Para seguir vivendo antes que o mundo acabe

   E o fim do mundo que iria terminar dois dias trás não aconteceu. Inclusive, já é segunda-feira – ou terça, no mínimo, pra quem ler este post e estiver no Japão. Tudo parece estar rotineiramente normal depois desse certo frisson da semana passada. No Twitter, o que era #apocalipselive virou #fimdomundofail. E todos acham graça, afinal a vida continuou.
   Confesso que esse assunto, no meu âmago, assusta um tanto – embora não demonstre e até passe incredulidade para os que conversam comigo (papo furado para não transparecer sinais de medo). Admito, deixando um pouco a falsa coragem de lado, que acharia extremamente desagradável estar por aqui e ter que ver, ao vivo, o mundo acabar.
   Se não me falha a memória, já sobrevivi a uns dois fins de mundo. O primeiro seria agosto de 1999, acho. O segundo – clássico – na virada para o ano 2000. Foi igual ao desse 21 de maio, só não tinha redes sociais. Rolou o boato, que cresceu e gerou aquela expectativa. Tal qual hoje, a vida seguiu. Que bom!
   Avaliando um pouco mais, encontrei outras coincidências. Sempre quis viver e para justificar isso mentalizava o que teria de fazer antes de dizer me autorizar a dizer: “Sim, agora eu posso morrer”. A desculpa para as duas primeiras foi a mesma de que outros colegas meus de aula. Óbvia para um adolescente. Eu não podia morrer virgem. Passar por essa vida sem comer ninguém seria lamentável.
   Neste ano, não foi esse o pensamento, claro. A análise aprofundou-se mais. Olhei para trás e vi o quanto conquistei e acabei sentindo um tanto de orgulho. Entre altos e baixos, me formei, fiz gente feliz, viajei, conquistei um espaço para chamar de meu, uns empregos legais e até pós-graduando na área que gosto sou hoje, aos 25 anos de idade. (Para constar: a virgindade já faz coisa de um passado remoto.)
   Mas não pude deixar de imaginar novamente o que eu ainda preciso fazer. E, por mais coisas boas que tenha colocado na bagagem, há outras infinidades que pretendo realizar antes do inevitável ato de desencarnar. Por mais que a haja bonança, a gente sempre quer melhorá-la, concluí.
   Felicidade, em qualquer grau que seja, é viciante. Quaisquer ameaças de que ela acabe assusta.
   Concomitantemente, o friozinho na barriga que ocorre em todas as despedidas me acompanhou nos últimos dias da semana passada. E se realmente fosse o fim? Porém, esse pensamento perdeu força facilmente na rotina diária de jornalista.
   Entre as centenas de e-mails que se candidatam a virar notícia e ser publicada, boa parte delas tem a morte como pretexto. Como aconteceu na quinta, na sexta, no sábado e vai seguir no domingo, na segunda etc. Não pude evitar de pensar, no dia 21, assim que li algum e-mail desses. “Ih, o mundo acabou antes para esse aí”.
   O que se passa, nesta sociedade tão conectada, tão informada por leitores que avisam sites que noticiam via internet, por onde são lidos por outros leitores, que têm celulares online, e ligam para rádios, que passam adiante o que vai ser informado na TV e sair no jornal do outro dia, que será levado até os fundos do cafundó, através de cinco linhas impressas em meio a anúncios publicitários? O que passa é que tragédias diárias viraram corriqueiras e, dependendo, poucos dão bola para elas.
   O mundo termina diariamente para um monte de gente e nem todos notam, assim como nem vários outros sequer querem notar. Pensando bem, ele nem começou para um considerável número de pessoas tão iguais a mim e a ti, caro(a) leitor. Ou dá para chamar de vida acordar na miséria, sem perspectivas ou, pior, sem motivo para levantar e sentir frio, medo, fome ou tudo isso junto? Não.
   Junto a toda essa reflexão, lembrei que uma vez – pouco antes de um dos fins de mundo que acabei por sobreviver – vi em algum meio de comunicação de que na virada do ano 999 para o ano 1000, também houve esse ultimato. Tudo ia pelos ares, mas teria tido comemoração, porque a vida, à época, não era boa e seria melhor se tudo tivesse fim mesmo – o que me faz concluir que temos pessoas um milênio atrasada entre nós e achamos normal. Como se sabe, a Terra continuou a rodar.
   Passado esse outro apocalipse frustrado, no próximo ano teremos outro. E eu certamente ficarei apreensivo enquanto digo que não acredito que a vida seguirá e tal e coisa. Assim como também vou tentar me convencer de que preciso de mim vivo uns aninhos a mais. Em meio a tantos mundos conectados – conectados ou não – tenho que fazer o meu seguir em frente. E acredito que não deveria ser apenas eu.

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