Sinal do tempo

Surgiu malandro, furtivo, em meio à fila do buffet livre em almoço de dia de semana. Certo da impunidade devido às minhas duas mãos ocupadas, refletiu ali no espelho – garboso – acima da testa, no meio da franja. Resplandeceu sua alvidez, o fio branco. Não foi o primeiro em 29 anos, mas o mais abusado, com certeza. Não quis a periferia de seus antecessores.

Ali, entre panelas de arroz, feijão, próximo à ilha de saladas, eu não tinha o que fazer. Apenas segui-lo pelo espelho para, depois, arrancá-lo, afinal, ainda não chegou a hora – e nem o ano – de se permitir grisalho. Restam-me não muitos meses, porém posso dizer que estou na jovial  “casa dos 20”.

Mas ele sumiu, o fio branco. Ao fim da sobremesa, quando chegaria a sua hora, já não estava mais ali – acima da testa, no meio da franja. Escondeu-se em meio aos (ainda) muitos cabelos da região, não sei. Mas poderia jurar que não está mais ali (será que caiu? Será que isso é uma tendência?).

Imagino que o malandro esteja em fase de testes, de estudo. Às vezes aparece de um lado, às vezes aparece de outro, como um índio camuflado na selva, que decide a hora de mostrar-se. E quando atacar, será sem dó. Emplacará o grisalho, não importa o tempo ou a idade que for. Será uma batalha perdida. Mas não agora, na casa dos 20. Isso eu não permito.

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Um pensamento sobre “Sinal do tempo

  1. A idade que chega. E chega lenta, silenciosa e não avisa ou manda recado. Aparece até nos dias em que não fazemos aniversário…

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