A voz dos idiotas em alto e bom som

Se num diálogo entre amigos, conhecidos “na vida real”, chegar a um consenso quase sempre é muito complicado, quando não impossível, na internet – onde atores das discussões têm a opção de se esconder – torna-se inviável.

Não é novidade dizer que covardes viram corajosos quando estão por de trás de computadores e/ou celulares. Ou, pior (e mais corajosos) ainda, escondidos sob um nome fake. Certos da impunidade, baixam o nível de qualquer discussão. O objetivo, pura e simples, torna-se avacalhar ou liberar a “brincadeira” de mau gosto de qualquer postagem.

Democraticamente, a internet e as redes sociais garantem espaço de manifestação a todos, maiorias e, principalmente, minorias. Infelizmente, algumas dessas minorias são responsáveis por cenas lamentáveis, como as ocorridas na página da atriz Taís Araújo nesse fim de semana e no Twitter da menina do Masterchef dias antes.

Pode soar ingênuo, mas não acredito que viva numa sociedade amplamente racista e pedófila. Há casos, graves, que devem ser combatidos, é claro. Porém duvido que “opiniões” expressadas nos casos citados sejam de amplo consenso.

E aí entra o jornalismo. Ambos os casos ganharam bastante espaço na mídia em nível nacional. São crimes que foram cometidos, ok. Assim como milhares de outros que foram descartados e não entraram no jornal ou sequer apurados. Há o fator da denúncia, do errado que precisa ser combatido – o que é um dos pilares do bom jornalismo. Só que, em meio às enxurradas de comentários e tuítes, foram uma imensa minoria.

Contesto, por isso: o quanto o jornalismo está realmente interessado em combater tais crimes, ao noticiar apenas fatos cujas vítimas são famosas e que rendem cliques aos respectivos sites e/ou geram discussão? E por que não aproveitar o infeliz gancho para ir a fundo na questão, já que, apesar de ser cometido por minorias, é algo que de fato existe e que precisa ser bem debatido e combatido?

Quero crer que algum veículo fez isso. Contudo, se fez, acredito que, infelizmente, teve bem menos repercussão que os textos originais, que, ao fim e ao cabo, acabam por dar razão a Umberto Eco, que defendeu há poucas semanas: “As redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”.

Não seria um novo papel do jornalismo saber ser curador do conteúdo realmente útil que é publicado na internet?

 

ps: para ficar bem claro: em nenhum momento este texto minimiza os crimes cometidos e/ou suas vítimas. Pelo contrário, até pelo fato de serem cometidos em redes sociais, apoia uma rápida ação policial/judicial contra os autores dos comentários racistas e pedófilos. As redes sociais e a internet, afinal, não podem ser terras de ninguém. 

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Um pensamento sobre “A voz dos idiotas em alto e bom som

  1. Parabéns pelo texto, Tiago! Texto do ano passado e tão atual!!! Acredito que passamos por um momento de resignificação da mídia e de uma recolocação do papel do jornalista nessa realidade cada vez mais virtual e massiva. Penso que nossa sociedade em rede (aqui utilizando a ideia de Bauman) cria muita informação (e muita informação inútil) e pouco conteúdo. Como colocas no texto, falta o aprofundamento do debate de temas que não estão mais debaixo dos nossos narizes, mas sim diante dos olhos, caindo de maduros!

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