Por mais palavrões, carajo!

carolglobo

Shit happens

Dias atrás Donald Trump falou alguns absurdos sobre as mulheres, vocês devem ter visto. Absurdos que fizeram alguns aliados pularem de sua campanha, além de provocar certo asco em pessoas socialmente racionais. Dia 10, a GloboNews repercutia o caso transmitindo ataques dele (que serviam para justificar o que havia sido dito) pouco antes de as imagens voltarem à repórter Carolina Cimenti, que, obviamente, sem saber que estava ao vivo, desabafou:

Convenhamos: “Puta que pariu” é o mínimo a se dizer diante do caminhão de absurdos que o candidato republicano dispara volta e meia. De pronto a gafe ganhou as redes sociais. Mas a tônica ficou mais na iminente demissão da repórter, que tem nas costas diversas coberturas complicadas, do que na repercussão dos fatos em si.

Ainda na TV, mas dias antes, o venezuelano Seijas extrapolou na sinceridade após mais uma derrota do Inter: “Situação está uma merda”. A “merda” virou “M…” nas matérias vindouras. Dentre os grandes portais, uma exceção foi o UOL, que manteve o termo.

Para alunos do primeiro semestre de faculdade, ao menos os de 2005, o letrado professor Juremir Machado da Silva montou uma interessante lista dos 10 mandamentos do texto jornalístico. Uma delas: “O uso de palavrões deixa seu texto uma merda”.

Mas a não-publicação de palavrões não chega a ser uma lei universal, nem mesmo debatida – como ocorrem em casos que envolvem suicídio. Jornais de língua espanhola, por exemplo, fazem uso do baixo calão. Alguns, mais despojados, não poupam nem sua capa, caso seja necessário. Isso sem falar nas rádios esportivas em momentos de gols cardíacos. Aí o “carajo” corre solto pelas vias da emoção da hora.

Saliente-se: não perdem credibilidade ou audiência com isso. Aí, pelo contrário, aproximam-se de seu público.

Aqui, então, faz-se a reflexão: se o jornalismo se propõe a retratar de forma fiel a sociedade, por que restringe-se aos limites do puritanismo ao reportar um meio onde o palavrão é algo comum no mínimo desde a pré-adolescência?

Não que a reportagem devesse se tornar algo completamente coloquial ou informal, como numa conversa de bar entre amigos. Não, até porque o bom jornalismo exige seriedade e, claro, respeito para com o próximo. Entretanto, em diversas situações, a ênfase do baixo calão poderia tornar mais verossímil o relato.

De qualquer forma, quando uma repórter competente acaba por deixar escapar um desabafo na forma de uma palavrão, o público deveria mais saudar o fato – “olha, a repórter também é uma humana” – do que ficar brincando com uma possível demissão. Ainda que não pareça às vezes, jornalismo é feito por pessoas. (e pessoas falam palavrões!)

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Um pensamento sobre “Por mais palavrões, carajo!

  1. Adorei, Tiago. Muito verdade. Às vezes, raspar um pouco essa “craca” do politicamente correto traria as nossa notícias um ar mais fresco, humano, menos reacionário e ficcional.

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