O último pênalti

Foto: Palmeiras

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Início de século. E o título estava ali, a apenas uma cobrança de pênalti naquela decisão de torneio colegial. Três dos cinco jogadores do meu time já haviam cobrado. Restava eu e outro colega, apenas. E já tinha percebido: era só colocar a bola em qualquer canto que o gol seria quase certo.

Mas tremi. Titubeei e disse para o outro colega cobrar. Talvez como castigo, de nada adiantou eu soprar para ele chutar em um dos lados da goleira. O chute forte, mas no centro da meta, parou nas mãos do goleiro. O outro time, em seguida, virou a disputa. Foram campeões. E nós, vice.

São para os fortes, as últimas cobranças. Não tive coragem de cobrar meu amigo depois daquele erro, porque eu fiz pior: não tive coragem de assumir a responsabilidade e bater o pênalti. Deixei o preconceito do “goleiro cobra mal” falar mais forte. Resignei-me a ser mero torcedor em campo.

Lembrei desta cena ontem ao ver o goleiro Fernando Prass na decisão da Copa do Brasil. Ele, encarregado de cobrar o último pênalti. E isso num clássico, numa final. Ele sendo goleiro e que tinha defendido cobrança antes.

Neste momento vilania e heroísmo – essa dualidade íntima de quem vive sob o travessão – nunca estiveram tão próximos do arqueiro palmeirense. Havia de se ter coragem. E não faltou: com um verdadeiro tiro de meta, quase rasgou a rede adversária e correu para o abraço. Campeão e ainda mais herói.

Como num resumo da vida, o futebol nos dá a oportunidade de sermos fortes. E, se falhamos, mais cedo ou mais tarde chega a chance de se redimir. A minha veio quase dez anos depois daquele vice no colégio:

O ano, então, era 2009. E o título estava ali, a apenas uma cobrança de pênalti naquela decisão de torneio interno da empresa, no caso o Jornal do Comércio. Quatro dos cinco jogadores do meu time já haviam cobrado. Restava eu – e apenas eu.

O goleiro rival era alto, quase do tamanho da goleira e não tinha deixado transparecer macete algum para a cobrança, mantendo-se imprevisível a cada novo chute. Ajeitei a bola e, confesso, a perna tremeu. Mas desta vez o Luiz estava no meu time. E antes de partir para a cobrança ele ressaltou a glória etílica que nos esperava logo ali, depois daquele chute.

Foi a cobrança mais convicta que fiz na minha vida. No canto direito, onde a bola deveria ter entrado anos antes. Gol, que num mesmo momento me livrou de um peso e nos garantiu a taça. E provou que o futebol, esta cachaça, é uma metáfora perfeita para a vida.

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