De las muertes

caveira

Há uma expressão relacionada à morte que sempre me chamou a atenção: “O corpo do fulano”. Não sei exatamente onde e quando começou a se usar esta expressão para se utilizar com relação ao falecido. Mas, em toda uma construção de fatos, ela acaba por destoar da narrativa. Talvez como uma rota escapatória do destino muitas vezes temido e inexorável da nossa vida.

“Fulano de tal lutou durante anos contra aquela doença, mas não resistiu e morreu. O corpo de fulano será enterrado no cemitério da esquina…”

Repararam? Não é o fulano a ser enterrado e sim seu corpo. Passa, ao menos neste meu entendimento, a ideia de que o fulano em si é algo além de seu corpo, algo/alguém cujo destino não sabemos ao certo, ainda que imaginemos com base nas mais diferentes crenças.

Como espírita, fico com a impressão de que, quando se fala do fulano em si, estamos, ao fim e ao cabo, referindo-nos ao espírito do fulano em si. A alma, quiçá. O corpo não deixa de ser uma roupagem temporária para quando houver o literal desencarne – outra expressão a qual, analisada a etimologia, sugere a diferenciação entre o corpo e o “fulano”.

Uma exceção, talvez, ocorra na cremação, quando, apesar de lembrar que quem é cremado é o corpo e não o fulano, o popular acaba lembrando-se apenas do agente principal: “As cinzas do fulano foram jogadas no mar”. Nesse caso também não se deixa de passar uma impressão de que o novo morto estará presente em determinado lugar a partir de então. De alguma forma.

Essa tese toda escancara um pouco do temor com relação ao inevitável ponto final da vida. De forma que surja – como surgiram ao longo da história – crenças de que, na verdade, a vida não tem fim. Por mais biologicamente ilógico que isso pareça, não morremos. No máximo, dormimos um sono profundo à espera de um despertar – mas aí não para um café da manhã ou coisa assim, mas para um julgamento (!).

Há também a parte minoritária (ao menos aqui no Brasil): os que defendem que não só não morremos, como seguimos vivendo em outro estado, só que nem tão físico. Até reencarnamos, tempos depois. Sucessivamente. Tudo isso, repito, biologicamente impossível e ilógico.

Pero – e aqui uma das minhas frases favoritas não apenas no idioma espanhol – ¡no creo en las brujas, pero que las hay, las hay! E há tanta coisa biologicamente ilógica que não se explica…

Viva-1

É um misterioso tabu! E, a princípio, para sempre o será, como foi há centenas e milhares de anos. Isso porque na nossa cultura é difícil compreender e explicar a morte, justo algo tão certo. Por medo ou superstição ou qualquer outra desculpa, há muita gente que passa a vida inteira evitando qualquer assunto relacionado à ela. Quase como um silencioso temor coletivo.

Nisso, como torna-se bem-vindo um filme como “Viva: a vida é uma festa”, lançado no fim do ano passado. Com leveza e humor, navega por todo esse mundo da morte com uma naturalidade chocante e ainda apresentando a certamente milhões de pessoas um pouco de uma cultura meio fora do mainstream, como é a celebração – e mais, o significado – do “Día de Los Muertos” no México.

Uma cultura sem a depressão da perda, mas a celebração do que foi a vida. Que faz de algo tão comumente associado a coisas ruins, um artigo simpático: a caveirinha. E elas são bastante presentes pelo território mexicano. Tanto em seu pueblo como para os tourists que por lá aparecem em busca de sol e souvenir.

Com a tradicional assinatura da Pixar, esquecendo que há crianças na sala, “Viva” – que na maioria do mundo se chama “Coco” – oferece em animação aquilo que, no fundo, talvez todos queiramos: a continuidade da vida após a morte. Algo tão biologicamente impossível. Mas que todos, no fundo, desejamos.

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Errei. Ou momento confessional nº 17

Essa onda de denuncismo que vivemos acabou por revirar algumas memórias não tão boas minhas. Memória que até então poderia considerar meio tola, mas, se parar para analisar, talvez tenha doído um pouco mais do que imaginei em quem ouviu.

Uma memória baixa e desprezível, com certeza. A qual, hoje, me arrependo.

Eram idos de início de século. No colégio, onde, apesar de já adolescentes, a maldade dos comentários infantis – sempre os mais maldosos! – ainda estava bem presente. Agora não lembro direito em qual ocasião surgiu o atrito entre eu e um colega, que àquela época eu não sei, mas hoje parece mais claramente esclarecido entre homossexual ou bissexual – honestamente não sei pela pura falta de contato posterior.

Nunca tivemos uma amizade verdadeira, todavia relativamente nos dávamos bem. E, pensando hoje, como esse período escolar deve ter sido complicado para ele, que gostava de teatro e não de futebol, que andava e conversava mais com as gurias do que com a bagaceirada abobada que éramos nós, os guris. Difícil.

Nunca fui muito adepto ao bullying. Porém, em retrospectiva, reparo agora que fiz pouco para combatê-lo. E do pouco que combati surgiu a tal situação desta memória. Em alguma discussão sobre trabalho, a qual me irritei com este colega – que também deve ter falado algo para me tirar bem do sério. Independente, eu errei mais, ao deixar a sala onde estávamos com um palavrão seguido do soco moral: “Sua bicha!”.

Foi tanto um xingamento mais ofensivo da minha parte que o normal porque eu não era disso. Já meio que me arrependi de ter pegado tão pesado na hora, mas, irritado, nada fiz na direção contrária. O caso tampouco teve dimensões maiores e sequer levei o então temido bilhete na agenda.

O tempo passou, no fim eu e ele até terminamos o último ano um pouco mais próximos devido a uma amiga em comum. Nunca pedi desculpas pela falta de respeito, contudo carrego esta memória que é mais para cicatriz. E, se não pode mudar o passado, ao menos norteia o futuro em direção de mais tolerância e respeito para com os outros.

Eu jornalista, ano 10

Curso

Queira ou não, o dia 9 de janeiro acaba sendo, pra mim, um dia para se celebrar. Como já falado aqui, é o meu aniversário de formatura, o dia em que me tornei um jornalista profissional. Situação que soa às vezes tão dúbia, que acarreta umas quantas frustrações diárias com raros momentos de uma euforia quase única na vida dos profissionais redações afora.

O nono aniversário do meu canudo, porém, foi um pouco mais especial. Numa nem tão ocasional coincidência, tive minha segunda experiência docente, ao ministrar a oficina de texto webjornalismo em Porto Alegre.

Num mar tão agitado como esse que o jornalismo – especialmente na web – navega, é bom parar para refletir um pouco: para onde estamos querendo ir com este modo que agimos?

Algumas horas de debate regado a café fazem bem tanto para quem está começando como quem já está por aí há algum tempo.