isso sem falar do caminho no qual se chega (e se molha todo) à Garganta do Diabo, pelo lado brasileiro, ou – principalmente – quando, pelo lado argentino – se vai até quase onde a água despenca. E onde tudo é branco, de tantos pingos, de tanta admiração.

São desses momentos que se fazem uma boa viagem. Por cenários assim que vale a pena ir para longe de casa, nem que seja por uns dias ao longo de um ano de rotina e cotidiano nem sempre amigáveis com a saúde.

Tem lugares que é preciso conhecer de perto, que é preciso ver com os próprios olhos, repito. São experiências a serem vividas ao invés do reforço da rotina. Não para entender, ou entender-se, mas para ter a exata noção do quanto o mundo é grande e muito maior do que nosso bairro ou nossa cidade. Às vezes até não parece, mas isso muitas vezes é uma descoberta incrível.

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Veterano

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A bola veio a feição, devo reconhecer. Após uma raríssima boa trama de passes, a bola finalmente se ofereceria em condições de um chute frontal com chance concreta de gol para o nosso time. E estávamos precisando, pois àquela altura sofríamos uma goleada em plena noite gélida de um sábado qualquer.

A tarefa não seria das mais difíceis a quem estava a menos de dois metros da bola – no caso, eu. Acelerar o passo e chegar chutando de peito de pé, para estufar as redes. Daquela distância azar era do goleiro. Fácil? Para quem nunca teve lá muita habilidade com os pés – motivo pelo qual pesou para migração ao gol – e sempre tentou optar pela velocidade, não seria complicado. Explosão muscular, apenas.

Porém, com 30 anos a comunicação entre cérebro e pernas talvez já não seja a mesma. Ou até é, mas a resposta, definitivamente, não. Fato que tentei correr, fato que inclinei o corpo para frente. E fato que caí sozinho, ralando o joelho que nem criança e sem nem ter a oportunidade de cavar falta, já que o marcador precisou pular para não acertar o corpo que se estendia no chão.

O futebol, às vezes, tem uma face cruel até para seus apaixonados seguidores. Principalmente aqueles que ingressaram na casa dos 30 anos e que, das arquibancadas dos estádios, adjetivam jogadores desta faixa etária como “veteranos”.

A bola pune, sempre.

Um sorriso à dificuldade

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Não, não tem sido fáceis os últimos dias. É cada coisa complicada de se noticiar, crimes, corrupções a rodo. E, se já não fosse o suficiente, esse frio também complica. Os dias e as noites em redações afora são para jornalistas, e, antes disso, seres humanos de estômago forte.

Reparei que mesmo os otimistas têm andado um tanto cabisbaixos e com pouca fé por esses dias. Isso porque não, não tem sido fáceis, esses dias na capital mais meridional do Brasil.

Pouco tempo atrás ouvi um amigo meu. Trabalhador, estudioso, mas desanimado com o mundo a sua volta. Entre um e outro “é, tá complicado” vimos problemas demais sem vislumbrar soluções – talvez porque não estivéssemos num bar, tomando cerveja decerto.

Confesso que saí de lá meio desanimado também. Mas houve um pensamento (uma luz espiritual, talvez) que me fez reagir, logo depois. Ouvi o conselho oculto e, depois de toda aquela conversa, resolvi fazer algo que há muito procrastinava: ver aquela familiar distante e idosa.

Devo ter perdido uns 40, 50 minutos da minha tarde, no máximo. Mas, se atrasei algum trabalho, provoquei sorrisos. E sorri também. Tive, depois, a certeza de que fizera algo bom e ressaltei para mim mesmo a vontade de deixar um mundo melhor à minha afilhada de nem um ano e meio.

Com ela, por sinal, o sorriso fácil. Pudera, rodeada de tanto amor e carinho, não seria? Eis a chave, então, de um mundo melhor: amor. E quando não houver amor, um sorriso. Se nem isso, qualquer mínimo de simpatia ante a esta carranca desses tempos modernos.

Não vai dar pra mudar o mundo de uma só vez, é claro. Mas vai alegrar o me ambiente. E do próximo. Quem sabe do seguinte também. Há anos o poeta canta, afinal, que é melhor ser alegre que ser triste. A alegria é a melhor coisa que existe. É assim como a luz no coração.

BH

Momento em que a gente admira uma paisagem inspiradora (Belo Horizonte)

ps: escrevi esse texto mais rapidamente que os outros, tarde da noite, originalmente em um bloco de notas. Antes de dormir, abri o Minutos de Sabedoria. Veio-me esta nota:
SEJA alegre, procurando fazer todo o bem que puder, nos dias que permanecer na face da terra. 

Espalhe em torno de si esmolas de conforto, palavras de carinho, sorrisos de felicidade.

Responda com carinho e otimismo a todos aqueles que lhe dirigem a palavra, sem irritar-se jamais. Imprima, em cada dia de sua vida, toda a bondade que existe no fundo de seu coração.

Sobre audiência. Ou momento confessional nº 15

Jornalistas não deixam de ser movidos, uns menos outros (muito) mais, a ego. Ao escreverem, falarem ou narrarem histórias querem serem lidos, ser repercutidos. Em certos casos vale a máxima “falem mal, mas falem de mim”.

Mas quem vive o dia a dia de uma redação online volta e meia se decepciona ao ver os índices de audiência. Não raro, aquela matéria apurada, trabalhada ao longo de dias, tem metade das visualizações, ou nem isso, de algo feito às pressas, com assunto banal.

É chato, mas com o tempo a gente até se acostuma.

Pois bem. Isto aqui não é uma redação online, é apenas um blog. Dos antigas, reconheço. A Telha do Tiago como projeto completa uma década de vida em agosto próximo – este endereço está quase completando nove anos. E algo que, admito, me dá um certo orgulho é ter atualizado – nem que seja uma vez por mês – em todos os 105 meses desde o longínquo primeiro post desta página.

No entanto, o que me deu ainda mais orgulho foi ver a repercussão de uma matéria, que foi publicada originalmente no Correio do Povo em 2013, e mais tarde postada aqui como uma espécie de votos de feliz ano novo, em janeiro de 2014 – que acabou sendo, de fato, um ano feliz. O texto trata da virada de jogo que a judoca Taciana Lima deu em sua carreira. Um verdadeiro recomeço aos 29 anos de idade, que será coroado em agosto, quando ela disputará os Jogos Olímpicos Rio-2016 defendendo Guiné-Bissau.

Dia desses passei a matéria para ela, que publicou em suas redes sociais. Logo o número de acessos do blog deu um grande salto. Tanto que domingo passado quebrou o recorde de visitas em um mesmo dia – e visitas de todos os cantos do mundo. O recorde anterior durava desde 2008, época de outra edição dos Jogos Olímpicos.

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Olha por onde a história da Taciana passeou em menos de uma semana

Só me resta agradecer: obrigado, Taciana. Pelo exemplo. E por dar a alegria de um jornalista ver uma matéria mais especial ser bastante lida e repercutida. Trabalhamos por boas histórias, apesar do nosso ego.

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Sorte nos Jogos, Taci!

Textos baianos: A lenda

Olha! Se é verdade, não sei. Relato aqui apenas o que ouvi de um simpático senhor sentado ao meu lado em um pequeno bar no Pelourinho, coração de Salvador. Ele puxou assunto depois de o garçom recomendar cuidado ao mexer com o celular na rua, pois, conforme ele, ladrõezinhos passariam voando com meu telefone ao menor descuido meu.

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Se avexe, não

“Esquente a cabeça, não. Ele fala isso só pra impressionar”, minimizou meu vizinho de mesa, que tão de pronto começou a conversar. Logo já se pareceu um amigo, algo adoravelmente típico do comportamento baiano.

Papo vai, papo vem e ele começou a contar que foi no Pelourinho que Carlota Joaquina tomou seu primeiro banho depois de semanas a fio dentro do navio que trouxera a comitiva portuguesa de Lisboa para o Rio de Janeiro, uns dois século atrás.

E falando estrangeiros, bom visitantes eram mesmos os holandeses, disse ele. “Esses não queriam dominar ninguém, apenas fazer comércio. E quando diziam que era inseguro, mas veio até um príncipe por aqui naquela época”, contou, referindo-se, imagino, ao início do século XIX (ou mais cedo ainda, no século XVII), mas sem mencionar o nome do nobre da realeza.

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Pelo amor ou pela guerra, nunca foi fácil deixar a baía para trás

“Mas correram com os holandeses”, lamentou, ao iniciar a contar a parte mais interessante da história. Segundo meu novo amigo, que solitário tomava uma cerveja, que dois navegantes holandeses sobreviveram a um bombardeio na saída de Salvador. Por sorte e resistência conseguiram nadar até a ilha da Itaparica, ao Sul da Baía de Todos os Santos.

Entretanto, o destino seguiu cruel com a dupla, que nadou, nadou até chegar logo à beira da praia onde vivia feliz uma tribo de índios. Canibais, no caso. Habituados a engolir só a carne seca do nordestino, logo viram com bons olhos aquela “carne gorda” europeia. Sem perder tempo foram à forra logo depois apreciando os músculos e a gordura de um deles. O outro navegante holandês prisioneiro foi mantido preso, “para engorde”.

Acontece que, em meio aos seus últimos dias, o rapaz de olhos claros holandeses chamou a atenção da filha de ninguém menos do cacique local. E mesmo não falando idiomas semelhantes, a linguagem corporal bastou para que houvesse encontros às escondidas entre a “princesa” da tribo e o jantar vindouro.

Ela, apaixonada, fez apelos ao pai para que soltasse aquele pedaço de carne. Pouco adiantou. Tempos depois o holandês foi devidamente temperado e comido pela tribo. Mas deixou lembranças, a principal delas no ventre da moça, que nove meses depois deu à luz a um novo indiozinho.

Só que, rapidamente constataram, era um indiozinho diferente. De pele meio escura, cabelos negros e olhos claros. Um indiozinho que, conforme a lenda que tarde dessas ouvi no Pelourinho, era ninguém menos que o primeiro caboclo do Brasil.

Se é verdade? Chicó responde:

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Sobre hora e maré no Nordeste do Brasil

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Dependendo da hora, o negócio é ficar dentro ou fora’água

Eis dois fatores que o pessoal daqui do Sul não atenta muito, mas que são fundamentais no Nordeste. Primeiro, a hora. No Nordeste o sol nasce mais cedo que nos lados meridionais e às 6h o dia não só raiou, como até um calorzinho já faz. Na outra ponta do dia, 17h o pessoal já começa a se preparar para ver o pôr do sol.

Ou seja, chegar às 15h30min, 16h na praia é quase para se preparar para ver a noite chegar ao som das ondas. É o tal clima de “fim de festa” que citei no post anterior, quando da vez em que estive na Praia do Francês. Digamos que 16h equivale a cerca de 17h30 no “fuso” gaúcho. É a chance de um mergulhinho e deu, em suma.

Outro ponto importante: a maré é fundamental para a maioria dos passeios turísticos. Tanto as jangadas em Maceió, quanto os barcos das praias do Gunga ou do Francês – e, imagino, em Maragogi – só navegam na maré baixa. O mesmo vale para os mergulhos. Se chegar atrasado, perde-se o dia.

Aconteceu comigo em Alagoas, mas poderia ter ocorrido dias antes na Bahia, onde só pude aproveitar as piscinas da Praia do Forte por ter chegado na baixa da maré. E, em verdade lhes digo, valeu – e muito – ter se atentado a este detalhe e feito a programação correta.

Mas como saber quando a maré vai estar alta ou estar baixa? Existe a opção interpessoal de perguntar a guias e/ou pessoas que oferecem os passeios e também há a boa e velha alternativa nerd e prática: a internet. A Marinha mantém este site atualizado diariamente. Outros aplicativos também fazem o mesmo.

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Na maré alta, jangada boa não vai pra água

Triste equação. Ou momento confessional nº 14

santacasaEra para ser. O chute, a rebatida na quina da tabela do basquete. Toda a força dessa equação exatamente quando o meu dedo estava logo ali, vulnerável. Resultado: fraturas, luxação, deslocamento de junta e, dias depois, a primeira cirurgia da minha vida. O que era um empatezinho amargo em quadra acabou como um jogo inesquecível. Para ruim.

Foi uma equação perfeita: o atacante adversário chegou a um determinado ponto da quadra e dali resolveu chutar, com considerável força. Atrasado ou não, justo ali meu zagueiro conseguiu um leve desvio, alterando a direção inicialmente prevista por mim ali no gol. A rota foi desviada o necessário para atingir a quina da tabela de basquete, acumulando força para descer quase reto. A bola, então, acertou milimetricamente onde lesionaria. Centímetros a mais ou a menos neste ângulo pouco ou nada de dor causaria.

Uma sequência de fatores complexa e precisa demais para ser resumida apenas em “azar”.

Era para ser, enfim. Se há dois meses eu me sentia com vinte e dez anos de idade, hoje talvez sinta o peso dos 30. Fraturando meu dedo, inclusive.

ps: deu tudo certo na cirurgia. Agora é recuperação. E aqui meu agradecimento público ao dr. Alvaro Santos Ramos e equipe.