A eleição dos jornalistas-cidadãos

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Projeção da mídia x realidade

Ainda na faculdade eu ouvia um inocente e mobilizado “hoje todo mundo pode ser jornalista”. Era um novo tempo que chegava, em que o leitor estaria munido do poder publicar o que bem entender em seu blog gratuito. O começo da chamada Web 2.0. Era o tempo, repito, inocente da ideia do “jornalismo cidadão”.

Pouco depois disso, entre o fim da década passada e o início desta, massificaram-se as redes sociais em seu padrão mais perto do atual. Em seguida, já boa parte da população estava com seus próprios smartphones. Aí produção e disseminação de conteúdos estavam literalmente à palma da mão. Todos, de fato, poderiam se não ser jornalistas, a estarem aptos a dar o grande furo através de um flagrante ocasional. Blog gratuito? Já nem era mais necessário. Podia-se jogar a informação diretor na praça ou na banca de revistas.

Só que com todo mundo produzindo conteúdo o ruído ficou alto, ao mesmo tempo em que o nível de muitas discussões despencou enquanto grandes jornais viram a concorrência se multiplicar – seria o próprio leitor um media? Nesta ronha, sem perceber tanto, fomos separados em grupos por robôs, que atendem pelo nome de algoritmo. Neles amigos e correligionários encontraram-se. E muitos ainda estão certos que formam uma maioria, pois é só olhar: a maioria do Facebook está conosco!

Passa mais um tempo chegou a época da campanha eleitoral norte-americana de 2016. Aquela com dois candidatos que maioria não gosta. Aquela com nível baixíssimo e com a imprensa não poupando de críticas o republicano Donald Trump. Assim como a mídia, a aparente maioria Facebookiana e tuiteira também apoiava Hillary Clinton.

A democrata começou a noite decisiva com 85% de chances de ser eleita, conforme o The New York Times. As urnas foram sendo apuradas e o índice foi caindo. Trump, o temido odiado, passou à frente. Ganhou. Apesar da imprensa, apesar das redes sociais, apesar de ter dito em alto e bom som tudo o que disse.

A vitória de Trump, e principalmente a derrota de Hillary, foi como uma porrada da realidade, que grita: “Este algoritmo não passa de uma bolha! Não acredite somente nele”. A vida e a realidade são bem maiores do que as redes sociais. Não à toa que a candidata perdeu na maioria dos municípios americanos, esses pequenos. O conjunto de cidades caipiras do interior norte-americano venceu os centros metropolitanos.

A imprensa também recebeu um forte cruzado de direita. Apesar de se propor a fazer levantamentos dos preconceitos do republicano, de escancarar seus defeitos,não conseguiu eleger sua proposta. Em um resumo bem inocente e utópico, jornais trazem à tona notícias e fatos nos quais deveríamos acreditar.

O resultado eleitoral pode indicar que o modus operandi de boa parte da imprensa, especialmente na internet, esteja errado, como sugere um artigo escrito por Jeff Jarvis, intitulado com o sugestivo nome de Postmorten of Journalism. Friso o seguinte trecho, numa livre tradução:

Transformamos Donald Trump num caça-cliques mortal. O cerne do problema é que nós jornalistas insistimos em preservar nosso modelo de negócios de mídia de massa baseado em volume. Em manter o foco nos cliques e em chamar a atenção.
Os fatores somados indicam que o jornalismo saiu da eleição americana com um voto de desconfiança, que deve ser entendido como um questionamento a sua credibilidade. Justo nesta época, em que todos têm celulares e podem escolher onde se informar. Nesta época em que todos são jornalistas.
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3 pensamentos sobre “A eleição dos jornalistas-cidadãos

  1. “Este algoritmo não passa de uma bolha! Não acredite somente nele. A vida e a realidade são bem maiores do que as redes sociais.”
    Isso aqui resumiu TÃO perfeitamente toda e qualquer especulação política dos últimos tempos!
    Acho que a tendência de (quase) todo mundo hoje em dia, muito infelizmente é se rodear de quem pensa igual, e afastar quem discorda, mesmo que minimamente (ou lascar um “unfollow”/bloquear logo). Depois que elas criam a própria bolha de “pessoas que concordam comigo”, deve ser difícil pra caramba acreditar que tem um mundo inteiro lá fora que pensa diferente.
    Essa tendência atual a se “embolhar” é preocupante pra caramba, porque tá fazendo um tanto de gente pensar “puxa, olha quantos likes eu recebi nessa opinião aqui, e NINGUÉM contestou o que eu disse (afinal quem contestaria já deu unfollow, ou a própria pessoa se vangloriando que só mantém gente que pensa exatamente igual por perto)! se tiver ALGUÉM que não concorda comigo nesse mundo, a pessoa claramente é tapada/maligna/come bebês com sucrilhos no café da manhã!”, e daí a intolerância de ambos os lados – e de quem acredita que tem que se apegar a um “lado”, e não ao equilíbrio e às soluções – só tá fazendo aumentar…
    (E esse comentário ficou gigante, irck!!! ahe8a90e)
    Ótimo texto!

    • Mas é por aí. As pessoas estão fugindo do contraditório… E aí cada um tem/vive uma realidade distinta – e não rara extremista: “Comunista” ou “Reaça” etc etc
      Ao fim, sigamos. É o jeito

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