Da segunda chance

Aconteceu numa dessas terças-feiras de fevereiro, ali perto da esquina da Andradas com a Caldas Júnior, onde fica o prédio do Correio do Povo, Centro de Porto Alegre. Longe dos meus olhos, um motoboy errou ao manobrar e derrubou a justo minha moto, por ali estacionada.

Atento ao “lance”, o flanelinha/morador de rua, que muitos nem veem – ou fingem não vê-lo –, abordou o sujeito. Não sei a cena, e até não tenho ambição de imaginá-la fielmente. Sei, apenas, que muitas coisas poderiam acontecer ali. Apostaria em: absolutamente nada. Uma das que eu menos cogitaria sucedeu-se: o motoboy – que nem em Porto Alegre mora – deixando o local somente após fornecer o seu número ao flanelinha.

Horas mais tarde, deixei a redação e finalmente fui lá, sem saber do ocorrido. Deitado no colchão improvisado sob a marquise do prédio do jornal, com um ar sereno, me contou o que tinha se passado e puxou um cartão, com o telefone e o nome corretos do tal motoboy.

Foi então que, diante da minha feição agradecida, ele me olhou um tanto esperançoso e perguntou: “Fiz a coisa certa, né doutor?”. Não sabia, e continuo sem saber de nada da sua vida, e nem mesmo seu nome, apesar de um contato quase diário. Não sei o que lhe fez parar ali na rua, nem de sua família. Nada. Só soube a única resposta para aquele momento, além de um cumprimento de mão e de um sorriso grato.

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Um pensamento sobre “Da segunda chance

  1. Ele deve ter ficado bem feliz com teu reconhecimento e é isso que vale. Parabéns pelo texto! bj
    Vicky

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