Uma vez em Lisboa

Lisboa

Lisboa: abril/2015

Nunca havia ido a Lisboa, até descobrir que, se desconsiderar qualquer lógica temporal, eu sempre estive por lá. Foi quando ouvi o fado ao caminhar por suas ruas, na Alfama ou às sombras de seus monumentos de uma gente tão familiar à minha.

Senti-me em casa em Lisboa ao reconfortar o ouvido com palavras de português, esse idioma tão complicado para o resto do mundo, independente se a fronteira começa a partir da Espanha ou da Argentina. Ao transpor com naturalidade essa barreira de falar “ão”.

E assim como tantos outros sobre o Rio Tejo, certa vez também tive que partir sem data para voltar, mas aí já com uma certeza. Deixei em Lisboa algo de mim, que me faz querer retornar outra e outra vez. Chama-se saudade.

Veterano

bola

A bola veio a feição, devo reconhecer. Após uma raríssima boa trama de passes, a bola finalmente se ofereceria em condições de um chute frontal com chance concreta de gol para o nosso time. E estávamos precisando, pois àquela altura sofríamos uma goleada em plena noite gélida de um sábado qualquer.

A tarefa não seria das mais difíceis a quem estava a menos de dois metros da bola – no caso, eu. Acelerar o passo e chegar chutando de peito de pé, para estufar as redes. Daquela distância azar era do goleiro. Fácil? Para quem nunca teve lá muita habilidade com os pés – motivo pelo qual pesou para migração ao gol – e sempre tentou optar pela velocidade, não seria complicado. Explosão muscular, apenas.

Porém, com 30 anos a comunicação entre cérebro e pernas talvez já não seja a mesma. Ou até é, mas a resposta, definitivamente, não. Fato que tentei correr, fato que inclinei o corpo para frente. E fato que caí sozinho, ralando o joelho que nem criança e sem nem ter a oportunidade de cavar falta, já que o marcador precisou pular para não acertar o corpo que se estendia no chão.

O futebol, às vezes, tem uma face cruel até para seus apaixonados seguidores. Principalmente aqueles que ingressaram na casa dos 30 anos e que, das arquibancadas dos estádios, adjetivam jogadores desta faixa etária como “veteranos”.

A bola pune, sempre.

As pazes com Maceió

jangada

Navegando por águas tranquilas

Se o dia anterior havia sido um tanto frustrante, ao menos a manhã veio com uma nova oportunidade. Já atento tanto à hora e à maré, pulei cedo da cama e, num horário considerado pornográfico para mim, já estava na praia de Pajuçara, em Maceió, sabendo que a maré estava vazando.

Consegui zarpar na primeira jangada rumo às piscinas naturais para enfim conferir se Alagoas é mesmo o paraíso das águas, conforme o marketing local anuncia. Parêntese: por acaso e sorte negociei um passeio direto com o jangadeiro e não com um intermediário. Como de praxe em todo o comércio nordestino, tive alguma margem para a pechicha. O telefone dele é 82-98742.8896.

Da areia à área delimitada das piscinas são 15 minutos navegando por um mar tranquilo e protegido das grandes ondas pelos corais mais adiante. Atentos perceberão desde logo tartarugas e outros peixes nadando na volta.

Passados dois quilômetros chega-se às piscinas. E finalmente se pula naquela convidativa-e-morna-água-azul-turquesa-de-não sentir-saudade-de-Caribe-algum. Malandros que são, os jangadeiros levam para o mar pedaços de pão, que são jogados aos peixes que, mais malandros ainda, aproximam-se para abocanhar a refeição fácil, enriquecendo a experiência.

Em outros horários, jangadas-bares ancoram por ali, porque um dia alguém se deu conta que vender bebidas lá seria um grande negócio, em virtude das geladeiras mais próximas estarem um tanto quanto longe.

Após uma série de mergulhos, finalmente fiz as pazes com Maceió após aquela tarde pouco abonada nas redondezas da capital. Posso lhes garantir que, depois de duas semanas de um frio porto-alegrense, algumas vezes já me peguei suspirando de saudade daquele mar.

Maceió piscinas

Reparem nos peixes e em Maceió lá atrás

Textos baianos: A música

BahiaUm mea-culpa sobre a Bahia, para fechar esta primeira série de textos baianos. Música. Confesso que cometi o que considero um pecado logo antes de desembarcar para os 11 dias que ficaria em Salvador e generalizei. Preparei-me psicologicamente para passar este tempo todo ouvindo axé e ritmos potenciais reboladores.

Ledo engano!

Por isso peço perdão pelo que pensei a Gilberto Gil, a Caetano Veloso, Dorival Caymmi e tantos outros. A Bahia é, sim, muito maior do que qualquer axé, qualquer rima fraca que por ventura já tenha feito sucesso nacional – algo que nunca representou necessarimente qualidade musical.

Se a memória não me falha, já nesta tarde de chuva em Porto Alegre, peguei quatro táxis em Salvador. E em todos a música da rádio estava ótima. Uma MPB com artistas que não conhecia, e que fico devendo nomes aqui. Extremamente agradável, juro. Talvez estivesse na Rádio Educadora, que tem o selo de garantia do Rodrigo Oliveira.

Na maioria dos trajetos, o táxi deixou-me no Rio Vermelho, um tradicional centro boêmio recentemente renovado por obras. Por lá, diversas opções. Desde o fatídico sertanejo aos tuti-tuti eletrônico.

Por lá, faço questão de recomendar, parei duas vezes no Centro Cultural Casa da Mãe. Numa quarta ouvi chorinho que me fez voltar alguns anos no tempo, para quando via o saudoso professor Darcy Alves tocar em Porto Alegre. Numa quarta, um jazz encantador. E tudo isso a poucas dezenas de metros da estátua de Jorge Amado e Zélia Gattai, do acarajé da Dinha. De baianices clássicas, enfim.

Jorge e Zelia

Jorge, Zélia, o pug e a boemia

Mas, claro, estar em Salvador e não ouvir nenhuma batucada significa não ir a Salvador. Esse ritmo tão baiano se encontra nas ruas do Pelourinho, na praia do Porto da Barra. Mais hora, menos hora o ritmado som vai encontrar teus ouvidos. Sorria, afinal, você estará na Bahia.

 

Textos baianos: O baiano

Salvador porto da barra

Quinta-feira à tarde na praia do Porto da Barra

O baiano é um sujeito a parte dentre os brasileiros. Ao menos dentre os brasileiros que já tive oportunidade de conhecer ao longo desses 30 anos e quatro meses de vida. Distinto do rude gaúcho, do apressado paulista, do caipira mineiro ou do malandro carioca, para citar apenas alguns exemplos. O baiano, como toda cultura forte, tem seu jeito próprio, mas, acima de tudo, seu tempo e ritmo. O próprio sotaque não é necessariamente lento, mas cantado. E simpático.

O Brasil enquanto país, é bom lembrar, começou na Bahia, exatos 516 anos antes de eu iniciar a escrever este texto. E Salvador respondeu como capital brasileira por 214 anos, de 1549 até 1763 – até hoje é a cidade que mais ocupou este “posto” e seguirá assim até a segunda metade do próximo século. E é quase como se carregasse um traço de mãe-gentil desta pátria que o baiano age.

Com uma fala mansa e aquele dom de criar intimidade rapidamente, o que deve levar pessoas mais fechadas e/ou resguardadas a um certo ponto próximo do desespero quando chegam à maior cidade do Nordeste. Afinal, por certo são em poucos lugares onde o atendente ou garçom te chama de “amor” antes mesmo de qualquer pedido. E esse é só um mero e trivial exemplo.

Pecando pela generalização, mas todo o soteropolitano parece disposto a conversar ao menos um pouquinho com quem quer que seja, onde for.

O que, claro, não significa que os baianos sejam o povo mais feliz do mundo, quiçá nem do Brasil. Há mazelas, problemas, malandragens e maldades. Até, incrivelmente, racismo, escancarado na separação das quase 100 favelas da cidade e os prédios com vista para o mar. E também na pichação de protesto contra a truculência da polícia do Brasil, que teima em mirar negros, mesmo onde eles são maioria.

Por que ainda?

Por que ainda?

Porém, no geral, sem dúvida é uma gente hospitaleira e, coisa rara neste momento, livre de preconceitos xenófobos.

Eles têm fé, como aqui já foi citado. Na igreja, no candomblé… Não à toa que o mar que entra ladeando Salvador recebe o nome de Bahia de todos os santos.

Salvador orlaSalvador desde sua fundação foi uma cidade cosmopolita. Aliás, interessantíssimo o artigo da Wikipédia sobre Salvador. Nele, o historiador Cid Teixeira compara o investimento inicial em Salvador, no século XVI, com a construção de Brasília, mais de 400 anos depois. “Não se tratava de um povoado que foi crescendo. A cidade já surge estruturada. Salvador não nasce de um passado, mas de um projeto de futuro que era construir o Brasil. Por isso desde o início, a influência internacional na realidade local está presente em Padre Vieira, Gregório de Mattos, cinema novo e a tropicália”, complementou escritor e estudioso da cultura baiana e da música brasileira, Antonio Risério, à revista IstoÉ, em 1999.

Mas ao contrário do que ainda é Brasília, um amontoado de povos sem uma característica convergente, o baiano tem personalidade e cor: ele é negro, receptivo, orgulhoso de sua cultura, adorador de sua terra e, claro, de sua praia. Com toda razão.

Que mar

Que mar

Textos baianos: A fé

A fé é característica intrínseca da Bahia. Bem dizia a piadinha aquela que, se a fé entrasse em campo, o Ba-Vi sempre terminaria empatado. A baía e as águas entre Salvador e a Ilha de Itacaré, afinal, são de todos os santos, conforme indicam os mapas desde sempre.

E lugar para rezar sobre o solo soteropolitano não falta. Salvador tem mais de 370 igrejas só católicas, algumas com séculos de história, como a de Mont’Serrat defronte ao pôr do sol e, uma das mais famosas, a de Nosso Senhor do Bonfim, onde milhares de fitas enfeitam a cerca. Fitas que lembram o santo, que carregam pedidos de fé por dias melhores.

Mas os evangélicos não ficam para trás. Perto de uma das principais avenidas da capital baiana um templo da Igreja Universal se ergueu tanto que mais parece um grande hotel na paisagem de tão enorme.

Afora, claro, o candomblé e seus ritos e imagens, tão presentes pelos paralelepípedos de Salvador, onde pessoas fazem limpeza à beira da Lagoa de Abaeté ao som da percussão de tambores. E também onde Orixás tanto parecem dançar no velho Dique do Tororó, ao lado da modernizada Fonte Nova, quanto proteger um sem número de barcos, pescadores, casas de comércio e, claro, baianos. Um povo de muita fé.

pelourinho

No horizonte do Pelourinho, três igrejas

 

 

“Para entender o Brasil seria preciso um curso de brasileiro”

Julho de 2008. Eu era quase um jornalista formado quando desembarquei em Havana para uma viagem, a princípio, apenas de férias. Minha primeira grande aventura internacional e logo para um dos destinos mais únicos que já conheci.

Mas, ainda mais para um quase jornalista, é impossível aceitar ser só turista na Cuba de menos de cinco meses após a saída de Fidel Castro da presidência, momento que o assunto ainda era relativamente novo. As aberturas econômicas, a aproximação com os Estados Unidos e até o show gratuito dos Rolling Stones eram impensáveis então.

cuba (1)

É trabalhando que se chega lá?

E é difícil segurar perguntas quando os cubanos são tão simpáticos e vêm, a toda hora, puxar papo no meio da rua. Logo ouviam: Quem, de fato, era Raúl Castro? Fidel faria falta? Se os cubanos pediam tantos regalos aos turistas – de roupas e até papel higiênico – como podiam exibir orgulho por viver neste país em que o acesso à educação e à saúde são, em tese, universais?

Sorrisos amarelos. Nova pergunta: o que a Yoani Sanchez escreve era verdade ou apenas golpismo?

Lembro também que o taxista/guia ilegal que nos levou para conhecer Havana, e que dizia ser médico, “brincou” e insistiu para eu conhecer, casar e levar a filha dele para o Brasil. Eu dizer que tinha namorada no Brasil soou como detalhe.

Em muitas dessas ocasiões – não raros em um bar comigo e meu pai bancando a bebida aos cicerones – as respostas vinham em um volume mais baixo e só depois de olhar para os lados, conferindo se alguém não estava de olho. Com medo de um Grande Irmão, presumi. Eram falas rasas e dispersas, ansiosas por um novo assunto.

A melhor resposta, porém, veio quase em tom de sincera brincadeira, caminhando em alguma calle habanera: “Para entender Cuba é preciso fazer um curso de cubano”, sorriu o nativo.

cuba (2)

Os mantras da revolução poderiam servir à política também

De fato. Nesta resposta reconheci-me, enquanto brasileiro, adaptando-a para meu país. Certas coisas, em especiais da política brasileira, seriam impossíveis de explicar a qualquer gringo. Anos depois, em dezembro de 2015, uma alemã que passava por Porto Alegre me perguntou incrédula: “O Eduardo Cunha pode fazer isso mesmo?”, referindo-se à abertura do pedido de impeachment.

Naquela visita, depois de uma breve explicação e uma troca de assunto providencial, pensei na sorte que tive ao não ter que detalhar a relação PMDB-governo-oposição. E seriam muitas coisas a ter que explicar: como os parlamentares do meu país pedem a saída da pessoa que ocupa o cargo máximo da República e, dias depois, saem de férias, voltando a falar do assunto meses depois, somente?

Ou como um ex-presidente diz que não é dono, e não declara, imóveis que usa? Como o governo o chama para ser ministro apenas quando está em vias de ser preso, se ele seria tão útil quanto disseram? Como um juiz divulga áudios de telefones grampeados (ou, falando corretamente, “escutas autorizadas pela justiça”) de momentos em que as falas já não eram para estar sendo captadas? E o que dizer dos vazamentos seletivos desses trechos? Outra: como um juiz despacha uma liminar impedindo o ex-presidente de ser ministro antes de receber o processo?

O momento político do Brasil é extremamente delicado. O país parece estar zonzo com um governo que recebeu extrema unção e uma oposição que não reflete esperança alguma – tal como a linha sucessória da presidência. Tanto que não chega a surpreender o fato de a maioria dos deputados que integram a comissão de impeachment terem algum imbróglio com a Justiça – e não haver maior repercussão disso.

congresso brasiia

Em Brasília, nem tudo é o que reflete

“Para entender o Brasil seria preciso um curso de brasileiro”, concluo, lembrando do cubano de 2008 e desejando, nesses turbulentos dias de 2016, apenas calma e contexto. Nunca fizeram mal à opinião de ninguém.