Do dilema

   Confundira-se. E não haveria outra forma disso acontecer. Estava diante de uma sinuca de bico cuja escolha teria de fazer em breve. E a dúvida, a cada dia, crescia e lhe incomodava mais.
   De um lado, o futuro, do outro, o presente. Quem analisa de fora pode até achar fácil de optar. Porém, só ele – além de um ou dois amigos próximos – sabia das dificuldades e das consequências que a escolha acarretaria.
   Eram duas bênçãos em sua vida, disso não tinha a menor sombra de dúvida. Entretanto, alguma absurda e infeliz coincidência matemática/cósmica fez com que elas surgissem na mesma época em sua, até então, pacata vida.
   Uma, a do futuro, atendia a todos os requisitos que um dia desejara encontrar naquela para chamar de esposa. Linda, inteligente, educada e refinada. Além daquelas covinhas próximas aos dentes brancos – igualmente belos. Ela lhe conquistava com cada sorriso.
   Já a outra, a do presente, era uma tentação em pessoa. Ou, simplesmente, tudo o que um solteiro quer. Gostosa, fogosa, parceira, fogosa, boa de papo e fogosa. De quebra, ainda gostava de futebol e torcia pelo mesmo time. Ela lhe tinha em cada olhar mais profundo.
   Noites atrás, quando veio me contar sua história, chegou a se comover quando falou da primeira e a quase excitar-se ao descrever os detalhes da segunda. Cervejas depois, ainda amaldiçoou a monogamia e propôs um, ou melhor, dois brindes em homenagem ao amor.
   Ele gostava e desejava muito as duas, mas sabia que teria de fazer uma escolha logo, porque poderia aparecer alguém mais decidido no pedaço. Ou pior, antes delas se conhecerem. O tempo era curto, sabia.
   Sonhava em passear de mãos dadas com a do futuro, entretanto queria tentar três vezes a posição número 47 do Kama Sutra com a do presente. Na saideira daquela vez, ainda lembro que senti pena, pois vi estava diante de um homem perdido.
   A última notícia que tive dele foi que tentaria a vida dupla. Procurando apartamento com a senhora durante o dia e aventurando-se com a, pelo jeito, promovida a amante à noite. Confidenciou a um dos amigos próximos que foi a melhor decisão que encontrou. Definitivamente confundira-se, coitado.

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7 pensamentos sobre “Do dilema

  1. Bem, não será o primeiro a tentar fazer por aqui o que já se faz nas terras da África e ilhas do Pacífico. Sem falar no sertão brasileiro.
    Mas experimente trocar os papéis e verás.
    Como alguém pode creditar que apenas uma e só uma pessoa tem tudo o que idealizou? O ideal é sempre uma quimera. Tem que se contentar com o que consegue e seguir procurando. Se não fosse assim, os cronistas, poetas e psiquiatras morreriam de fome, né não?
    Abraços nublados.

  2. A fogosa é passageiro, dura até ela achar outro que possa substitui-lo. E dará um lindo pé na bunda dele.
    A outra além de linda quer uma coisa séria, um futuro ao lado dele, e quem sabe possa até satisfacer todos seus fetiches com o tempo e intimidade e podem criar.
    Sobre a vida dupla… acho absurdo!
    Cedo ou tarde a menina vai ficar sabendo e sofrerá. Acho q não vale a pena. Canalha.
    beijos.

  3. Mas acho que esse trade-off é cada vez menos evidente, parece uma concepção antiga. A mulher que é pra casar pode ser fogosa e vice-versa. Acho que o teu amigo tinha que procurar a que conjuga as duas qualidades, tá cheio por aí. hehe.

  4. A matemática mais difícil está em somar essas duas mulheres e não dividir o resultado com ninguém! Beijos!

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