Translucidez

   A parte da frente da residência oficial do Presidente da República Federativa do Brasil, o Palácio da Alvorada, não tem muros. Entre o extenso gramado e o estacionamento, de onde os turistas podem admirar o prédio e tecer comentários sobre a obra de Niemeyer, há somente uma faixa d’água. Não que ela seja grande, mas é capaz de desanimar qualquer um que não seja triplista, de algum eventual plano de invadir a atual casa do Lula.
   Nesse ‘riozinho’ moram muitos peixes coloridos. Eles, presume-se, devem receber boas quantidades de ração para poderem crescer e, assim, luzirem suas escamas. Até aí, tudo bem, natural. O que não é nem um pouco normal, porém, é a atitude de muitos visitantes ali na beira. Contemplando o Alvorada, dão de presente aos peixes, quantidades significativas de… moedas. Cinco, 10, 25, 50 centavos às pencas repousam ali no fundo, ajudando a pintar ainda mais o rio improvisado.
   A poucos quilômetros do Palácio, as moedas dadas aos peixes presidenciais teriam utilidade muito maior. Ajudariam, por exemplo, a encher a caixa de sapato da simpática mendiga que vagueia pelo Eixo Monumental. Na direção do Congresso Nacional – onde diversos servidores, mesmo tendo suas contas bancárias bem gordas, ainda pleiteiam mais regalias a si próprios –, ela vai pedindo, níquel por níquel, um pouco de solidariedade.
   Ao receber R$ 1.00, depositado na sua caixa cor-de-rosa, a brasileira para e faz cara de admiração. Agradecida, faz questão de conversar um tantinho, feliz, como retribuição. Relata sua história triste, contudo sem perder o bom humor. Assaltaram-na, dias atrás. Uns gatunos levaram-lhe a preciosa caixa. Não fora agredida, nem ficou traumatizada, no entanto, perdeu os R$ 40.00 nela. Quantidade que, ela garante convicta, “dava pra comprar o mundo”.
   Pouco depois, ela segue a caminhada. Vai em busca da sobrevivência, na forma de mais algumas moedas, acumulando-as na caixa de sapato cor-de-rosa. Decerto, não com o propósito de comprar o planeta. Certamente, a economia lhe servirá apenas para saciar a simples vontade de ter o que comer.
   Pobres ricos, esses peixes do Alvorada… condenados a nadar no dinheiro, mas proibidos de comprar o mundo.

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13 pensamentos sobre “Translucidez

  1. Muito Bem Observado, gostei do texto, a leitura foi innndu…

    Bom, respondendo a tua pergunta a minhas perguntas (comentario mais confuso! rs)
    Podêêêrr, nao pode, mas nas questoes lá postadas, nao há muito o que fazer, amar sempre amamos, trair, nem sempre, mas perdoar é outra história!…

    Obrigada
    Pela visita e
    Comentario
    BjO’

  2. Eu tinha reparado isso na minha ida a Brasília. Que raios passa na cabeça das pessoas para jogarem moedas lá? O espelho d’água do Congresso também tinha moedas, eu acho.

  3. Obrigado por elogiar meu trabalho.
    Teus textos, por sinal, estão cada vez melhores. Aos poucos vamos melhorando.

  4. Enquanto isso, alguns de nossos célebres deputados e senadores passeiam por aí com nosso dinheiro!

    Em um caso mais próximo, aqui em Caxias, o meio milhão de reais investido no carnaval de rua pode ter sido um tapa na cara. Mais da metade dele, declarado, mostrou irregularidades, como compra de cachaça (sim, isso mesmo), cigarros, eletrodomésticos e material de construção.

    Agir ou perder!

  5. O.oOo seu texto é muito bom, tem um senso critico mundano admirável. Algumas frases são líricas, belas, tocantes “Quantidade que, ela garante convicta, dava pra comprar o mundo”, seu conto/texto é engajado, o final é mundano, triste, porém REAL.

    Um beijo

  6. Você tem um jeito muito especial de fazer o leitor passear pelos lugares que anda. Lembro de Cuba, tão bem apresentada.

    A série Brasília está ótima.

    As moedas são recolhidas, pelo que sei. Só não sei quem fica com elas. As carpas, dizem, não gostam de trocados.

    Abraço e boa semana.

  7. Dizem que quem joga moedas na água faz pedidos. Talvez até a senhora que você conheceu já tenha jogado alguma que ganhou de um turista, com fé de que algo mude. E quem sabe se com R$40 ela não conseguia comprar o mundo? O mundo dela. Tantas incoerências neste mundão.

  8. Desculpa Tiaguito, mas tenho preguiça de ler sobre Brasília. Não me interesso por lá…hahahaha….saudades das tuas crônicas!!! Desculpe te encher domingo, mas a Simone é louca!!!!!

  9. Cara que belo texto!
    O final foi perfeito, tu foi super feliz nesta colocação:
    “Pobres ricos, esses peixes do Alvorada… condenados a nadar no dinheiro, mas proibidos de comprar o mundo.”
    Sei a explicação mas não concordo com a desigualdade desse país!
    Mas temos que fazer nossa parte, e não so “alimentar tubarões do alvorada”!

  10. Observações perfeitas. A tua sutileza é a forma mais intensa de fazer uma crítica. Concordo com o Everton, o final está muito bom.
    Bjo!

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