À prova d’água

   Chato era errar o chute e ter que buscar a bola no terreno vizinho da Nena, desafiando os diversos vira-latas que com ela moravam e, antes de tudo, o muro espinhento que a separava do mundo. Mas azar mesmo acertar o arremate em algum cano ou registro residencial na rua Teixeira de Freitas da década de 1990. Além de azar, era incômodo na certa com pais ou responsáveis.
   Naqueles tempos, a gurizada ainda se criava na rua e o hobby principal do pessoalzinho de oito, dez, 12 anos era o inocente futebol – jogado longe de qualquer play station. Uma bola e duas pedras (ou chinelos, ou mochilas…) já se faziam mais que suficientes para, no mínimo, um três-dentro-três-fora.
   No número 421 da rua, havia – e ainda há – a grade na janela, que na imaginação de vários dos guris muito se parecia com uma goleira, mesmo que meio alta para os padrões de altura da época. Azar. Quebrava o galho e isso que importava. O cuidado era de não chutar muito para a direita, a fim de não ter que se aventurar no terreno da Nena, uma velha que ficou meio louca por motivos que os meninos não faziam ideia.
   Ter que buscar a bola lá, além de tudo, transformava-se em aventura volta e meia, quando um dos muitos cachorros que ela tinha inventava de correr atrás do espertinho. Outro perigo era se a Nena chegasse antes. Corria-se sério risco de ela furar a bola e, pelo menos por uns tempos, adeus futebol.
   Outra recomendação era o de se evitar, ao máximo, concluir por perto do cano de registro, já remendado pelos estouros anteriores. A água que vazava dele significava muito mais que desperdício – nessa época, aquecimento global e racionamento não estava na moda. Estourar o cano representava a certeza do xingamento da mãe, da tia ou do adulto que estivesse mais perto e, no mínimo, um castigo – com sorte, porque, sem, a surra tornava-se inevitável.
   Entretanto, nesses momentos difíceis é que se reconheciam os amigos verdadeiros. Como certa feita, em uma casa mais abaixo da rua. No calor de uma disputa de um gol-a-gol no meio da rua, um dos jogadores pegou na veia. Inspirada na futura Jabulani, a bola tomou um rumo pouco mais pro lado do que planejado e… boom! exatamente no registro.
   Naquele segundo eterno, a água mal começara a jorrar e os dois adversários se olharam com uma trágica cara frustrada. E agora? Incertezas e preocupações tomaram conta da cabeça de ambos. O que fazer? A resposta veio no instante seguinte, quando o irmão caçula de um deles surgiu do interior da casa, olhou a cena e parou, com os olhos arregalados. Não passaram dez segundos até que a mãe – autoridade máxima – visse aquilo.
   Antes de a mãe – começando a mostrar a irritação no rosto – pedir explicações, o jogador dono da casa colocou todas as culpas possíveis no irmão mais novo, que, por sua vez, negou. Mas não o suficiente para evitar as primeiras palmadas ainda em público. Ator, o anfitrião continuou seu teatro e entrou na casa, já solícito procurando o telefone do encanador. Sequer permitiu um olhar cúmplice do adversário, que presenciou tudo surpreendido e comovido com a prova de amizade que acabara de receber.

não chega a ser uma mensagem de Natal, mas, caro(a) leitor, desejo-te um ótimo fim de ano e, sempre nesse espírito de amizades verdadeiras.

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