Mesa de bar

   “Têm mulheres e mulheres. Explico. Existem mulheres que a gente quer tá junto. Quer conversar, beijar, namorar, fazer carinho. Ter intimidade, em outras palavras. Outras não. Com essas outras, é só imagem, coisa corporal. Aquela gostosa da mesa ao lado ali, tá vendo? Desse tipo. Com uma gostosa dessas, eu não quero caso, eu quero status. Vai dizer que tu não respeitas o cara que pega aquela mina ali? Eu respeito. Aliás, olhando bem essa cinturinha, te digo que até sou fã dele. Meu ídolo, esse magrão.
   Teve uma história que aconteceu comigo uma vez. Faz tempo, lá no condomínio que eu morava, quando tinha uns 16, 17 anos. O nome dela era Ana. E ela era indiscutivelmente a mais gostosa dos prédios. De repente, a mais gostosa da rua, do bairro. Obviamente, todos os guris caíam de quatro por ela. Homem que é homem não deve demonstrar isso. Mas os guris, ingênuos, se derretiam todo pela Ana.
   Todos, todos. Menos eu.
   Eles faziam isso, de certo, porque tinham medo dela. Mulher, quando é muito linda, muito gostosa, se torna uma espécie de semideusa para os homens – que ficam com medo delas. E isso acaba sendo ruim até pra elas. Eu me lembro que, apesar de fazer todas as vontades da Aninha, nenhum dos guris tinha a coragem de chegar nela. Falavam que nunca iriam ter chance com um mulherão daqueles. O que acontecia no fim? Todos ficavam chupando o dedo: eles e ela.
   Mas eu me liguei nisso. Percebi essa moral da história bem antes que todo o mundo. Ao contrário de fazer todas vontades, de puxar o saco da Ana, esnobei-a. Fato: mulher gosta de ser esnobada, algumas até de serem maltratadas. Vai entender? São assim as regras do jogo. Aí, passou um tempinho, ela começou a dar bola pro papai aqui. Sério. Pra que eu vou mentir agora? Sério: a Ana, aquela gostosona, se jogava pra mim.
   Mas eu tinha meus casinhos por fora, pegar ela naquele momento, estragaria o romance que eu e a Mari estávamos começando. E com a Mari eu queria romance. Logo depois, também, descobri que a Ana não era santa nada. Bem impura, aliás, não tinha nada de semideusa. E é aí que entra aquele negócio do status que eu falei antes. Depois que conheci melhor a ela, bem capaz que namoraria com ela. Mas tiraria umas casquinhas com prazer. E fi-lo.
   Tinha os guris da outra rua. Eu odiava eles. Eles, como todo mundo por ali, eram hipnotizados pela Ana. Pra aumentar seu ibope, volta e meia ela ia falar com aqueles abobados. Quando eu via isso, eu só chamava ‘Ana’ e, com a mão, mandava ela vir. Safada, ela vinha. Chegava e me beijava um beijo no cantinho na boca. Aquele ‘quase’ que elas fazem pra provocar o cara. Então, entrelaçava meus dedos aos dela e saía, olhando pra cima e com o peito estufado. Eu sentia a raiva daqueles guris. E também os rios de inveja deles.
   Bah, fiz isso várias vezes. Assim, de arreganho. Só pra ganhar moral. Com a Ana – que me via como único homem no meio daquele bando de guri – e com as outras. Impressionante. Já reparou como a gente sempre fica mais bonito quando tá acompanhado, namorando ou alguma coisa assim. Certo que as outras pensam que nós devemos estar mais sérios, que temos algo a mais. Balela. Tudo louca, essas minas.”
– Tá, mas… essa Ana, era gostosa mesmo?
– Ô! Uma das mulheres mais perfeitas que já conheci.
– E, com todo esse arreganho, comeu ela no fim?
– Não.
– Putz! Mas pegou, pelo menos?
– Também não… era só arreganho.
– Ah, então vai te catar antes que eu me esqueça! Garçom, baixa mais uma!

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3 pensamentos sobre “Mesa de bar

  1. Perfeito. O primeiro parágrafo é matador! “Meu ídolo, esse magrão”. Bem arrogantezinho hahaha, mas o final remete àquilo que sempre fazemos. Mais uma para contarmos outra história de desejos incompletos.

  2. Essa tua psicologia é de matar. Morri de rir de algumas assertivas sobre nós mulheres. E sobre vocês também.

    Agora eu entendo porque fiquei muitas vezes sozinha. hahaha! Eles com medo e eu também. Ficava só na imagem, no sonho. E pra não destruir o ídolo era melhor nem saber muito dele. Pra não se decepcionar.
    Se ela vier fácil é porque vai fácil pra todo mundo, não é assim?
    E será sempre a gostosa ou o gostoso, mesmo sem saber o gosto que tem.

    Isso daria um filme em branco e preto, estilo anos dourados.

    Teus textos estão melhorando cada vez mais. Gosto muito quando você conta sem construir muito. Estilo mesa de bar como esse.
    Abraço.

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