Há de se ter coragem, o vencedor

   “Puta merda”, pensou. E lá vinha aquele troglodita de novo. Com a dezesseis nas costas, dominou a bola na intermediária da quadra, girou sobre o zagueiro e dera o primeiro passo antes de calibrar aquele pé número quarenta e três que, há não mais de cinco minutos, havia chutado a bola violentamente contra a coxa. Dói ser goleiro.
   Ficara com uma raiva tão grande daquele lance que chegava a ponto de quase lhe corromper. Era uma pelada de final de semana, nada mais do que isso. Mas aquele atacante de merda jogava como uma final, não desistia de lance algum e ainda tinha um chute potente. Deixar vazar um gol não seria tarefa difícil, afinal. Filho da puta, conspurcador de goleiros.
   Nisso, o brutamonte já avançara mais um passo. Mais dois e posicionaria a perna direita. No terceiro, a violenta canhota encostaria, enfim, na redonda. Entre ele e o gol, agora, só havia o arqueiro, que já desconfiava das boas intenções do zagueiro. Por medo, o camisa três pode ter feito corpo mole e ficado para trás, ileso.
   Os centésimos até o disparo do torpedo eram escassos. O monstro já levantara a cabeça e, naquele momento, deveria estar calculando seu alvo. O goleiro estava entre ele e o objetivo. Só e desprotegido. Não seria má ideia atrasar-se de propósito, como recém fizera o zagueiro. Assim, ao menos, pouparia outra parte de seu corpo da dor.
   Tendia, então, a escolher o lado mais fácil – e obscuro para os bons camisas um: entregaria. Vender-se-ia para, a salvo, buscar a bola por entre as redes. Porém, houve uma morena em sua mente. A mesma que o desafiara dias atrás.
   Era qualquer encontro social e ela o olhara. Conquistou, virou o rosto e escondeu-se. Misturou-se dentre um fino grupo desinteressante. “Vem”, provocou com a mirada, igualmente castanha escura.
   Intruso e afastado, o arqueiro deu o primeiro passo e titubeou, como os da sua posição são proibidos de fazer. Hão de serem decididos, os vencedores. Há de se ter coragem para triunfar.
   Por entre a barreira, achou aquele perfeito rosto de novo. Com sorte, sua velha companheira, teve uma segunda chance. Mais que um troféu, um título, uma meta. Nova derrota não seria aceitável. Encarou e trespassou todo o obstáculo que surgiu. Chegou e ganhou.
   O ogro, então, na parte final de seu movimento, engatilhara a esquerda. Micro-centésimos separavam aquela bola do gol. Ou de uma desprevenida e azarada parte de seu corpo – “que não vá no saco”, orava, como sempre antes de uma bomba. A decisão tinha que sair naquele instante.
   Troglodita, bola, morena, gol, pelada, dor, derrota, vitória e mais uma gama de pensamentos misturaram-se numa sinapse quase tão veloz quanto a aceleração que a pelota acabara de receber. Tudo isso para chegar a uma conclusão tão clara e óbvia. Camisa um de verdade não entrega e sim salva quando todo mundo já errou.
   No reflexo e convicto, saltou à esquerda. A trajetória era a mesma que feriu sua coxa no instante anterior. Só que a vítima agora seria a mão, àquela altura da partida acostumada à dor. Como previsto, a bola não parou, explodiu, ecoando para o ginásio ouvir. Ardência e vermelhidão mesclaram-se à mão.
   Não houve rebote, o desvio terminou em escanteio. Mal parou de rolar no chão e percebeu que seus companheiros voltaram a correr em sua direção – como deveriam ter feito dez segundos antes. Alguns batendo palmas, outros vibrando, a parabenizá-lo.
   Contudo não foi isso que lhe deixou feliz. A glória não vem do elogio, mas da decepção. Ver o rosto do monstrengo – frustrado e derrotado – deixou-lhe satisfeito. Mesmo sabendo que a guerra só acaba quando termina o jogo e que dali a pouco haveria um novo embate. Azar, o sabor de uma vitória particular ninguém tira. Seja lá o campo que for.

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2 pensamentos sobre “Há de se ter coragem, o vencedor

  1. E depois vem os hematomas, torções, dores e incapacitações por dias a fio… É, o futebol é óootimo. A emoção do gol salva a humanidade….
    Nada contra.

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