Copa do Mundo do bairro Santo Antônio

     Uma vez eu participei de uma Copa do Mundo. Quer dizer, na verdade era o campeonato do bairro, mas para nós – do Teixeira Futebol Clube – era como se fosse a competição mais importante do futebol. Afinal, iríamos jogar de uniforme, tínhamos técnico (e o apelido dele era Pelé) e os principais times do mundo do nosso bairro confirmaram presença.
     Todo o torneio foi marcado para um único dia – um domingo de sol, como não haveria de deixar de ser. O local escolhido para as disputas foi a quadra do bloco nove, popularmente conhecida como ‘os nove’. Disseram que teria até um troféu aos vencedores e medalhas para segundo e terceiro. Excitação pura entre os atletas de 12, 13 anos.
     Montamos um time meio às pressas. Inclusive chamamos, ou melhor, convocamos, dois guris que nem moravam na Teixeira de Freitas e sim na Voltaire Pires, a rua ao lado. O Dudu, no dia, apareceu camisetas e calções, numa prova de profissionalismo e engajamento total. Nossas cores eram amarelo e azul, tal qual uma seleção pentacampeã mundial.
     A expectativa era enorme. Realmente estávamos mobilizados para sermos campeões. 
     Então, chegou o grande dia. Caminhamos as duas quadras entre a Teixeira e os nove juntos. Na hora que chegamos lá, as coisas estavam um pouco diferentes do que imaginávamos. Não tinha medalhas, muito menos troféu e a organização era consideravelmente inferior a qual pensávamos.
     Mas, azar, fomos lá para jogar. E sermos campeões, claro. E pensando bem, era até melhor não ter troféu. Assim não haveria uma eventual briga no time para decidir quem levaria o caneco para casa.
     Não lembro bem de qual maneira foi realizado o sorteio que definiu as chaves. Só recordo que fiquei feliz, pois um time da São Francisco não compareceu e isso aumentaria as nossas chances reais de título.
     Pouco antes do soar do apito do juiz – sim, tinha juiz – fomos decidir as posições de cada um e o esquema tático. Como os outros quatro em campo, queria ser atacante, artilheiro, decisivo, essas coisas. Porém, me mandaram pro gol. Discuti! No final, ficou acertado que jogaria apenas a primeira partida lá atrás. Depois, teria um revezamento entre todos os atletas do grupo.
     Vencemos! E tive uma atuação destacada. Salvei bons ataques adversários e não tomei gol. Fato crucial para, obviamente, nosso técnico, o Pelé, decidisse que eu permanecesse como arqueiro nas próximas fases. Não poderia negar um pedido do comandante e, meio à contragosto, assenti.
     Nas partidas seguintes, mantemos a sina de vitórias. Surpreendendo os outros times, jogávamos melhor e, de certa forma, irritávamos eles com a nossa categoria. Como uma equipe formada por pirralhos vencia todo mundo? E, detalhe, sem levar sequer um gol. A bola teimava em não passar por mim. Primeira fase, quartas, semi… e a nossa goleira incólume.
     Com o clima aflorado, chegamos à grande decisão. Éramos a surpresa do campeonato. O único invicto. Melhor ataque e defesa menos vazada. O adversário seria o mesmo da estréia. Barbada, pensamos. Eles não eram grande coisa e fizeram uma campanha irregular. O tão ilusório caneco nunca esteve tão perto da Teixeira quanto naquele momento.
     Anunciada a final, as esquadras entraram em campo. Porém, tinha algo diferente no outro time. Eles estavam maiores e mais fortes. Como isso? Olhei melhor e percebi: trocaram mais da metade da equipe por gente mais velha. Roubalheira! Protestamos, mas de nada adiantou. Naquele momento, estavam todos contra nós – torcida, times derrotados, organização do campeonato.
     Éramos o River decidindo um título em La Bombonera, o Inter tentando ser campeão no Olímpico, ou Grêmio no Beira-Rio, como queira caro(a) leitor… As palavras do Pelé nos motivaram ainda mais. Vencer seria uma epopéia digna de dvd – embora nem soubéssemos o que era esse aparelho na época.
     Apesar de mais fracos, fomos ao ataque. Com raça, equilibramos as forças e, para o espanto geral, pressionávamos de forma contundente. Estávamos melhor, só faltava o gol, o bendito e consagrador gol. Contudo, ele não saía. Uma, duas, cinco. oito tentativas e nada. Já passava da metade do tempo e o adversário apenas se defendia. Sobrávamos em campo.
     Num desses ataques, no entanto, a bola sobrou para um baixinho, atacante deles. E ele conseguiu escapar do marcador, ainda em seu campo, para vir correndo em minha direção. Só ele e eu. Pelas regras, o goleiro não podia sair da área, então tive que avançar apenas uns dois ou três passos, a fim de tentar fechar o ângulo.
     Ao passar da intermediária de ataque, o baixinho desferiu o chute. Teve como endereço o ângulo direito. Meus dedos apenas tocaram na bola que, pela primeira vez no campeonato, balançou as redes do Teixeira Futebol Clube. Incredulidade. Poucas vezes foi tão triste levar um gol.
     Ainda tentamos empatar, entretanto, a retranca deles só aumentou e ainda houve um princípio de apelação à violência por parte do adversário. Logo depois, a partida terminou. A comemoração deles – o campeão, os derrotados, a torcida e a organização – foi grande, assim como nosso silêncio.
     Jogamos melhor o campeonato inteiro, inclusive na final. De igual para igual, enfrentamos times maiores, ganhamos de todos, um a um. E não levávamos gols. Terminamos com goleador, melhor ataque, defesa menos vazada, porém em segundo lugar. 
     Não era para ser assim. Mas foi! E foi, porque na hora em que mais precisamos fazer gols, não fizemos. Quando não podíamos levar gol, levamos. Campeões são aqueles que aproveitam os momentos certos, afinal. E ainda teimam em dizer que o futebol às vezes é injusto!

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8 pensamentos sobre “Copa do Mundo do bairro Santo Antônio

  1. Tiaguito. Esses dias abri o livro que tu me deu de amigo secreto e li a dedicatória! Ai que nostalgia! Tô esperando as aulas heim! Beijos guri….SUCESSO da tua fã aqui!

  2. E a culpa pelo gol, óbvio, foi tua, né BARBOSA!
    Boa história… Lembrei de uma vez que, jogando pelo time do colega marquei os dois gols do time 😀 Em vão, tomamos 8. Hahahahaha… Me lembrou do Grêmio de 2008 e o mesmo Grêmio do último gre-nal… Enfim… Parabéns, Barbosa!

  3. há, e pensar que fatos assim começam com uma partida meio furada que nem medalha tinha e vira toda essa competição onde o melhor/o segundo melhor é uma questão bem relativa, ou mesmo quem sabe, de alguns momentos de pura sorte/azar.

    beeijo guri.

  4. Ahhh os tempos de campeonatos do bairro, todo mundo contra nós. Juiz, bola, adversários e até o campo irregular. Tens razão o futebol não é injusto, ele é teimoso. Nunca me deu um campeonato, sem vergonha! Fui jogar newcon. Hahaha

  5. Só é injusto quando um certo árbitro, chamado de Carlos Simon, é que determina o resultado das partidas e não os jogadores. Tenham eles as melhores atuações, como no caso do Teixeira FC, ou mesmo uma inferioridade volumétrica de jogo agraciada pelo oportunismo de um raro momento.

    Morte ao Simon!

  6. Tiago, obrigado pela visita no Degusta Paranóia.
    Gostei do seu espaço, e quando der na Telha na procura de um bom texto, passarei por aqui.

    Abraço e…
    Rum Diary é um dos melhores de Thompson, sem dúvida! rsrs

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