Partida sem chegada

   Encontraram-se. Era um qualquer terminal aeroportuário recheado de cheiro de despedidas. Extasiados, sentaram-se. Os minutos, nas viagens, costumam ser longos. Ficaram frente a frente, no mais puro e descuidado acaso que as poltronas livres ofereciam naquele exato momento.
   Miraram-se. Horas e horas de viagem requeriam, afinal, um colírio para quaisquer olhares. Entre folheadas de um jornal local, o olho verde dela teimava em reconhecer o castanho dele. Gostaram. A esmo, o destino poderia ser o mesmo.
   Desistindo da manchete desinteressante da cidade qualquer, o homem já elaborava a aproximação; tentando não se iludir, a mulher preferia a espreita. Incentivava a ambição, mas não a alimentava. Deixava, simplesmente, estar.
   A voz robótica de todo aeroporto, então, soou. Chamou o voo. Os dois levantaram-se como distraídos que precisavam ter atenção. Deu tempo de ouvir o inglês: flight one-nine-eight-three, now boarding.
   Conferiram seus bilhetes. Olharam-se. Ele, então, sentou-se: despediram-se com um sorriso amarelo. Ela virou-se e pensou adeus. Ele vendo-a distanciar-se falou pra si: Até nunca mais.

Anúncios

6 pensamentos sobre “Partida sem chegada

  1. Adoro contos desse estilo, pequenos, com finais surpreendentes justamente por não surpreenderem, justamente por condizerem com a realidade. Tá ficando expert nisso heim, Tiaguito! Beijoooo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s