O ciclo da vida no horário comercial

Entre uma certidão de nascimento e outra de óbito emitidas a partir do mesmo balcão há um intervalo de minutos, nos quais alguns suspiram entediados esperando suas segundas vias de documentos antigos e outros sorriem, recém-casados. De segunda a sexta-feira, entre 9h e 17h – além dos horários de plantão – o cartório torna-se o resumo perfeito do homo sapiens moderno brasileiro.

Mais dolorosa que a espera interminável pela segunda via daquela certidão antiga que consta nas folhas 155 e 156 do livro 14-B que está guardado e empoeirado, distante diversas prateleiras da porta, só a função de ter de solicitar a certidão de óbito do ente querido, há pouco falecido.

Tão feliz quanto o pai de primeira viagem citando o nome do filho recém-nascido pela primeira vez de forma oficial está a noiva, arrumada, que fazia tempo já esperava pelo casório, assim, de papel passado e comunhão de bens. O amor, afinal, é para ser eterno. E registrado em cartório, para provar a quem queira ver no futuro.

Da fila da segunda via, terceiros e officeboys assistem entediados a tudo – e, com sorte, sentados no banco junto à parede com um jornal sem dono e amassado. Mal percebem eles que, em meio à pressa dos compromissos do dia, veem o ciclo da vida por inteiro diante dos olhos. O nascimento, o casamento, o falecimento. Afinal, entre 9h e 17h o cartório torna-se o resumo perfeito do homo sapiens moderno brasileiro. Mas só de segunda a sexta-feira, porque toda burocracia merece um fim de semana de procrastinação.

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