“Uma vez eu trabalhei em redação”

“Eu trabalhava em redação no começo da minha carreira”, suspiro eu em uma conversa com meu neto, que já não é nenhuma criança e tem noção das coisas que rondam o mundo nesta segunda metade do século XXI. Ele se surpreende com esta história de tempos inimagináveis: “Sério?! E como era?”, questiona-me, interessado.

Conto coisas que, para ele, soam inimagináveis nesta era depois do ultramoderno, de ultraconexão. Éramos muitos e nosso principal produto era um emaranhado de folhas, conto. “Acredita que trabalhei em jornais que passaram décadas vendendo notícias impressas em papéis?” Revelo que nas redações que frequentei havia dezenas de jornalistas, revezando-se ao passar dos turnos em uma mesma e ampla sala. “Isso que” – continuo com tom nostálgico – “na época que trabalhava já havia internet em todas redações. Anos antes nem isso tinha”.

Percebo que exagero apenas quando cito que, nem 20 anos antes de terem escrito pela primeira vez “repórter” na minha carteira de trabalho, ainda se usavam máquinas de escrever e câmeras fotográficas analógicas. Aí meu neto se perdeu e sequer conseguiu imaginar o funcionamento de tais geringonças. Na hora acho que ficou com preguiça de procurar alguma imagem desses aparelhos na internet. “Ainda pautávamos a sociedade”, encerro, sendo observado por alguém que parecia olhar um Archaeopteryx lithographica, aquela ave do período jurássico, já extinta.

Bem antes desta conversa, aos 28 anos e sem nem filho ainda, flagro-me preocupado com o futuro do jornalismo, em especial, esse que ainda é feito em redações. Vejo e sei que elas minguam, com o passar do tempo. E isso que acompanho e perto há apenas cinco anos.

Tanto eu, quanto meus amigos e outros muitos que nem conheço debatem o assunto nas próprias sedes de jornais como em bares, ainda um antigo reduto de jornalistas. Uns mais preocupados, outros nem tanto, mas certamente todos temerosos: para onde caminhamos?

O modelo de financiamento de um jornal é basicamente o mesmo desde que a imprensa começou. Antigamente credibilidade garantia audiência. Os leitores nos procuravam para se informar com o que a gente oferecia – o que nos dava respaldo por saber que, se produzíssemos com qualidade, a tendência era de que nossos leitores falassem bem de nós e isso aumentaria as vendas de jornais, atraindo mais e novos leitores, anúncios e, consequentemente, faria a roda girar.

Hoje não. E justo numa época em que nunca se consumiu (e produziu) tanto conteúdo. Ao mesmo tempo que apuramos a informação, corremos atrás do leitor para ele nos ler antes que nosso concorrente. Só que nossa credibilidade já não é mais garantia para ele nos ler. Não, ele provavelmente só vai ler aquele que chegar primeiro nele – sabemos que, assim como nós, o nosso leitor tem pressa com as novidades e dificilmente irá ler a mesma notícia em dois jornais diferentes.

Temos, então, que ser bons de marketing também. Temos que ter sacadas legais, usar palavras e imagens criativas e chamativas. Viramos meio publicitários sem se dar conta, sem formação. Sem querer.

Conteúdo, em si, não deixou de ser importante, mas tristemente está quase passando a um papel secundário. Pouco a pouco, caça-cliques ganham redes sociais (onde vivem nossos leitores hoje) com seu neon escondido em listas e pequenas curiosidades – quem é que não sonha em saber, entender e descobrir sobre tudo no mundo em breves parágrafos? Isso aí, queira ou não, gera a renda de publicidade que faz a roda girar. Ainda que a roda já não gire tão bem quanto antes. E, pior, parece estar parando.

Ao menos neste momento, a sinuca de bico do jornalismo está formada desta forma: se a aposta for apenas em conteúdo, não se paga as contas – nossos apressados leitores não têm tanto tempo para se aprofundarem em todos os assuntos, assim como os jornalistas não dispõem de grandes períodos para apuração/produção/execução da pauta. Se for apenas em caça-cliques, acaba-se, cedo ou tarde, o jornalismo não cumprindo seu papel de informar. Além de destinar-se a cair num marasmo desinteressante inevitável deste modelo efêmero.

Lembro de tudo isso lá na segunda metade do século XXI. Sinto uma ponta de aflição só de recordar desse período, de quando eu tinha quase 30. Não faz bem para um velho coração, penso. O mundo, apesar de tudo, seguiu girando. Entre tantas mudanças, sobrevivi.

Numa era moderna nunca parecemos tão velhos

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Um pensamento sobre ““Uma vez eu trabalhei em redação”

  1. Este jornalismo ainda nos mata. Lembro de todas vezes em que me deparei com uma boa história, o prelúdio para um grande texto. Fico excitado, não vejo a hora de escrever sem pensar no número de parágrafos. Atualmente, nossos leitores parecem torcer para que a informação venha completa e encaixotada no segundo parágrafo. Mas faz tempo que não sinto tesão, faz tempo que não encontro uma boa história, daquelas que não reconhece o espaço pré-determinado pela diagramação e que faça o leitor descansar os olhos somente depois do ponto final. Baita texto!

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