No escuro

(ou ‘a inspiração que veio quando a luz se foi’)

   “Viu como é bom quando falta luz?” – nunca me esqueci dessa indagação. Foi feita pelo meu pai, anos, anos, anos e anos atrás. Mais de 15, por certo. Ele falou isso em uma noite escura, deitado na minha cama, abraçando carinhosamente forte. E conseguiu me convencer.
   Depois daquela noite, passei a gostar quando a energia elétrica sumia lá de casa à noite. Só por uma certeza que tinha: a de que não estaria sozinho em meio às trevas.
   Naquela época, eu já era emancipado da minha irmã e possuía meu próprio quarto. Alguns metros quadrados de independência. Mas era só faltar luz que não tardava e ele chegava, meu pai.
Provavelmente encontrava uma criança perdida e com medo das sombras. Porém sua confiança acalmava. Não há monstros no escuro, ensinou-me.
   Abria a porta do meu mundo e encorajava, tirando-me da paralisia do susto repentino. Então, me colocava na cama. Deitava junto e ficava junto. Até, no mínimo, a luz voltar. Fazia aquela pergunta lá do início do texto e respondia o porquê: “Assim o pai pode ficar aqui, do teu lado” – enquanto a mãe zelosa espantava as trevas da irmã.
   Aquele abraço era tão seguro que torcia pra luz não voltar tão cedo. Desde então, e até hoje eu olho para a porta quando a eletricidade estaca. Na tola esperança de uma nostalgia criar vida.

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7 pensamentos sobre “No escuro

  1. Ai filhote!!!! dá até vontade de chorar de emoção e orgulho de ter um filho tão MARAVILHOSO… saudade daquele tempo… Amo-te muito!!

  2. A vida passa rápido e há momentos importantes, o tempo todo.
    Temos que cuidar, para não deixá-los passar sem que sejam percebidos, sentidos, apreendidos pelo nosso espírito.
    Esse texto revela a grande sensibilidade que tu já tinhas naquele tempo.
    E que, acabou resultando nessa pessoa tão especial que tu és hoje.
    Parabéns, emocionado.
    Te amo demais da conta, sô.

  3. No meu quarto tinha um galo em cima do armário. Quer dizer, eu via quando estava escuro. Não era bem um monstro sabe… Mas era um galo… Por que um galo ficava lá, eu não sei. Mas ficava. Gostei do teu texto.

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