A noite em que eu fechei a redação

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Panorama da redação às 4h

Fechei a porta da redação quando já era quase manhã. Na saída do prédio, cruzei com o apresentador do primeiro programa de notícias do dia. Ele já na quinta-feira, eu encerrando o expediente da quarta. Eram 4h e finalmente chegava um turno de trabalho que durou 10 horas, seis delas exclusivamente dedicadas à cobertura de um violentíssimo temporal que atingiu Porto Alegre.

O imprevisível, muitas vezes, é rotineiro no jornalismo, em especial àquele “de raiz”, praticado na redação. Não foi a primeira vez que tive a sensação de não saber qual hora na qual sairia do jornal. E não foi a última, com certeza.

Mas, até então, nunca havia fechado a redação em um dia normal de trabalho – apenas em plantões, o que é algo até normal. E só saí após horas de dezenas de informações apuradas, matérias publicadas e divulgadas e umas quantas ligações para prefeitura, companhia de energia elétrica e repórteres. Um trabalhão.

Ao sair me deparei com a cidade devastada de um jeito que nunca havia visto. Às escuras, com umas quantas árvores caídas. Parece que andei os oito quilômetros de sempre após um quase fim de Porto Alegre:

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Avenida Independência com os faróis apagados

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Avenida Independência com os faróis acesos

Exausto, mas com a agitação típica que quem trabalha à noite conhece bem, parei algumas vezes até chegar em casa, um tanto quanto incrédulo com o choque de realidade que aquilo que passei noticiando por horas escancarava.

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Cena comum até o caminho de casa

Nunca fui de fazer declarações à dita “melhor profissão do mundo” – descrição essa que foi dita na minha formatura, mas que até hoje desconfio seriamente. Porém ter praticamente dobrado o expediente e segurado por horas a fio uma grande cobertura ao vivo e, principalmente, levando utilidade pública a milhares de internautas em uma noite caótica, não deixou de ser a prova de amor mais bonita que fiz à minha profissão nesses seis anos de relacionamento profissional.

Quem um dia foi repórter sabe, afinal, que jornalismo é exaustivo ao extremo. Mas uma ótima cachaça, sem dúvida.

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3 pensamentos sobre “A noite em que eu fechei a redação

  1. Clep, clep, clep, tu nasceu pra isso meu cumpadi… tenho certeza que fez essa cobertura de coração e com o coração na ponta da esferográfica. Ops, na ponta dos dedos.
    Um prazer ter feito parte dessa formação e do enraizamento dessa tua convicção!
    Agora, pra nós, é hora de desfrutar do resultado do teu trabalho. Pra ti, são horas e horas para nos abastecer de notícias, mesmo que isso represente padecer na Redação. Sei que isso, pra ti, é como padecer no paraíso!

  2. Quando amamos, vemos poesia em tudo Tiago. E o que tu escreves aqui é uma poesia. Uma poesia sobre saber que tu foste o “filtro” para tantas pessoas. Saber que não estava no “olho do furacão”, mas tudo via, e os outros tudo viam através dos teus olhos, dos teus dedos que teclaram incansavelmente tudo o que recebia de informação. Que bela corrente esta, em que temos várias pessoas conectadas em prol da informação (gente na rua, gente dentro da redação)! Saber da ponta de heroísmo que é informar onde está o perigo, quem precisa de ajuda, o que de fato aconteceu com as pessoas que passaram pelo terror de perder tudo (ou quase tudo) o que tinham. Estar em uma redação é para quem é forte.

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