A memória de um 11 de setembro

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Ainda lembro bem daquela terça-feira. Assim que cheguei da aula, por volta do meio-dia, soube de todo o ocorrido. A TV não parava de passar aquelas imagens. As torres gêmeas de Nova York atacadas e posteriormente caindo. Parecia cena filme holywoodiano. De lá para cá, muita coisa mudou.

Mas bem antes de 2001, houve um outro e lamentável 11 de setembro. Em 1973, no Chile. Aquele 11 de setembro alterou a vida de um país inteiro e junto dele afetou diretamente a vida de cerca de 40 mil famílias.

Conheci um pouco mais a história e a narrativa daquele dia – e dos anos seguintes – durante uma visita ao Museu da Memória e dos Direitos Humanos, em Santiago, em abril passado. É um lugar forte, de reflexão.

Entrevistei o diretor do museu dias depois. Virou matéria pro Correio do Povo, porém aqui vai o texto completo, livre das limitações de espaço. Uma entrevista na qual se ressalta: é importante lembrar para não esquecer.

“Democracia é uma construção coletiva”

Museo memoria

40 mil histórias contadas | Foto: Divulgação

“É importante educar em uma nova cultura de respeito, de bom trato, da ética dos direitos humanos, recordando o que aconteceu, mas ajudando as pessoas a refletir sobre o que está acontecendo agora com esses temas, com nossos indígenas, com os temas de gêneros, a migração, entre outros”, conclui Francisco Estévez.

Estévez é chileno e trabalha em Santiago, mas sua fala poderia ser adaptada a diferentes realidades e sociedades da América Latina – e também do mundo, nesses tempos de polarização. Ele é o diretor do Museu da Memória e dos Direitos Humanos, um dos 15 museus mais populares do continente e o mais visitado do Chile.

Se museus normalmente levam a um passado que pode vir a despertar curiosidade ou mesmo nostalgia, o Museu da Memória, não. Dentro do prédio – projetado por arquitetos brasileiros – o conteúdo remete a um período sombrio do país: a ditadura, que durou de setembro de 1973 até março de 1990. E que deixou um saldo oficialmente reconhecido de 40.018 vítimas, sendo 3.065 mortos ou desaparecidos.

O convite à reflexão ocorre de forma interativa. No museu, pode-se desde ouvir o último discurso do presidente deposto Salvador Allende, no fatídico 11 de setembro de 1973, a ver a cobertura jornalística da época da reabertura. Isso passando por lembranças dolorosas em memória das vítimas, dispostas ao longo dos três andares da casa.

Com a democracia chilena se aproximando dos seus 30 anos – e com alternância entre esquerda e direita no poder – Estévez crê que seja necessário não esquecer do período sob o general Augusto Pinochet. Principalmente para que uma época dessas não ressurja.

“Na América Latina, estamos vivendo um ressurgimento de posições negacionistas, que pretendem revisar e justificar o que aconteceu na ditadura. São provocações na hora de revisar os atos de violações cometidos pelo Estado chileno, argumentando que não haveria incorrido nenhum abuso de direito”, diz. “Este é o nosso maior desafio como museu.”

Citando uma pesquisa a qual atestou que 57% dos jovens chilenos que cursam o oitavo ano do ensino básico concordaria viver em uma ditadura desde que ordem e segurança fossem garantidas, ele afirma: “É importante que todas estas gerações dialoguem sobre o tema”.

Recheado de histórias individuais e coletivas, por meio de fotos, vídeos, documentos e gravações, o museu foi visitado por cerca de 150 mil pessoas no ano passado. Os visitantes foram oriundos de 187 países, sendo Brasil e Estados Unidos a maior parte dos estrangeiros que passaram por lá. Houve também “um aumento significativo” de venezuelanos que repassaram a história da ditadura chilena, segundo Estévez. O Chile, por sinal, é um dos destinos mais procurados pelos venezuelanos que optaram por deixar o país nos últimos anos.

Encarando a história

Mas que história é essa? Passadas quase três décadas, debater ditadura no Chile segue como um tabu. Igualmente como em outros lugares, há quem denuncie e quem apoie. “Opositores do museu reclamam do caráter não-histórico da iniciativa, já que somente mostra uma parte da ‘verdade’, aquela que dos ativistas da esquerda e partidários da Unidade Popular. Consideram que o período entre 1973 e 1978 (até a promulgação da lei da Anistia) correspondente a uma situação de guerra interna. Assim não haveria vítimas e sim baixas de guerra”, explica Estévez.

Não é só. “Alguns intelectuais exigiam a inclusão de um ‘contexto histórico’, no qual estaria marcado pela deterioração do processo democrático chileno, o que explicaria a extrema repressão depois do 11 de setembro. Neste caso, não negam as atrocidades da ditadura e ainda menos a necessidade de um lugar de memória, mas igualam a retórica revolucionária do governo de Allende com a violência do golpe”, acrescenta. Para esses – contextualiza Estévez – o golpe militar se deu pelo medo do comunismo e a ameaça de um processo semelhante ao que aconteceu em Cuba.

“Uma luta memorial segue presente entre quem disputa o status de vítima. No entanto, hoje em dia a interpretação histórica favorece majoritariamente aqueles que sofreram as atrocidades da ditadura”, conclui o diretor do museu.

Críticas na internet

Esse embate acaba se transferindo para a internet. “Há certo ódio que recebemos diariamente nas nossas redes sociais. Isso porque há pessoas que negam o ocorrido”, avalia Estévez. Ainda assim, a página oficial do museu no Facebook tinha, no início de agosto, uma avaliação de 4,6 numa escala que vai até 5. Além de 152,7 mil fãs.

Entre junho e julho, a página do Museu da Memória e dos Direitos Humanos no Facebook recebeu 32 avaliações ou recomendações. Dessas, sete foram negativas – com duas estrelas ou uma, numa escala de até cinco. “A memória tem que ser um conjunto da sociedade e não de um setor político”, criticou Christian Chamorro, cuja foto de perfil é um capacete medieval. Já uma mulher, identificando-se como Ines Canales e com uma foto de cachorro no perfil, apenas justificou sua única estrela ao museu com a frase: “Humanoides desgraçados”.

Apresentando-se como um chileno morador de Nova York, Cristian Subiabre foi mais enfático em sua crítica: “Isso é uma mentira, feita para branquear os assassinatos e atrocidades da esquerda, ainda impunes”, postou, citando um político comunista que, segundo ele, seria responsável direto por pelo menos seis assassinatos. “O museu não vai falar sobre isso.”

No lado real, o museu reconhece que já foi alvo de protestos ao longo de sua história, mas sem ataques diretos às dependências, onde, na entrada, está a declaração universal dos direitos humanos, proclamada pela ONU, em 1948.

Democracia

Francisco Estévez afirma que o museu procura estabelecer canais de diálogo, inclusive na internet, quando lançou uma campanha #quepasasiolvido (o que acontece se esqueço). “Temos muita gente que nos ataca, mas a satisfação que outros defendem a oportunidade de ter um lugar que recorda o que nunca mais deve acontecer em um país: a violência exercida do Estado com a destruição da democracia”.

E democracia, na opinião dele, é “uma construção social, política e cultural”. Logo, é algo que corre riscos. “A democracia é uma responsabilidade comum, coletiva e cidadã. E quando isso se abandona então a democracia fica em um estado de fragilidade”, define. “Efetivamente se requer um compromisso permanente de educação e também um envolvimento dos atores sociais, os jovens e a política.”

Numa época de polarização extrema, tempos como os que o museu reporta podem voltar. E até por isso Estévez valoriza a importância do Museu da Memória e dos Direitos Humanos: “O que acontece é que se esquece que nunca, na democracia, é aceitável dar um golpe de Estado para resolver os antagonismos políticos”.

 

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Desde o âmago

this is america

Teve uma vez que insisti muito para uma colega que quase nunca saía à noite nos acompanhar em qualquer uma das nossas incursões noturnas em Porto Alegre, na época de faculdade. Certa feita consegui. Logo que a gente se encontrou, perto do bar que iríamos, um cara desceu da moto numa cena que não esqueço. Não deu outra, fomos assaltados.

Coincidência infeliz, é claro. Ela praticamente nunca saía e perdeu a bolsa assim que o rapaz mostrou a arma. Do grupo que estávamos, mais alguns perderam celulares e carteiras na ocasião em que a nossa noite havia terminado antes mesmo de começar.

Fiquei muito mal, obviamente. Ainda que fosse tão vítima da situação, sentia-me de alguma maneira culpado, pois havia passado os dias anteriores gastando argumentos para levar minha amiga ao tal bar – que por sinal fica em bairro nobre da capital gaúcha, o que nos daria a sensação de maior segurança.

Nos dias seguintes, uma mescla de culpa e medo com raiva e ódio – que eu não estava acostumado e mesmo hoje não costumo nutrir – cresceu dentro de mim. Aquela lamentável cena voltava à memória em pequenos intervalos. Até o ápice acontecer num sonho, poucos dias depois. Nele, o ladrão estava vencido e ajoelhado. Eu, justiceiro, tinha uma arma na minha mão e disparava em sua cabeça, como se aquilo fosse o meu papel, o que deveria ser feito. Eu, um assassino.

Acordei assustado. Felizmente meu eu consciente sabe que aquilo não era a solução e só de pensar em ter protagonizado tal situação, apesar de só em sonho, já me fazia mal. Com ajuda do espiritismo, foi uma concentração e tanto nos dias seguintes para reverter aquela vibração e tocar a vida em frente. Vão os anéis, ficam os dedos, afinal.

Superado o episódio, de lá pra cá, raríssimas vezes lembrei disso. Até esta semana, quando tentaram matar Jair Bolsonaro. E um atentado contra uma figura como este deputado nos coloca em xeque. Pelo pronome, nota-se que me junto aos 44% do eleitorado que o rejeitam, em oposição a muitas de suas ideias, especialmente a “solução” de combater violência com ainda mais violência.

A facada em Bolsonaro, em quase ato contínuo à cena em que ele defende “metralhar petralhas”, faz um “bem feito!”, um “merecido!” subir à garganta de muitos que estão na sua oposição. Em diversos casos, essas exclamações não foram contidas, chegando a virar decibéis ou pixels em postagens redes sociais afora.

É a senha para se juntar àqueles contra quem estamos contra. A vitória da intolerância e do ódio sobre o diálogo em período eleitoral. Quase um retorno aos tempos do Código de Hamurabi.

Acreditar em encenação, num primeiro momento, ou simplesmente desejar que alguém que tenha ideias diferentes ou mesmo que tenha feito o mal morra desta forma bruta, é uma derrota, antes de tudo, interna. Dá triunfo a nossa pior face.

Nesses tempos complicados e cheios de ruído é preciso concentrar-se e manter coerência do que se fala e se defende com o que pensamos. E isso começa em nosso âmago. Não é fácil, mas esta luta precisa ser pacífica ou nosso radicalismo só nos jogará ladeira abaixo.

Buenos Aires

Buenos Aires

Se formos parar para reparar, esquecemos a maioria absoluta dos momentos da nossa vida. A gente não guarda a informação sobre com qual mão nos servimos o café de manhã, assim como trivialidades como onde encontramos todas as pessoas pelas quais cruzamos ao longo do dia. Essas entre tantas outras situações.

Logo, tudo o que temos na memória são um punhado de flashbacks e lembranças que por alguma razão são úteis ou especiais. Uma dessas me veio à mente por esses dias. Remeteu a dezembro de 2008, quando um então jovem jornalista descia a pé a rua Humberto Primo, em San Telmo, Buenos Aires. Foi quando ocorreu um pensamento espontâneo que o surpreendeu: “Eu moraria nesta cidade”.

O motivo da surpresa foi porque eu havia conhecido a capital argentina havia apenas poucas horas. E desde já tão cedo me senti em casa. Por certo esse pensamento teria sido logo taxado de entusiasmo juvenil e esquecido se ele não tivesse tomado o rumo inverno e se solidificado nos dias seguintes e nas outras três vezes em que cá estive.

Há e sempre houve uma relação especial com Buenos Aires. É uma cidade que manteve seu encanto por mais que seja impossível esconder totalmente seus problemas – sociais e econômicos. Alguns desses tão comuns ou até mais graves do que os da realidade que estou acostumado a acompanhar.

Refletia sobre essa relação, introvertido, caminhando a passado lento em uma fria noite de agosto. Vagava imerso em mim em meio àquele brilho exagerado dos painéis da 9 de Julio, reparando o clima antique da arquitetura de muitos daqueles prédios. Ali estava distante com meus pensamentos, recorriendo la ciudad.

— Com licença, señor. Eu me chamo Fábio, soy brasileño y estoy há uns meses em Buenos Aires. Poderia me ajudar com algumas monedas? – interrompe-me um desconhecido na calçada, em um legítimo portuñol.

Ao voltar bruscamente à realidade, franzo a testa e logo a resposta saiu automaticamente no idioma local: “No tengo nada. Lo siento”. E então cada um segue seu caminho.

¡En facto, es muy natural yo estar en Buenos Aires!

Rápidas argentinas, parte 10: Peso leve, levíssimo

buenos aires

A relação entre economia argentina e crise tem ares duradouros. Mais de uma vez, já falamos disso aqui certa feita, num momento em que – cinco anos atrás – o Clarín fez uma matéria listando produtos em vias de romper o que chamaram de barreira psicológica dos 100 pesos.

Pois bem. Se já não está em tempo, em breve haverá uma nova reportagem sobre a quebra da barreira dos mil pesos. Isso em cinco anos, tamanho o galope da inflação porteña. A propósito, há uma vítima fatal nesta história já: a nota de 2 pesos (que era a menor da família) já não é mais aceita. Este valor foi substituído por moedas – seria esse um destino para o real?

Nas ruas, algo incomum a primeira vez que cá estive é corriqueira: lojas, restaurantes e todo mundo aceitando até o real no pagamento. E, repare só, em diversas situações é mais vantajoso fazer pagamentos com a divisa fabricada ao Norte do Rio da Prata do que a comum em Buenos Aires.

Isso sem falar nos já tradicionais cambistas de ruas, como o da Florida. Oferecem-se aos montes para trocar seu dinheiro, seja real ou dólar, por pesos. E anunciam fazer um preço melhor do que as casas oficiais.

Rápidas

Noto que a estrutura deste texto coincidentemente ficou muito parecida com o que publiquei em 2013. Então vamos recordar a escalada do preço do metrô, que ao menos indica que a inflação ali não seguiu no mesmo embalo. O passe único de 2011 era 90 centavos; em 2013 estava 2,50; agora, em 2018, 12,50 pesos.

Naquele texto também citei uma matéria da piauí sobre denúncias ao clã Kirchner. Este assunto continua. Por estes dias, a Polícia deu uma varredura em residências da ex-presidente e hoje senadora. Inclusive em uma casa em Calafate, cenário das denúncias da matéria original. Em um dos textos, o jornal cita que brasileiros se aproximaram das ações policiais e, ao tomar conhecimento do que se tratavam, asseguraram aos periodistas argentinos que era a versão da Lava Jato.

Vira-casaca

E lá veio o cruzamento. Uma bola alta. Alto, aliás, era algo que ele nunca havia sido. Mas isso, àquela hora, tornara-se irrelevante. Tinha, sim, é que saber o que fazer. Quando fazer.

Naqueles microssegundos ainda seria possível alguma tomada de decisão. E numa fração de instante conseguiu corrigir a rota, logo após terminar alguma equação entre força e direção. Futebol, veja só, também leva muito da matemática consigo.

Um passo amansado para reduzir a velocidade e tudo para cima. Ao alto!

Chegara, reconheceu depois, de forma um tanto surpreendente lá em cima. Deixou para baixo cervejas e os quilos a mais, além da preguiça procrastinadora dos exercícios físicos.

A bola tocou a testa e foi-se. Direto no contrapé daquele seu ex-irmão de posição. Ainda no ar deu tempo de vê-lo esticar-se, de voar a vã esperança em direção ao ângulo direito. Não é todo mundo que manda uma bola lá, afinal. Gol!

Retornou ao solo e deu-se conta então que havia trocado de lado. Virou as costas à camisa 1 e correu. Se antes ia a campo para estragar a festa alheia, viveu por míseros segundos uma comemoração de Maracanã lotado, ainda que estivesse apenas em uma quadra qualquer disputando uma pelada de domingo.

Jornalismo precisa ser muito mais que números

O bom humor é algo que não necessariamente faz gargalhar, mas que provoca reflexão. Vídeo recente do Porta dos Fundos pode ser um caso desses: “Tabela de conversão” satiriza a busca por uma manchete em um jornal carioca qualquer. Uma série de ocorrências sangrentas na periferia são levantadas – e ironizadas pelo editor – até se decidir pelo de uma pessoa branca esfaqueada em zona nobre levar o destaque da capa.

Bom mesmo se fosse apenas engraçado ou tragicômico e não tivesse quê de verdade. Ainda que, é claro, imagino e quero acreditar que os debates não são naquele nível do canal em redações reais – ou na maioria dessas. Mas me incomodou um pouco que o resultado não chega a ser tão diferente.

Óbvio que há uma série de critérios técnicos na definição do que é notícia e principalmente aquilo que vira manchete, tais como localismo e ineditismo. Pode, por exemplo, ganhar destaque o mais inusitado sobre o mais grave.

A verossimilhança do vídeo com algumas situações que já reparei na imprensa, porém, me incomodou. No âmbito regional e recente, aconteceram algumas situações das quais lembrei assim que vi o vídeo. Não por se dar destaque a um ou outro caso, todavia pela seleção daquilo que terá ou não repercussão futura.

Infelizmente, casos de homicídios não têm faltado na mídia gaúcha. E essa situação vem de muito tempo. Só que há uma clara impressão de que os casos mais graves – a exceção de chacinas, que volta e meia têm pipocado no noticiário – têm perdido suítes para alguns específicos, em que as vítimas eram casualmente mulheres, brancas e bonitas.

A questão é delicada, assim como o tema. A rigor, não há caso de homicídio que não mereceria uma nova matéria. Afinal, estamos falando de uma vida ceifada. Porém, diante da infinitude de casos, quando é impossível repercuti-los, quais escolher?

porta

O novo jornalismo – esse com ainda mais pressa para se publicar, menos repórteres e menor contato direto com o local dos crimes – vive o desafio de não se desumanizar. Não deixar crimes virarem meros números corriqueiros – a “terça-feira lá”, citada no vídeo. Em tempos de very hard news, o contexto é tesouro.

O jornalismo é e precisa ser uma ciência humana. Necessita tocar o público e as autoridades. Isso normalmente é consequência da boa apuração numa boa pauta. Alcançar manchete e ter repercussão deve ser visto como consequência. Antes do clique, o bom jornalismo tem como missão identificar e cobrar solução daquilo que está errado na sociedade. Em prol da sociedade.

Quer pagar quanto?

tuite

Dias atrás lancei uma pergunta despretensiosa no Twitter a fim de descobrir quanto que meus seguidores estavam dispostos a pagar pela assinatura digital de um veículo jornalístico. Esclareci que não se tratava de uma pesquisa científica ou coisa assim, até porque faltam aí diversas variáveis. O mote da questão remetia ao velho bordão das Casas Bahia: “Quer pagar quanto?”

Houve três faixas de preço: até R$ 9,90, até R$ 19,90 e até R$ 29,90. Em três dias 27 votaram, garantindo uma vitória acachapante da primeira e mais barata opção (78%). Outros 19% admitiriam desembolsar até R$ 19,90 para se informar. O restante, 3%, deu uma de mão aberta no levantamento e se dispôs a bancar R$ 29,90 – praticamente R$ 1 por dia – por um jornal online.

Apesar da vitória, ficou um palpite sensível: a opção de pagar até R$ 9,90 só saiu vencedora porque a pesquisa não ofereceu a alternativa: “Nada”.

A falta de disposição em não pagar pelo conteúdo jornalístico decorre de uma clara sensação de que as notícias – matéria-prima do jornalismo – hoje estão facilmente ao nosso alcance. E são, via de regra, gratuitas, através das redes sociais, por exemplo, onde manchetes dos links postados, seja por veículos ou por pessoas, já de certa maneira informam.

Conste-se também a imensa gama de canais por onde se informar – fenômeno esse projetado já no início do século, ou seja nos anos iniciais da internet comercial, quando dos primeiros passos da chamada web 2.0, que quebraria o modelo até então consolidado da comunicação emissor-mensagem-receptor.

E o modelo quebrou, de fato. Receptores tornaram-se emissores e multiplicadores de conteúdos. Em questão de pouco tempo, diversos canais alternativos e informativos surgiram na concorrência a veículos de comunicação já consolidados, alguns havia décadas. Nem todos necessariamente jornalísticos, mas sim uma espécie de simulacro, o qual já satisfaz a boa parte do público leigo e/ou ansioso por apenas uma determinada informação.

Importante frisar que paralelo a esta quebra, consolidaram-se nas redes sociais a distribuição de conteúdo. E de forma linear foram colocados um clique gratuito e um clique pago, por meio de paywall, ao mesmo tempo em que mudavam drasticamente o mercado publicitário, tomando para si uma verba que sustentava redações.

Ano após ano, portanto, o leitor (ou antigo receptor) desacostumou-se a ir atrás da notícia, pois neste vaivém ela de alguma forma acabava aparecendo. E até não muito tempo atrás, sempre de graça. Então, por que pagar? E, se pagar, quanto?

Determinar quanto custa o trabalho jornalístico é algo subjetivo, porque mudam, de texto para texto, a quantidade de tempo empregado, gastos com transporte, telefone, internet, entre outras variáveis, como um bom servidor, necessários para a produção e propagação do conteúdo. Lado a lado poderão estar publicações prontas em minutos e reportagens feitas ao longo de semanas. Contudo faz-se necessário, e já com urgência, entender a mudança de cenário, agora, com internet – e o mobile – à frente do tradicional impresso.

A mesma aposta para um produto nem sempre agradável

Pesa ao jornalismo, principalmente ao diário de hard news, ainda ter que “vender” notícias nem sempre agradáveis ao leitor, ao invés de fatos ou conveniências que lhe proporcionem algum tipo prazer, semelhante à sensação quando se compra algo que gosta ou se procura. Em outras palavras, vender jornalismo pode significar ter que buscar receitas com um produto que nem todo mundo gostaria de comprar.

um break bem-vindo porque o texto é grande e foi impossível não lembrar deste filme:

ok, retomando

Em uma linha geral, a rentabilização na internet passa por conhecer os dados do consumidor e saber como tomar pouco de dinheiro de cada um. Receita que, apesar de trabalhosa, se parece mais segura que o contrário, receber muito de poucos – base da publicidade que passou décadas aportando o jornalismo.

Os veículos mais antigos necessitam reconhecer que, apesar de tanto tempo de história, há todo um trabalho que precisa ser reiniciado quase que do zero, situação que coloca novos portais ao lado de nomes consagrados. Disputam o clique de um mesmo leitor. E ele, se estiver disposto, irá querer pagar pouco e ter retorno.

Pouco, neste caso, pode ser sinônimo de estabilidade. E isso é o contrário do que os jornais tradicionais brasileiros parecem apostar. Pouco não significa promoção. A pergunta que motivou o tuíte citado foi originada a partir da busca por assinaturas em jornais consagrados no Brasil.

Três dos maiores e mais acessados veículos jornalísticos do país usam de promoções na esperança de atrair assinantes. Em São Paulo, Folha e Estadão cobram apenas R$ 1,90 no primeiro mês para depois multiplicar o valor: a Folha para R$ 29,90 e o Estadão, R$ 21,90. O Globo, do Rio, busca uma medida mais equilibrada e paulatina: R$ 9,90 nos seis primeiros meses e dobra para R$ 19,90 a partir do sétimo.

No Rio Grande do Sul, o cenário não é diferente. GaúchaZH tem a mais arrojada promoção, cobrando R$ 4,90 no primeiro ano de assinatura, só que, a partir de então, o preço quase quadruplica e salta para R$ 18,90. Principal concorrente em Porto Alegre, o Correio do Povo oferece a assinatura por R$ 14,90 nos primeiros seis meses, com o preço praticamente dobrando, indo para R$ 29,90, do sétimo mês em diante.

Também da Capital, o Jornal do Comércio tem um modelo de negócio semelhante à assinatura do impresso, com planos mensal, trimestral, semestral e anual, com desconto progressivo. Enquanto assinar por um mês custa R$ 24,90, o preço do anual torna o gasto por mês a R$ 20,80 – mediante o pagamento único de R$ 249,60. Para efeitos de comparação no âmbito regional, o Diário Popular, de Pelotas – uma das maiores cidades do interior gaúcho – tem praticamente todo o seu conteúdo restrito apenas para os assinantes. A assinatura, sem promoções, custa R$ 9,90 por mês.

Veículos nascidos na internet já adotam uma política de preço levemente mais baixa, ainda que sua cobertura seja em nível nacional. O Jota, especializado em conteúdo jurídico, cobra R$ 19,90 por mês dos assinantes, oferecendo aí outros tipos de seções, como newsletters especializadas. O Nexo pede R$ 12. Ambos dão dois meses de graça na compra do plano anual.

Se não uma luz, um exemplo

Uma breve olhada para o cenário internacional deve esmiuçar o trabalho desenvolvido pelo The New York Times, que desde o ano passado já superou o número de 2,6 milhões de assinantes exclusivamente digitais. Em 2018, o NYT alcançou a casa do bilhão de dólares de receita com assinantes – contando aqui também os assinantes do impresso, ainda responsáveis por boa parte do bolo, frise-se.

O esforço recente resultou numa virada sadia, ocorrida nesta década: hoje o The New York Times fatura mais com assinaturas do que com publicidade. O preço de uma assinatura digital básica não tem promoção, mas tampouco varia: US$ 6. Na conversão de julho de 2018, é mais barato que quatro dos sete jornais brasileiros supracitados.

Compreender o fenômeno do New York Times e considerar suas variáveis com o mercado brasileiro – que são muitas – talvez seja entender o norte para o caminho da rentabilidade dos veículos jornalísticos online. A partir daí direcionar os esforços tanto na produção do conteúdo a ser oferecido quanto onde e como buscar potenciais novos leitores dispostos a pagar para se informar.

Não existe fórmula mágica, existe sim um mercado novo a ser pensado pelos publishers. E como toda novidade é necessário conquistar o novo leitor, tanto com preço, como com conteúdo. Não adianta comparar assinaturas de jornais a modelos de streaming como Netflix e Spotify ignorando os tópicos preço e qualidade do produto entregue. Só a partir daí acontece a fidelização e, consequentemente, a rentabilização.

Promoções, claro, são parte importante de estratégias de marketing e seu poder não deve ser desprezado. No entanto, diante de fatores como principalmente a instabilidade econômica atual e o alto índice de desemprego nacional, oferecer um preço fixo mensal pode ser mais atrativo do que fazer o valor ao qual o leitor se acostuma a pagar dobrar em questão de tempo.

Numa situação em que a consagrada teoria de McLuhan virou algo do passado, o jornalismo precisa se enxergar como receptor para reaprender a se capitalizar como emissor.

 

*Artigo também publicado no Observatório da Imprensa