Hora do Conto 1 – no mundo de Tom

tom-livro   Que tal uma história deliciosa transcorrida principalmente na ponte aérea Rio-Nova York? Além disso, a trilha sonora fica a cargo do ser que pode ser considerado um marco na Música Popular Brasileira. Pois “Antônio Carlos Jobim uma biografia”, do jornalista Sérgio Cabral é esse texto. Por certo que tu, caro(a) leitor, concluíste como eu: ‘tem como não ser ótima?’. E, realmente, não tem.
   Sérgio Cabral, amigo pessoal do músico, fez um ótimo trabalho na pesquisa do compositor. Desde pequeno, apresenta um Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim atleta, que atravessava a Baía de Guanabara a nado e, já então, com fervorosa paixão pela natureza e ecologia. Tom, filho de Nilza e Jorge Jobim, nasceu em 1927, na Tijuca, Rio de Janeiro. Ao lado da irmã, Helena, foi criado pela mãe e pelo padrasto, Celso Frota Pessoa, na cidade maravilhosa – ainda mais naquela época de pouca poluição.
   Curiosamente, a música não foi sua primeira paixão, sendo preterida por esportes, praticados nas lindas praias cariocas. O destino, entretanto, não deixaria acontecer um hecatombe desses, de Tom ser esportista ao invés de músico. Quem sofreu com isso foi a costela dele. Devido a uma queda, e uma fratura nela, o futuro autor de Garota de Ipanema foi obrigado a abandonar seu lado desportivo para se dedicar a outra atividade. Para a felicidade geral da nação, ele escolheu aulas de piano.

  • Vinicius

   Começou a chamar atenção nos bares da noite, onde se apresentava costumeiramente para se sustentar. Mesmo com “o polegar mais preso”, Tom já se diferenciava dos outros pianistas. Por isso, o indicaram para o poeta Vinicius de Moraes, em meados de 1950. O poeta estava atrás de alguém que criasse a trilha sonora de sua peça teatral Orfeu da Conceição.
   Tom adorou o projeto. Contudo, mesmo estando diante do grande Vinicius de Moraes, não deixou de perguntar: “Tem um dinheirinho nisso?”, envergonhando Lúcio Rangel, responsável pelo contato entre os dois. Aos risos, mais tarde, sempre lembrava que na época estava correndo atrás do aluguel. O mais importante é que a negociação foi fechada e, a partir daí, uma das maiores duplas da música brasileira – e por que não mundial? – passou a trabalhar junta.
   Pouco depois, veio a bossa nova. E uma das partes mais curiosas do livro, transcrita a seguir:

   “Logo depois da apresentação da peça Orfeu da Conceição, Antônio Carlos Jobim foi para o sítio de Poço Fundo em São José do Rio Preto, então distrito de Petrópolis. Descansando e respirando o ar puro da montanha, compôs no violão o que pretendia ser um choro de duas partes. Retornando ao Rio, tratou de telefonar ao parceiro Vinicius de Moraes para convidá-lo a ir à sua casa, onde mostraria a música que acabara de compor. Mas Vinicius estava de cama, com febre muito alta em decorrência de uma angina na garganta. Mal podia falar. Coube, assim, a Tom a missão de visitar o parceiro em sua casa, na Rua Henrique Dumond, nº 15, em Ipanema. Chegando lá, o visitante sentou-se numa cadeira ao lado da cama, contou as novidades até que, sem paciência para muita conversa, pegou o violão e tocou a música que compusera no sítio.
– Você gosta? – perguntou.
– Toca de novo – respondeu o poeta que, 10 anos depois, escreveria uma crônica na Última Hora narrando o encontro:
   ‘Tom repetiu umas 10 vezes. Era uma graça total, com um tecido melancólico e plangente, e bastante ‘chorinho lento’ em seu espírito. Fiquei de saída com a melodia no ouvido e vivia a cantarolá-la dentro de casa, à espera de uma deixa para a poesia. Aquilo, sim, me parecia uma música realmente nova, original, inteiramente diversa de tudo que viera antes dela, mas tão brasileiro quanto qualquer choro de Pixinguinha ou samba de Cartola. Um samba todo em voltas, onde cada compasso era uma queixa de amor, cada nota uma saudade de alguém longe.
   Mas a letra não vinha. De vez em quando, eu me sentava à minha mesa, diante da janela que dava para o Corcovado (a casa foi, é claro, transformada num prédio de apartamentos) e tentava. Mas o negócio não vinha. Acho que em toda a minha vida de letrista nunca levei uma surra assim. Fiz 10, 20 tentativas, houve uma ocasião que dei o samba como pronto, à exceção de dois versos finais na primeira parte, que eu sabia quais eram, mas não havia uma maneira de encaixarem na música, numa relação de sílaba com sílaba. Já estava ficando furioso, pois Tom, embora não me telefonasse reclamando nada, estava esperando pelo resultado.
   Uma manhã, depois da praia, subitamente a resolução chegou. Fiquei tão contente que cheguei a dar um berro de alegria, para grande susto de minhas duas filhinhas. Cantei e recantei o samba, prestando atenção a cada detalhe, a cor das palavras em correspondência à música, à acentuação das tônicas, aos problemas de respiração dentro dos versos, a tudo. Queria, depois dos sambas de Orfeu, apresentar a meu parceiro uma letra digna de sua nova música, pois eu a sentia nova, caminhando numa direção a que não saberia dar nome, mas cujo nome estava implícito na criação. Era realmente a bossa nova que nascia, a pedir apenas, na sua interpretação, a divisão que João Gilberto descobriria logo depois.
   Dei o título de Chega de Saudade, recorrendo a um dos seus versos. Telefonei para Tom e dei um pulo no seu apartamento. O jovem maestro sentou-se ao piano e cantei-lhe o samba duas ou três vezes, sem que ele dissesse nada. Depois, vi-o pegar o papel, colocá-lo sobre a estante do piano e cantá-lo, ele próprio. E, em breve, chamar a sua mulher em tom vibrante:
– ‘Teresa!’”

  • Pitacos finais

   E nesse ritmo a obra de Sérgio Cabral segue. Relatando diversos momentos históricos, curiosos e engraçados de Tom. Tais quais, a ligação de Frank Sinatra ao bar onde bebia com os amigos, a quase desistência de apresentar-se no Carnegie Hall, em Nova York, por medo de avião, a Garota de Ipanema (claro!), etc etc.
   O livro, na minha opinião, peca apenas por duas características: por ter vivido muitas dessas histórias, o autor acaba exagerando em detalhes que, perfeitamente poderiam ser retirados do texto, pois acabam por cansar o leitor, como as notas do aluno Antônio Carlos Jobim na sétima série. Desnecessário. O outro deslize não é do escritor e sim da editora. Um biografado como Tom Jobim merecia uma revisão aprimorada, perfeita. A falta dela durante o decorrer das páginas mancha um pouco o conteúdo.
   Como na parte “Outra história iniciada em 1996 foi a amizade, seguida de parceria com Chico Buarque” (p. 218). Pelo contexto, percebe-se que Cabral referia-se ao ano de 1966. Na data impressa, Tom já havia falecido, inclusive. Além disso, diversos pequenos erros de digitação “produçção” (p. 391) e muitas repetições de palavras podem ser encontrados.
   Uma pena. Mas nada que desmereça a leitura do livro. Confere a ficha abaixo:


Antonio Carlos Jobim – Uma Biografia
Coleção: LAZULI
Autor: CABRAL, SERGIO
Editora: IBEP NACIONAL
Assunto: BIOGRAFIAS, DIÁRIOS, MEMÓRIAS E CORRESPONDÊNCIAS

fonte: Livraria Cultura

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6 pensamentos sobre “Hora do Conto 1 – no mundo de Tom

  1. Quando se ouve pouca idéia do trabalhão que dá encaixar letra e música. Da boa.

    Caso você ainda não tenha lido, sugiro que descanse os olhos no livro escrito pela irmã do Tom, Helena, chamado: Antonio Carlos Jobim- Um Homem Iluminado. Antonio assim, sem acento.
    Comovente, sensível e com detalhes curiosos, como só a vida familiar revelada pode ser. De chorar, em muitas páginas.
    Abraço.

  2. Pingback: Hora do Conto 4 – Enriquecendo a cultura à base de voz e violão « Telha do Tiago

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