Mãe é mãe

Fazia 20°C e era cerca de 23h. Atravessava a rua saindo de um restaurante para subir na moto quando ouço aquela frase que já ouvi milhares de vezes em quase 30 anos: “Tá frio. Bota um casaco”. A poucos metros, entrando no carro, minha mãe, outra vez, desrespeita todos os meus fios de barba, para apenas cuidar de mim. Resmunguei.

Um tanto quanto constrangido olhei para o guarda na rua: “Mãe é mãe, né?”, comentei, minimizando a recomendação recém proferida. Ele, um negro com cara de quem sabe dos meandros da vida, na casa dos seus 50 e poucos anos, sorriu e me respondeu, com muito mais sabedoria e uma ponta de tristeza disfarçada de nostalgia: “Sorte de quem tem uma”.

Parei por um segundo, desconversei quase encabulado com o guarda. Ainda pedi desculpa por não ter nenhum trocado para ele, que me deu o golpe final: “Não tem problema, eu não cobro”.

Arrependi-me do resmungo anterior e, numa fração de segundo, me passaram todas as dificuldades já enfrentadas para eu seguir ouvindo para usar um casaco. E como eu as enfrentaria mais vezes para ter meus fios de barba desrespeitados com 20°C de uma noite primaveril.

Mãe é mãe, afinal. (mas eu não coloquei o casaco!)

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