Máscara

   Ela não é durona, mas nem todos percebem. Ela não é nem má – e aquele rosto fechado é apenas uma máscara, não mais que um forçado disfarce que ela usa. O problema é que já usou tanto que agora não recorda onde se encontra seu eu verdadeiro. E todos a olham receosos, com medo.
   E ficará assim, até alguém achá-la de verdade.
   Na verdade, ela é carente. Não parece, mas é – e se é! Por trás daquele rosto de poucos amigos vive uma menina sorridente, todavia encabulada. A dureza dela é timidez mal resolvida. Ela quer atacar, ser ofensiva, ir à frente, porém morre de medo de sofrer gol. Por isso seu humor parece o de um zagueiro barbudo e feroz.
   Ela é mulher. E quer muito ser mulher. No entanto, em alguma aventura do passado, foram frouxos com ela. E ela teve que tomar as rédeas da situação. Precisou ser homem, porque o acompanhante não soube ser. Ela é sensível, contudo acabou por se transfigurar em uma pessoa que finge ser bem resolvida, sem ser. Em um homem.
   Não! Nenhuma mulher aguenta ser o homem por muito tempo. É baixeza demais.
   Ela não é durona e está louca para se livrar desse chavão, desse fardo pesado de ser confundida com quem ela não é. Está cansada de dizer não, entretanto entre tantos não surgiu ninguém que lhe fizesse dizer sim. Ninguém disse a palavra certa. Ninguém agiu certo, nem lhe deu um ombro. Ninguém a descobriu mulher para que ela reparasse na beleza das flores. Para que pudesse ser quem ela é!
   Precisam decifrá-la: ela é uma princesa que está presa. E dará o paraíso ao primeiro príncipe que (souber) chegar no alto da torre.

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11 pensamentos sobre “Máscara

  1. Muito bom, belíssimo. Para quem sabe, reproduziste em poucas linhas uma personalidade. E com certeza existe alguém por aí, capaz de chegar no alto da torre. Deve estar procurando no reino errado.

  2. Tô curiosa pra saber em que tu te inspirou pra escrever esse texto. Acredito que não é pra mim, mas que tem frases nele que, mesmo que não exatamente iguais, tu já me disse…ah tem.

    Tipo de texto que eu aprecio muito, por sinal!

    E, a propósito, leu meus contos secretos???

    Outra coisa, tem algum violão velho pra me emprestar? Tô precisando de um pras aulas de violão que eu tô fazendo…se eu aprender uma música eu compro o violão!

    saudades

  3. adorei!
    já cansei de dizer, mas repito: tu escreve muuuuito bem!

    me sinto privilegiada por ter te conhecidoum muleque e hoje te ver um homem de sucesso e muito competente!

    me orgulho por ser tua amiga!

    bjs

  4. De psicólogo e de louco todos tem um teco, mas aqui falou o homem. Jovem com essa sabedoria é coisa rara.

    Muitas poderão reconhecer um pedacinho de si(como eu também o fiz). Quem sabe até ficarão esperando pelo cavalo branco com um príncipe.

    Observador sensível, sabe discorrer sobre esse assunto sem cair no prato fácil dos chavões.

    Mesmo discordando de que a mulher se torna “homem” por ter que se mostrar forte ou que é baixeza colocar-se nessa posição, deixou um dez com estrelinha.
    Abração da Tia Clara.

  5. Caramba Tiago! Sensacional! Eu me identifiquei com isso aí!
    Muito bom mesmo! Parabéns menino!

  6. Que belíssimo texto!
    Retratou, poeticamente,
    o disfarce de muitas mulheres
    que conheço!

    “O problema é que já usou tanto’
    – a máscara –
    ‘que agora não recorda
    onde se encontra seu eu verdadeiro.”

    É exatamente o que acontece…
    Um abraço,
    doce de lira

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