Sobre questionamentos e narizes vermelhos

   Li essa notícia aqui (Promotor pede a prisão de Tiririca) e vieram-me à mente uma série de questionamentos em diversos níveis. Longe de passar a mão na cabeça do Tiririca e chamá-lo de coitado. Mas, a grosso modo, não estaria a sociedade brasileira – a mesma que elegeu uma presidente do “governo da banda larga” – querendo prender uma pessoa porque ela não sabe ler.
   Tiririca errou? Errou, na minha opinião. Quis brincar com coisa que tem que ser séria, que é a política e a governança de um país. Porém, junto a ele, mais de 1,3 milhão de pessoas também erraram. Sem trocadilhos e dando vivas à democracia, mas a eleição dele foi uma palhaçada.
   Desde então, se levantou a primeira questão: que recado será que estão passando esses eleitores que preferem votar no cantor do clássico “Florentina” a um candidato engravatado? É um protesto ou uma palhaçada mesmo? Ou então seria efeito do slogan “pior do que tá não fica”?
   Tiririca é eleito – e elege mais uns quatro, de barbada. Começam as acusações (?) de que ele seria analfabeto. Na defesa, alguns simpatizantes alegam que a imprensa está de perseguição. O que levanta outra questão: esse era para ser o papel dos jornalistas, não? De fiscalizar algo que pode estar errado, para que as entidades responsáveis façam a coisa certa. Enfim, até o presidente da República reclamou.
   Depois de ser submetido a um exame que pode ser considerado ridículo para alguém que, digamos, costuma tirar uma nota 7 na oitava série do Ensino Fundamental, ele prova (?) que é alfabetizado. Estaria livre, portanto, para ser chamado de “excelentíssimo” e render R$ 2,7 milhões anuais ao seu partido, o relevante Partido da República.
   Entretanto, não satisfeito – e dentro de suas funções –, o promotor junta provas e resmunga, dando origem à matéria que me levou a essa elucidação toda em plena madrugada. “Pedi a condenação na pena máxima tendo em vista a repercussão social do crime e a natureza da falsificação, que foi feita para produzir uma fraude eleitoral de rumorosa consequência jurídica e social.”
   Corretíssima, a atitude dele. Afinal não se brinca com coisa séria e ele está dentro de suas funções. Todavia, já vi outra questão aí: não estaria ele, que usou o termo “repercussão”, encantado com as dezenas de microfones à sua frente todos os dias? O poder que a mídia pode proporcionar é absurdo. Capaz até de fazer qualquer um se eleger a um cargo de deputado federal, que tem extrema relevância no país onde vivo.
   Mas algo que me espanta mesmo nessa celeuma toda é a última questão que veio à mente. Ninguém, até agora – pelo menos eu não vi – levantou uma voz de revolta pelo fato de uma pessoa de 45 anos ser (ou ter que provar que não é) analfabeta. Ninguém – pelo menos eu não vi – fez um levantamento de como são as escolas na cidade de nome engraçado Itapipoca, lá no Ceará, onde Tiririca nasceu.
   Confesso que estou impressionado. Tiririca, ou Francisco Everaldo Oliveira Silva, poderia ser mais um deputado qualquer, ser mais um Chico. Mas é um caso fantástico de questionamentos. Sobre ele, sobre egos e sobre uma sociedade inteira.

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