Um repórter do século passado

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Imagem: contentrev.com/

Certa feita tive uma pauta policial na minha frente. Um assalto mal sucedido em um prédio comercial localizado em uma parte relativamente antiga do Centro de Porto Alegre, na avenida Mauá, via que separa (e afasta com seu muro) a cidade de seu rio (lago ou estuário) Guaíba.

O que se passava, no caso, era que dois homens assaltaram uma joalheria no quarto andar. Pegaram os valores e iniciaram o empreendimento da fuga no elevador. Aí que deu-se o infortúnio. Do térreo, o esperto porteiro percebeu a movimentação suspeita e desligou a eletricidade do elevador, trancando a dupla e mais uma terceira pessoa, que não se sabia se era refém ou cúmplice entre os pisos do prédio.

Pois bem, o caso, obviamente, atraiu as atenções jornalísticas naquele fim de tarde de dezembro. Saí em disparada da redação do centenário Correio do Povo, ali perto. Lá, vi-me cercado de diversos colegas de muitos veículos de comunicação.

Já imaginava o desfecho do caso, que ainda bem não se transformou em tragédia. Mas não sabia que tinha, entre nós, jornalistas, um experimento de viagem no tempo. Aconteceu que a maioria dos repórteres lá presentes tinha seus 20 e poucos anos e seus comportamentos e vestimentas condizentes à idade. Uns de All Star, quase todos de camiseta simples, smartphone na mão, Twitter, Facebook. Relatando informações via internet, algo comum hoje.

Entre nós, porém, havia um senhor, de terno, gravata e – juro – cartola. Segurava um equipamento antiquado para entrar no ar em alguma rádio com uma linguagem, para dizer o mínimo, antiga. Chamou minha atenção, também, porque não fazia ideia de onde aquele senhor trabalhava. Portava um crachá que para mim era ilegível, com exceção da palavra “IMPRENSA”. Seu microfone não tinha canopla, tampouco seu equipamento possuía alguma identificação melhor da empresa para qual reportava.

Falava estranho, com um ritmo dos radialistas de décadas passadas narrando grandes acontecimentos, enquanto os outros contavam mais uma história policial porto-alegrense. Não cheguei a vê-lo conversando com os colegas – prática normal nessas engates que o jornalismo fornece aos repórteres. Sempre sozinho, num canto, falando sobre sua pauta em um microfone antigo.

No fim da noite o caso teve desfecho, sem mortos ou feridos. Na correria do fim de pauta, enquanto finalizava o meu trabalho o vi caminhando em direção ao Centro, apenas, ainda carregando o peso de sua tecnologia um tanto quanto primitiva. Não cubro pautas policiais cotidianamente e nunca mais o vi, nem em sites para jornalistas. Lembrei dele há pouco tempo apenas, lendo um livro que relata como era a minha profissão na primeira metade do século XX.

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