Para daqui a pouco

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Luan

   Não é sempre que posso estar presente no dia-a-dia do meu sobrinho, acompanhando os seus primeiros passos de vida. Ainda um tanto desajeitados, é verdade, mas que já estão chegando firmes e fortes à deliciosa fase da infância.
   Nesta semana, ele ficou conosco. A nossa já apertada e cansativa rotina teve que achar algum espaço para a energia de um menino de três anos e meio, literalmente mal saído das fraldas. E nessas ocasiões, o tio aqui se transforma. Ora é babá, depois pai e, sempre que necessário, amiguinho do jardim.
   Num desses dias, após ser pai pra mandar sentar no banco de trás do carro e adversário durante uma emocionante corrida de motoca no jardim de casa, veio a hora do almoço e, consequentemente, a vez de ser babá.
   Filosofia infantil: ‘aqui, só um pouquinho a mais pra crescer e ficar grandão’, ‘só ganha suco se comer tudinho’. Até que me sai bem. E ele também. Porém, em determinado momento, achou impossível ficar sentado. Os aviõezinhos de comida, então, tiveram de voar para um hangar móvel e em pé, que ia e vinha à mesa, ansioso por voltar a brincar.
   Isso fez recordar cenas de dez, onze, 12 anos antes. Quando outra criança queria raspar o prato rápido. Não para saciar a fome e sim para descer os 11 andares do prédio no Bairro Cristal e bater bola, às vezes até sozinho, num espaço cujo perímetro não deve ser superior a 40 metros. No entanto, uma dose de imaginação já o transformava em um estádio lotado.
   Pouco importava se a comida ainda não estava totalmente digerida ou se a temperatura passava da casa dos 30° com o sol rachando a terra. O importante mesmo era acertar o espaço entre as barras e marcar o gol, para a torcida empolgada gritar o nome do artilheiro, extasiada e feliz.
   Reparei novamente no meu sobrinho. Acho que ele não estava ansioso pra golear algum adversário e sim para ser o mais veloz numa pista dificílima, com sua radical motoca. “Que papá chato que não termina nunca”, deve ter pensado. Ao fim do almoço, foi-se, confiante e de barriga cheia, enfrentar seus vários desafios.
   Mal sabe ele que muitos outros ainda virão logo em breve. Tais como: juntar quatro letras e escrever seu nome; fazer melhores amigos e levá-los pra vida toda; entender que professoras e alunos não foram feitos um para o outro; acertar aquela conta impossível de matemática na quinta série; superar o nervosismo do primeiro beijo; perceber que o mundo não acaba quando o time de coração é derrotado; dar o seu melhor em tudo; arrumar o penteado do jeito certo para uma grande festa; aprender a admitir quando estiver errado; a ansiedade da primeira vez; decorar as fórmulas de física e os nomes esquisitos da biologia para o vestibular; passar no vestibular; se obrigar a esquecer alguém que seja fácil de lembrar; saber ouvir e dizer ‘eu te amo’ com sinceridade; disfarçar as dores; ter humildade de pedir desculpas; aceitar desculpas; trabalhar até a madrugada; se encorajar e pedi-la em casamento; perceber o que é melhor, mesmo quando não se pareça; levantar a cabeça; aprender a ser responsável, brincalhão, correto, sobrinho, filho, neto, babá e amiguinho do jardim ao mesmo tempo…
   A vida dele mal está começando, mas eu já tenho certeza que superará todos esses obstáculos. E sempre com o brilho nos seus olhos azuis.

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11 pensamentos sobre “Para daqui a pouco

  1. Ahhh também. Com ajuda desse tio aí, com certeza vai superar todos os obstáculos. “…entender que professoras e alunos não foram feitos um para o outro”. Essa frase tinha que ser minha! Muito bom!

  2. Legal o texto, principalmente o último parágrafo!!! Nossa, nossa amizade é longa mesmo, pois me lembro de tu me mostrando fotos de piá ainda bebê.

  3. Olá! 🙂 que texto bonito. Pois é, a ludicidade é algo muito importante nas culturas infantis. Entre brincar e fazer coisas “sérias” não existe uma distinção, e olha… o brincar é muito do que as crianças fazem de mais sério! hehe.

  4. Em meio a tantas “preocupações” enormes que nós inventamos todos os dias, você me impressionou por retratar com tanta sensibilidade esses momentos que são tão simples, mas capazes de fazer toda a diferença na vida da gente. E esses momentos nos trazem à memória nossas lembranças boas que quase deixamos de lado. Estará nos meus Favoritos. 🙂

  5. Só nao sei se é melhor ser mae, do que ser tia porq ainda nao pari, sei que esse parentesco que pra alguns é tao distante, é um sentimento magnifico e tenho a sorte (e paciencia) de morar com minha sobrinha, e ver todos os dias que ela mesmo tao pequena ja consegui juntar as 5 letrinhas e formar o nome do amor de minha vida: Ivyna…

    ‘O luan é mÓ gatinho, tem uma cara de suuupeR Sapeca!’

  6. Belo texto!
    Muito bom, e esses momentos ficaram guardados na vida dele e na tua, pois essa fase passa rápido, aproveita!

  7. Hahahahaha. Engraçado como as crianças tem esse incrível poder de reduzir a gente a ‘amigo do jardim de infância’. Olhando de fora, a gente fica meio abestalhado, mas, putz, vale a pena.

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