Osvaldinho

a história foi escrita a seis mãos: as minhas, do Luiz e do Rodrigão… Logo, vocês já devem imaginar as característiscas do conto…

 

   Mudara tanto e de tal forma que surpreendera até os mais próximos. De cortejador destemido, a romântico incorrigível. Tal fato aguçou os amigos. Teorias, teses entre eles começaram a ser elaboradas aos montes, nas mesas de bar ou mesmo durante o trabalho. Afinal, que diabos acontecera com o Osvaldinho?
   Osvaldinho, o cortejador, deu lugar a Osvaldinho, o romântico. Quase um tímido. As mulheres, tão acostumadas a incessantemente ouvi-lo, já nem sabiam mais reconhecer a sua voz. Nada a ver com aquele que, outrora, não perdoava quaisquer decotes ou rabos de saia. Na festa do fim de ano do pessoal, sequer pulou na piscina. Pela primeira vez em 15 anos.
   “É passageiro”, garante o companheiro de ataque no futebol. “Ih, não sei não. Nunca tinha visto ele comprar flores. Aliás, acho que ele nem sabia onde tinha floriculturas na cidade”, desconfia. Os relatos variam, mas a conclusão sempre é a mesma: Osvaldinho está muito mudado.
   Certa feita, depois daquela festa, um tanto avoado no trabalho, Osvaldinho começou a sondar como seria a vida de casado. Logo ele, que dorme com o cachorro, e não tem nenhum objeto cor-de-rosa no apartamento. Questionava os amigos para tentar imaginar como seria a vida com uma mulher todos os dias sob o mesmo teto. Pior, diziam os amigos, ele perguntava sobre viver com a mesma mulher.
   Dias atrás, num happy hour, os mais maldosos sugeriram até que fizesse algum curso de decoração, tamanha a predisposição dele a falar sobre quadros e móveis. Inicialmente, pensaram que ele iria se mudar, hipótese descartada. Reforma? Também não. Casa nova pro cachorro, então? Não. Apenas queria organizar seu apartamento. Estranho!
   “Bichice, virou veado!”, resmunga o ex-parceiro de bar, abandonado recentemente por Osvaldinho. “Olha, eu acho que é alguma mulher. Dia desses até vi o Osvaldinho assoviando pela rua. Isso é coisa de homem que encontrou a mulher certa, seu moço”, especula a dona da banca de jornais em frente ao prédio dele.
   Questionado, Osvaldinho é evasivo nas explicações. Aquele papo de se tornar um cara mais organizado já não cola. Há desconfiança até de que o cusco está dormindo numa caminha, o cúmulo. Há algo por trás disso tudo. Aliás, há alguém. A questão é: loira ou morena? Baixa ou alta? Ele não confirma nada. Nem mesmo a existência da dita cuja.
   Curiosamente, nesse período de transição, as colegas da firma passaram a olhar Osvaldinho com outros olhos. O simpático ex-cafajeste agora era um partidão. Aos poucos, elas se aproximaram voluntariamente do novo homem sério do pedaço. Antes, mal davam oi e só o esnobavam em horário comercial.
   Boatos dão conta de que até café servem pra ele. Perguntam da vida pessoal e algumas arriscam saber o verdadeiro motivo para tamanha mudança. Talvez queiram receber os frutos dessa transformação, não se sabe ao certo. A única certeza entre os colegas de trabalho é que a curiosidade feminina girava em torno da moda inverno, de viagens a Buenos Aires e, agora, Osvaldinho. 
   Adriana, alvo preferido de Osvaldo em tempos inconsequentes, hoje vê nos seus generosos quadris e nos decotes voluptuosos armas obsoletas de sedução. Eles já não arrancam nada mais do que um bom dia do colega de agência. Surpreendida com a alteração de atitude, a loira comentava com as colegas e dizia que era algo passageiro, nada que um bolerinho branco, uma calça jeans justa e um scarpin não resolvessem.
   “Segunda-feira vocês vão ver gurias, vai cair a máscara do Osvaldinho”, provocou, para as amigas. “Ai, o que tu vais fazer, hein?”

Segunda-feira (25) tem a continuação!

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2 pensamentos sobre “Osvaldinho

  1. O.ooOo muito bom o texto, no começo achei que era um conto formal, cheio de lirismo, romantismo com palavras, singelas, tocantes “De cortejador destemido, a romântico incorrigível” . Na metade do conto tudo parecia hilário, cômico, inexplicável, me perguntava o que de fato aconteceu com Oswaldinho, talvez paixonite. À descrição de como as colegas da firma olhavam compara ele com outros olhos são ótimos, as opiniões e especulações são inexplicáveis, muito divertidas. E o final me intrigou.
    Não consigo descrever ficou muito legal, intrigante e peculiar seu conto

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