Palavras para guardar ou passar

Livros“Um abraço ao meu grande e fiel amigo” e eu parei de ler por aí. Por óbvio, era uma dedicatória, que estava no livro “102 que contam”, organizado por Charles Kiefer. Não haveria o menor problema se a obra não estivesse a venda, por R$ 10, em um sebo no Centro de Porto Alegre.

Eu estava ali por acaso, matando tempo quando encontrei o livro. Li a dedicatória e em seguida tuitei: “Constrangimento: abrir um livro usado em um sebo e dar de cara com um dedicatória que começa com “ao meu grande e fiel amigo…””.

Num sucesso incomum, tão logo recorri à rede social, as repercussões começaram. Uma colega pouco caso fez, outro questionou o “constrangimento”, uma terceira concordou comigo e, depois, mais um entrou no que virou um debate, sugerindo que o “grande e fiel amigo” pode ter morrido e, por isso, o livro estava naquela estante. Em meio à isso, um sebo passou a me seguir no Twitter.

Achei engraçado o assunto quase banal gerar a discussão. No fundo, mexe um pouco no âmago de qualquer um familiarizado com a literatura. Qual a utilidade de um livro usado, afinal? Deixá-lo na estante, parado, quase como um enfeite intelecutal na casa. Ou passá-lo adiante, a fim de difundir a cultura amigos afora.

Livros, talvez, podem ser comparados com amigos. Parafraseando o Vinicius de Moraes: nem todos estão próximos ao mesmo tempo. Às vezes tu sabes que determinada pessoa está fazendo um bem enorme a grupos distintos, mesmo longe de ti. E às vezes se fica bem faceiro só em saber que ele está ali, ao seu alcance, para reler um parágrafo, um verso marcante.

Fico dividido. Em meio àqueles sonhos empoeirados, acho que anseio por ter um cômodo da minha grande casa destinado a ser um biblioteca particular, onde um Gabriel García Marquez comprado em Bogotá (que ainda nem li) divide espaço com um livreto com discursos de Fidel Castro, vindo de Cuba. Onde Millôr Fernandes e Luis Fernando Verissimo teceriam eternamente textos geniais. Enfim.

Mas, ao mesmo tempo, tem tanta gente que – mais do que poder – deveria lê-los, que fico em dúvida. Volta e meia empresto (troco) livros com alguns amigos. Admito, porém, que esse meu círculo é bem restrito.

Fato é que, por mais que a frase “no fim, a vida inteira se torna um ato de desapego”, vista em um bom filme em cartaz por aí, tenha me feito refletir, algumas coisas talvez sejam imutáveis para mim, como livros com dedicatórias pessoais. Esses são para se levar pra sempre.

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