Enquanto a revolução dorme

     Sábado, julho. A noite vai bombar nos arredores do centro de Havana, capital de Cuba. O relógio passou das 23 horas. As vias estão cheias e os ônibus lotados. Ao contrário de qualquer capital do Brasil, caminhar na rua depois que o sol se põe não é perigoso.
     Não existe violência, consumo de drogas ao ar livre – mesmo com a iluminação pública precária da capital. Nem os flanelinhas aparecem para “cuidar” os antigos carros de Havana. Mazelas como essas estão disfarçadas por entre os contrastes da cidade. Longe do olhar dos turistas.
     À noite, como as outras de verão, é quente. A temperatura beira os 30°C, perfeita para tomar alguma cerveja nacional – Bucanero ou Cristal –, mas a preferência do cubano é o rum. A bebida circula em garrafas ou em caixinhas idênticas as de leite condensado no Brasil. Eles adoram.
     O branco está na moda. Aliás, o branco é a própria moda. O contraste entre o tecido claro e a pele morena da população é um dos mais comuns entre os muitos de Havana. Poucos botões das camisas são pregados. O cubano deixa o peito à mostra, pois, em Cuba, vaidade é coisa de homem e não de mulher.
     O movimento é grande rumo ao Malecón, a Beira-Mar havanense. Há milhares sentados no murinho que separa a capital do mar e dos Estados Unidos. Solteiros, casados, crianças e poucos turistas se dirigem a um palco montado, a Tribuna Antiimperialista de Havana – em frente ao Escritório de Interesses dos EUA.
     O que terá lá? “¡Hoy hay música!”, sabem os cubanos. E, para eles, ela é feita com bongôs, violões, violoncelos e sopros, além de contar com uma batida animada, bem ao ritmo do Caribe. A salsa os fará dançar bastante nas próximas horas.
     No entanto, existem diversas outras opções para se divertir. O que mais tem são “Cafeterias”, embora ninguém peça café naquele horário. Numa delas, ao invés do “clima de caça” do Malecón, as pessoas estão sentadas. Entre conversas, goles de cerveja e de rum, assistem o telão com clipes de músicas latinas e yankis, aguardando a atração subir num pequeno palco. 
     A apresentação da noite é de uma dupla de comediantes. A primeira pergunta deles é: “¿De que país és?”. Eis que surgem espanhóis, alemães e mexicanos em meio à platéia. Cada um recebendo uma piadinha e uma salva de palmas para sua nação.
     Perto dali, no topo de um dos hotéis mais altos de Havana, os turistas se divertem. Diversas nacionalidades encontram-se na discoteca. As paredes são de vidro e o teto é retrátil. Ou seja, de um lado está o capitólio, do outro, a Praça da Revolução, e tudo sob o estrelado céu do hemisfério norte. 
     A banda toca salsa e os visitantes dançam passos desajeitados bebendo seus mojitos, comprados por um preço bem mais inflacionado do que no nível do mar. Em seguida, o dj começa a seqüência de reggaetton – o outro ritmo forte da ilha. Aí, o público explode.
     Pouca gente fica parada e quem não se move, torna-se alvo de uma das raríssimas cubanas presentes no local. Ela sussurra no ouvido: “¿Queres una chica?”. Por 21 Cucs, os pesos conversíveis – cerca de R$ 45 –, garante muita diversão no próprio quarto do hotel ou em uma das velhas casas da região, certamente disfarçada por entre os contrastes da cidade.

***

Essa matéria vai sair na Revista Noize de agosto. Confiram!

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3 pensamentos sobre “Enquanto a revolução dorme

  1. Cara, um relato melhor que outro. Uma verdadeira reportagem. Li vorazmente todos os posts. Show!

    De volta das férias.

    Leu minhas respostas sobre a representação colorada nas olimpíadas de 84? Consegui te esclarecer?

    Abraço!

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