Sobre jornalismo

   Eu sou jornalista. E tenho muito orgulho em dizer. Estudei, e ralei, por quatro longos – e caros – anos para encher o peito e contar isso, de boca cheia: eu sou j-o-r-n-a-l-i-s-t-a. Porém, logo agora, depois de todo o esforço empregado, vem um juiz decidir, em última instância, que não precisava tudo isso. Era só ter esperado um pouco mais para poder tirar um registro profissional idêntico ao que tenho. Sem dor, sofrimento, trabalhos, provas e conhecimento algum.
   Por favor, vossas excelências, peço-lhes respeito.
   Primeiramente, aos mais desesperados – esses que ficaram com vontade de rasgar seus diplomas, abandonar o curso etc –, vos digo: nada foi em vão. Hoje, se quisesse me tornar um jornalista, entraria num curso de jornalismo. Dane-se a decisão do STF. Pois, para ser jornalista – assim: j-o-r-n-a-l-i-s-t-a – não basta escrever bem, muito menos conseguir decorar textos grandes. Precisa muito mais.
   Quem acredita que um curso técnico resolveria, nunca exercerá essa tão importante profissão de maneira digna e correta. Reafirmo: tudo o que aprendi em quatro anos de faculdade não foi em vão. Nada foi em vão. Meros ensinamentos sobre como redigir textos e boletins, como melhorar a luz e a programação não substituem o conhecimento de bastidores, de comunicação e de vida, ensinados ao longo de oito semestres.
   Há muita coisa inútil, é verdade. Mas em quase toda faculdade há. Muitas vezes aprendi conceitos fora das salas de aula. Contudo, o que tem de útil, é o necessário molde do bom profissional e impossível de se aprender sem a devida convivência. A questão não é escrever e falar bem, não tremer na frente da câmera ou do microfone. A questão é teórica: o que perguntar, ter o feeling de achar a informação, a malícia e malandragem que toda boa matéria exige do repórter. E isso, perdão a quem acreditava, não-jornalistas não têm.
   Porque o jornalismo de verdade não se aprende em curso técnico.

  • O melhor

   É óbvio: tenho muitos colegas, formados e diplomados como eu, que fariam uma matéria pior do que um outro, não-jornalista. Todas as regras têm suas exceções. No entanto, lembro também, posso ser capaz de realizar um bom trabalho em outra área completamente diferente da minha. Porém, isso não me torna bacharel/licenciado nessa segunda opção, pois exceções não desfazem regras.
   A princípio, deveria se confiar mais em quem estudou mais para tal função.
   Por isso, na minha opinião, a decisão da não-obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo é um retrocesso da sociedade sim. Da mesma forma seria tirar a exigência da Faculdade de Direito para advogar. Por melhor que seja a astúcia de alguém, ela não irá substituir o conhecimento de um profissional na hora de um julgamento. Da mesma forma, trocar os cuidados médicos por dicas de curandeiros ou remédios indicados pelo vizinho é algo desaconselhável.
   Se for pra ser defendido, quero um advogado. Se for pra ser curado, quero um médico. Se for ler uma matéria, quero um jornalista. Quero o melhor. Simples assim.

  • Liberdade de expressão

   Não se amplia a liberdade de expressão desvalorizando um diploma universitário. O trabalho jornalístico consiste em apurar informações e não emitir opiniões. Comentários são feitos por pessoas especializadas nessas áreas – que não necessariamente precisam ser jornalistas, logo, realmente, não necessitam de certificado de bacharel.

  • Mercado

   Assusta-me bastante o fato de ver a discussão em torno da anulação da exigência do diploma ficar mais na reserva de mercado para jornalistas. Ora, colegas, temos qualificação e bagagem de estudo. Realmente não acredito que seremos preteridos por jornalistas sem faculdade. Não quero ser demagogo, todavia a qualidade da prática do jornalismo está em xeque a partir da decisão do STF.
   Preocupante apenas – mas não menos importante – é o futuro da nossa remuneração, que já nem é alta. O piso de um jornalista em Porto Alegre não chega a R$ 1.400, enquanto um curso superior na área custa mais de R$ 1.000 mensais e as vagas na Universidade Federal são raras. É uma piada triste, entretanto verdadeira: fazer jornalismo dá prejuízo.

  • Considerações

   Só para terminar, gostaria de deixar registrado também que jornalistas não são os donos da verdade – como alguns se propõem a ser – mas é um emprego o qual necessita sim de uma preparação maior.
   O jornalismo, apesar de essencial à sociedade (consegues te imaginar num país onde não circulam quaisquer notícias?), é uma profissão não bem tratada no Brasil. Prova-se até por quem pediu a anulação da exigência do diploma: o Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão de São Paulo. Teoricamente, eles deveriam ser um dos primeiros a querer qualidade para exibir em seus programas, não?
   Outro viés que impede uma criação de um órgão máximo da categoria é o fato de muitos congressistas serem donos de concessões de emissoras de rádio e televisão. O que os torna, muitas vezes, caciques políticos em suas aldeias. E, acredito, eles não devem estar muito interessados na liberdade de expressão nos seus locais. E vale o registro: nove famíliam detêm o controle do monopólio da comunicação no Brasil. Coisas da vida.
   Enfim, caro(a) leitor, peço desculpas por esse texto quase sem revisão, cheio de palavras repetidas e sem estrutura alguma. É mais um desabafo do que um artigo. Ficou grande, eu sei, mas peço só mais uma gentileza. Leia esse texto, do Luis Fernando Veríssimo. Caso prefira, leia o dele e não o meu. Acho que ilustra bem a necessidade de conhecimento para ser um jornalista.

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9 pensamentos sobre “Sobre jornalismo

  1. Pingback: Parabéns brasileiros, somos todos jornalistas! « Autofoco

  2. Concordo, concordo, concordo. Destaco ainda que a decisão trata-se de um golpe político.

    Os políticos deram a rasteira nos jornalistas que apuram as suas denúncias de corrupção. Eles conseguiram.

    Beijo!

  3. Pois é. Junho, amargo junho, heim. Antes de mais nada, esse acontecimento é mais uma vitória do capital, baseada no “papo furado” sobre os riscos que a liberdade de expressão sofria com a obrigatoriedade da formação específica. Foi um discurso pseudo-apaixonado e paternalista, adoçado por jornalistas sintonizados com os “sempre copiados” países do Primeiro Mundo que não exigem diploma, que gerou a sentença: de que para ser jornalista basta apenas ter jeito para a coisa, saber escrever, “ter olho clínico”. Foi através desse mundaréu de argumentos fracos e com um não-conhecimento da realidade do ofício, que se votou contra o diploma no Supremo.

  4. Cara, estou indignado com esta situação. Mas é como você bem disse. Não importa que caia a obrigatoriedade do diploma, eu também, se tivesse que entrar num curso de jornalismo hoje, entraria. Pois me orgulho de ser jornalista diplomada, preparado para isso. Não gostaria de ser falso jornalista, sem preparo para exercer minha profissão. Você matou a charada. São questões políticas e econômicas que resultaram nessa decisão absurda do STF. Abraços!

  5. Concordo plenamente.
    Um absurdo essa decisão.
    Como bem foi dito, jornalista não é somente saber escrever. Deve sim ter um preparo, para as pessoas que vão passar as informações pro mundo.
    Acho uma palhaçada, vai virar uma bagunça.

    É lamentável.

  6. Concordo plenamente.
    Um absurdo essa decisão.
    Como bem foi dito, jornalista não é somente saber escrever. Deve sim ter um preparo para as pessoas que vão passar as informações pro mundo.
    Acho uma palhaçada, vai virar uma bagunça.

    É lamentável.

  7. Concordo com tudo! que lindo ler isso! e o sábio Fabiano ali em cima disse muita coisa importante.
    parabéns, Tiago. tu, como sempre, escreves textos maravilhosos, baita jornalista!

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