Das boas lembranças

   E foi de repente. Há pouco, esperando o sono chegar, quando comecei a ver fotos que há tempos não via, ouvir músicas que desde muito não escutava. Sorrateiramente, então, ela chegou. Quieta, de mansinho. Pegou-me desprevenido, a saudade. Saudade boa.
   Saudade de não sei bem o quê. Saudade simples, de tudo. Nostalgia. Dessas que vêm em forma de retrospectiva. Desde lembranças da época de gurizinho, de quando não tinha a palavra ‘problema’ em meu vocabulário até agora, madrugada fria em frente ao computador.
   Começou com a visão da minha sala de aula rodeada de prateleiras com brinquedos, quando o jardim era da infância. Até a minha primeira namorada reapareceu. Francine – apesar de sequer tê-la beijado, lembro do dia em que começamos relacionamento sério. Acho que nossas idades, somadas, não somavam uma dúzia.
   Claro, mais tarde vieram muitas outras paixões inesquecíveis. Futebol, sorvete, a vizinha do andar de cima, ouro branco, praia, verão – e como era bom quando as férias duravam três longos meses. Tantas e muitas até uma em especial se sobressair para mudar a vida do adolescente de 17 anos: jornalismo.
   Embora nunca tenha tido a pretensão de apresentar o Jornal Nacional, eu sempre achei que ver o próprio nome ali, acima de um texto impresso em um papel que um monte de gente vai ler, devia ser bem legal. E de fato é – seja a assinatura com tinta ou com pixels!
   Flertei com a profissão desde os 14 e, com 18, fiz o primeiro vestibular. Por sorte, rodei – ainda bem, pois o destino reservou uma das turmas mais inesquecíveis da Famecos (isso na opinião do corpo docente). Aos amigos que não fiz na UFRGS e na UFSC, meu sinto muito.
   O fato é que foram quatro deliciosos anos até a melhor lembrança boa que tenho: o 9 de janeiro de 2009. Nessa data recebi, orgulhoso, o meu diploma – aliás, quantas saudades do tempo em que ele valia alguma coisa para a sociedade.
   Recém formado, distribuí currículos redações afora. Brasil afora. E nessas voltas da vida, fui chamado logo em um dos lugares onde menos acreditei. O qual na verdade nunca imaginei que trabalharia: Jornal do Comércio. Proposta de site novo e tal. Bem a área pra fazer os olhos do foca de então brilharem. E realmente eles brilharam.
   Entretanto, em mais uma dessas voltas da vida, meu endereço comercial mudou no apagar das luzes de setembro. Da avenida João Pessoa para a esquina da Caldas Júnior com Andradas. Dejà vu: proposta de site novo e tal – dessas, capazes de fazer os olhos do jornalista aqui brilharem.
   E foi então que vi como ser profissional é chato às vezes. Ter de correr atrás dos próprios sonhos abdicando de amizades cotidianas estabelecidas e de um ambiente de trabalho ótimo. Começar tudo de novo. Quem mandou acreditar que a vida é movida a desafios?
   Ao menos, tive uma certeza: daqui a pouco tempo – certamente menos do que os sete meses em que estive ali – quando ouvir uma música antiga ou vir fotos que há muito não via, terei uma nova saudade. Uma gostosa nostalgia dos colegas do meu primeiro emprego.

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4 pensamentos sobre “Das boas lembranças

  1. Nossa, já estou sentindo saudade desse meu primeiro emprego, quero demorar um tempinho lá.
    Às vezes dói comparar o presente com esse passado das boas lembranças.
    Eu nunca vi um tatu-bola, mesmo depois que escrevi o texto, ninguém ainda teve a boa atitude de mostrar um bichinho desses pra mim.

  2. a paixão pelo que fazemos nos move e nos paraliza. ser jornalista é alimentar-se do cotidiano sem rotina. sorte! sempre 😉

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