No fim, deu certo. Ou momento confessional n° 10

   Eu tinha 13 anos e meio. Mal havia secado as lágrimas pela morte da minha avó materna quando olhei para o lado: a paterna já estava com 79 e, por certo, não ficaria muito mais tempo na minha companhia.
   Lembro-me que a morte da vó Dorva foi um baque. Foda. A primeira vez que percebi a finitude das coisas – até das pessoas as quais a gente ama. Foi nesse momento, enfim, que comecei a dar valor à vida. A não querer desperdiçá-la.
   Eu tinha ainda a minha outra vó. E ela já estava velhinha. “Ela vai partir mais cedo ou mais tarde, te prepara”, ouvi, diversas vezes. Recusei e revoltei-me com esse conselho, que achei pra lá de grosseiro. Não passaria o resto do tempo resignado esperando o funeral dela, afinal.
   Bem ao contrário, enchi-a de mimos. Passeamos no shopping, almoçamos fora, viajamos à praia, conversamos, nos curtimos. Nunca sai de Porto Alegre sem vê-la antes. Sem dar um beijo de despedida, ao menos.
   Os anos foram passando e as doenças começaram. Chegaram e comprometeram a saúde dela. Obrigaram-na a diversas internações hospitalares, horas intermináveis de sessões quimioterápicas. Nesse período, foram vários os “adeus” que dei. “Te prepara…”
   A luta dela, até pelo medo que tinha, contra a morte foi impressionante. Comovente. Assim como seus últimos dias, quando já cansada, tentava mais uma recuperação sobre outra maca de hospital. Foi triste vê-la daquele jeito.
   Era o fim, todos sabíamos, mesmo que um tanto relutantes em aceitar. Ainda que ela tenha apresentado uma relativa recuperação (forte como sempre), sua voz e seus movimentos foram rareando na derradeira semana. Fraquinha, tinha conseguido enfim nos preparar para sua ida.
   É claro que houve choro, dor e momentos difíceis – amenizados pela ajuda de grandes amigos – na hora em que ela desencarnou. Mas, em compensação, nada de arrependimento. Ao menos para mim. Porque a última frase que eu disse para a minha vó, ainda que ela nem tenha conseguido responder sonoramente foi: “Tchau, vó. Eu te amo”.
   E enquanto publico essas linhas, passados nove dias do óbito dela, reflito: não consigo acreditar que ela se foi. Eu a deixei tão viva em memórias, fotos e afetos que a ficha ainda não caiu – e desconfio que nem cairá.
   Concluo então: eu estava preparado. Acreditei ter rechaçado um conselho de 11 anos antes, mas que ajudou a deixar esse momento menos dolorido, porque, no fim, deu certo. Tudo valeu a pena.

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4 pensamentos sobre “No fim, deu certo. Ou momento confessional n° 10

  1. Chorei de novo
    Eu não consigo acreditar que o mundo segue sem ela.
    Imagina o que o Vô tem passado.
    Acho que ele ta começãndo a superar. Desde o Natal que ele não perguntou mais por ela como se ela estivesse viva
    Te amo

  2. Pingback: Só as carecas especiais ganham beijos « Telha do Tiago

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