Osvaldinho, parte 2

   As colegas pediam cuidado e lembravam que onde se ganha o pão, não se come a carne…’”. Determinada, Adriana avisava: “Aguardem! Quem viver, verá!”. Com esta afirmação, o expediente foi encerrado na agência de publicidade Merlin. A noite recém caía naquela sexta-feira, com a promessa de festas intermináveis e bebedeira indiscriminada em alguns pontos de Porto Alegre. Porém todos estes eventos teriam uma ausência em comum: Osvaldinho. 
   O homem já nem queria mais nada naquele dia. De tão sério, aparentava cansaço. Até o futebol das 19h foi vítima do descaso de Osvaldinho. A centroavância e a cerveja pós-jogo não seriam as mesmas sem o camisa nove. “Cara, tu sabes que antes do jogo passei pela sala de reuniões. Só as mulheres por lá. Está sabendo a razão?”, perguntou Flávio ao amigo Gabriel. “Tchê, se eu ouvi bem, parece que a Adriana armou um negócio para segunda-feira. Não sei dizer o que, apenas peguei um ‘quem viver, verá!’”.
   A ala masculina da agência nem imaginava o que estava por vir, enquanto a feminina aguardava com expectativa o movimento de Adriana. Os homens continuavam preocupados com a situação do amigo, mas pretendiam tomar alguma decisão a respeito só a partir da próxima ausência no futebol.
   Três dias depois, às oito e meia da manhã e o sol já se instalava alto no céu da capital dos gaúchos. Seu Francisco, porteiro da agência e grande figura do prédio, recebia todos os funcionários com um animado bom dia. No momento em que retomava a leitura da coluna de Ruy Carlos Ostermann, recebe o cumprimento de Adriana. Seu Francisco levanta a cabeça e faz uma pausa, necessária, de cinco segundos antes da resposta. “Bom dia, dona Adriana!”. A loira já entrava no elevador quando o porteiro sussurra para si: “Ahh se eu tivesse faculdade…”. E assim o flerte preferencial de Osvaldinho se encaminha, mais vistosa do que sempre, para o quinto andar.
   Abrem-se as portas do ascensor e Flávio, juntamente com Gabriel, encontram a colega num dos seus melhores momentos. Ela já havia avisado de que armas iria dispor. O jeans azul marinho, que demarcava seus quadris e os deixava no tamanho exato, entre irresistível e hipnotizante. O bolerinho branco, acompanhado de uma blusinha preta, transformam o decote em uma espécie de imã irritante, que encurta distâncias e atrai olhos masculinos diretamente para ele. E claro, o complemento fundamental, os scarpins de couro marrom.
   “Olá meninos. O Osvaldinho já chegou?”, perguntou Adriana. Flávio e Gabriel, em jogral, respondem, “Ainda…Não”. A musa da agência dispensa a dupla e dirige-se para a sala de criação. Osvaldinho só chegaria pelas 09h30. Até lá, Adriana tratou de deslocar alguns queixos e causar dores de cotovelo nos bracinhos invejosos das colegas de trabalho. Tudo bem, pensou ela. A espera valeria a pena, e não duraria muito. Afinal, Osvaldinho já não chegava mais atrasado no trabalho havia quatro rigorosos e pontuais meses.
   Maquiagem impecável, batom discreto e com certo brilho, olhos delineados e, o melhor, com direito a trato especial nos cílios. Que Osvaldinho, antigamente, adorava anunciar sua paixão pelos cílios apropriadamente longos e delicadamente curvilíneos de Adriana. Pois assim estava ela, que já o aguardava ansiosa.
   O relógio, pródigo, insistia em seu passo lento. As atividades, o telefone, os e-mails, tudo parecia num ritmo diferente naquela segunda-feira. Diferente, e tendo menos importância. Os minutos iam passando, implacáveis. A marcha dos 60 segundos torturava não só Adriana, mas também as outras meninas do escritório. Os homens continuavam, coitados, curiosos. Podiam sentir o clima tenso que pairava no ar, percorria teclados, porta-arquivos e chegava, pasmem, a cafeteira. Que naquele dia, com ineditismo, ficou desligada. Um espanto.
   Era possível ouvir o tic tac do relógio pendurado na parede da recepção, tamanho o silêncio da expectativa. Em meio a tanta espera, finalmente ele chega. O ponteiro grande chega ao ponto mais alto da máquina, são 9h. Faltam apenas 30 minutos para que Osvaldinho encontre a algoz de sua pretensa recuperação. Foi quando uma voz se desprendeu lá da Sala do Xerox, invadindo cada recanto da agência.

Quarta (27) continua!

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4 pensamentos sobre “Osvaldinho, parte 2

  1. Com exceção de letra e música, raramente essa conjunção literária dá certo. A seis mãos então!
    Mas vocês parecem ter encontrado a marca certa na balança.
    De quebra deixam saber, que nem sempre o traje predileto é um vestido vermelho que mostra todas as curvas e um salto agulha de 15 cm.
    Vou seguir lendo pra ver se Adriana arranca a verdade de Osvaldinho.

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