Cuba, lado B

     Tenho pensado muito em Cuba nos últimos dias. Em Cuba e nos cubanos, mais especificamente. Não cheguei a fazer muitos amigos lá, porém, ainda assim, fiquei preocupado com os habitantes daquela ilha na passagem dos furacões Gustav e Ike por lá.
     Li em jornais, vi ao vivo, fotografei e escrevi sobre como Havana tem prédios antigos – ou, em outras palavras, caindo aos pedaços. A capital conjuga em todos os tempos o verbo guerrar: passado, presente e futuro. Erguidos na mesma cidade, às vezes na mesma rua, edifícios podres caindo aos pedaços e hotéis cinco estrelas, tamanho é o contraste – que já expliquei – são só pra turistas verem.
     Pra falar a verdade, Havana, Cuba, não é uma terra de contrastes e sim de disfarces. Quem passear pelo Malecón ou por La Habana Vieja pode acreditar nisso ao ver obras de recuperação de prédios antigos. Entretanto, basta caminhar pela Calle Sán Lázaro – em frente à Universidade de Havana, uma área não-turística – para essa máscara cair.
     Mazelas, piores que a do Brasil, podem ser vistas em cada quarteirão. Não há medingos, é verdade, há a miséria total, isso sim. Cuba também tem pedintes, e os que vi são pessoas idosas que abordam turistas para juntar um dinheiro ‘para comer’.
     O grande e verdadeiro contraste cubano se dá justamente entre governo e povo. Um governo autoritário, amedrontador e onipresente, com um povo extremamente simpático e receptivo com os que vêm de fora. E é nessas pessoas que tenho pensado ultimamente. Como será que elas estão?
     Como será que está o desempregado que beijou a nota de dez cucs que dei a ele logo depois de encerrado seu ‘bico’ de guia turístico clandestino no dia? Ou então o médico que trabalha de taxista nas férias ‘para gañar la vida’? Torço para que estejam bem, ou pelo menos, salvos da fúria dos ventos. 
     Torço também que os 21 cucs que empreguei para comprar um caixa de charutos – sendo que eu nem fumo – de um economista de 42 anos tenham servido para lhe garantir alimento. Apesar dele sequer possuir fogão em casa.

 

     Quem quiser saber um pouco mais da vida real de Cuba, clique aqui e leia o blog da Yoani Sanches, uma cubana, que vive em Cuba, vencedora do prêmio espanhol Ortega e Gasset 2008 de jornalismo digital.

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8 pensamentos sobre “Cuba, lado B

  1. Também tenho muita pena daquela gente, que testemunhei junto contigo.
    Espero, também, que estejam bem, e nutram o que um povo jamais pode perder, a esperança, de ter liberdade de opinião e de guiar seus destinos.
    Ainda hei de ver, e comemorar, o fim “de la revolución”, que só oprime e espolia o povo, podendo, então, finalmente, trazer prosperidade para eles.

  2. É essa gente que mais sente essas desgraças, porque mora em casas mal montadas, com material de baixíssima qualidade. Demoram tanto a juntar alguma coisa e em segundos tudo se vai.
    Difícil avaliar o que está por trás dessa cortina de Cuba. Contrastes espantosos, oportunismo, desafios à liberdade, assassinatos, miséria degradante, enfim, mesmo que nosso país tenha contrastes chocantes, melhor viver aqui.
    Bom mesmo seria para de exaltar esses ditos revolucionários que fazem pose romântica estampados em camisetas e que nada mais foram do que assassinos sem piedade que buscavam satisfazer um ego de cristal.
    Abraço.

  3. Que coisa triste. Na minha adolescência eu venerava todos os modelos socialistas que existiam. Levei tempo para aprender o quão atrasado é este modelo. Mas não abandono o ideal de justiça social, mas sem democracia, tudo desmorona. Só existe uma sociedade fraterna se houver liberdade. Cuba está na contramão.

  4. minhas são as palavras do mestre fabiano.

    quero muito conhecer cuba justamente por tudo isso. não para ver como funciona o circuito turistico, e sim como funciona a vida.

    e é muito bom saber que tem gente como tu que vê o que interessa. 🙂

  5. Infelizmente, Cuba é apenas um pequeno retrato da desigualdade econômica que chega nos quatro cantos do planeta. Quando eu vejo documentários sobre a vida na África, principalmente de países vítimas de guerra civil (como Serra Leoa e tantos outros).
    Agora, por mais ultrapassada que seja o atual modelo político e, conseqüentemente, econômico, não dá para imagina (ao menos, para uma visão de alguém de fora dessa realidade), que a realidade de Cuba fosse diferente sem a Revolução Cubana. Antes disso, Cuba era o famoso quintal dos Estados Unidos, e contava com presidentes amigáveis aos interesses norte-americanos, como o ditador Fugencio Batista. Tanto é, que pelo que se vê de fora, os demais países da América Central também vivem numa pobreza semelhante. O que não justifica a falta de democracia (se é que ela existe em algum lugar no mundo, seguindo o conceito de “igualdade social”), pois a substituição de poder é essencial para o avanço administrativo de um órgão público ou privado.
    E assim como a Luana disse, espero um dia, conhecer Cuba.

    PS: Tiago, você toparia de fazer o blog GREnal?

  6. Olá, gostei muito do seu blog. Dei uma olhada por cima pelos posts, e vi que vc tem uma opinião muito legal e interessante por muitas coisa. E o mais importante: não é banal. Sucesso depois que temrinar a faculdade ( não se esqueça do texto que você leu no meu blog, muitos me comprovaram que realmente acontece, rsrs)
    bjinse sucesso
    Mis

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