Uma nova credibilidade

Faz pouco mais de um ano participei do “Mídia em Debate”, na TVE, numa edição que acabou sendo um dos últimos programas, que discutiu, entre outros assuntos, a credibilidade nesta época e um jornalismo acelerado e de redes sociais.

O mediador foi Celso Schröder, meu professor na PUCRS, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas e ferrenho defensor do jornalismo impresso. Dentre seus argumentos, que concordo em parte, ele argumentou ao longo da conversa que um repórter não pode sair pautado para fazer texto, vídeo e áudio para uma matéria. Em suma, não adianta jogar muito volume de informação, sem conteúdo.

Eu e mais dois colegas que estávamos à mesa argumentamos que não é bem assim. O modus operandi do jornalismo mudou não só depois da profusão da internet, mas também após a massificação dos smartphones. Tudo é cada vez mais rápido, principalmente a informação – sejam elas jornalísticas ou boatos e “matérias” descontextualizadas que tanto aparecem em timelines alheias.

Schröder usou um bom exemplo para defender seu ponto de vista: Watergate. O escândalo político em que dois repórteres, Bob Woodward e Carl Bernstein, guiados por uma fonte que utilizava pseudônimo derrubaram o presidente dos Estados Unidos após denúncias de corrupção. Um exemplo de “jornalismo puro”. Com matérias de jornais e na década de 1970, ou seja, sem os recursos multimídia do século XXI.

Lembrei disso esta semana por conta de um evento trágico: o ataque a machadadas de um jovem afegão em um trem na Alemanha. Estava no jornal, recebemos as primeiras informações e apuramos na imprensa local. Logo veio aquela dúvida, infelizmente corriqueira por estes dias: tratava-se de um atentado terrorista?

Em um primeiro momento, apenas indícios, mas não provas. Era noite de segunda-feira no Brasil e a notícia permaneceu daquela forma: um afegão atacou alemães em um vagão de trem. No entanto, na manhã seguinte, o Estado Islâmico assumiu o crime. Contudo, foi por meio de sua agência de notícias (note a importância da informação, uma organização tem uma agência de notícias oficial!). Apenas palavras, que imediatamente foram contestadas por autoridades alemãs.

Horas mais tarde, então, veio o xeque-mate dos extremistas: um vídeo, com o autor do ataque, admitindo que faria uma “operação” na Alemanha, contra “países infiéis”. A partir daí, a Alemanha reconheceu que o jovem havia se radicalizado havia pouco.

A questão do caso foi a credibilidade. O Estado Islâmico reivindicou, porém não teve respaldo – tal qual muita coisa que a gente lê, mas não acredita internet afora hoje dia. Teve que lançar mão de um vídeo para provar a autenticidade de seu ato. Assim conseguiu, porque vivemos numa era multimídia. Em certos casos, apenas palavras podem não bastar. É necessário contexto, provas e se possível vídeos ou fotos – que serão minuciosamente  analisados por um sem fim de interessados, sejam jornalistas ou não.

É uma nova busca à velha credibilidade. À moda o século XXI.

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