Toda noite, um jogão

Reportagem para a disciplina de Produção em Revista

Imagine um torneio reunindo Inter, Grêmio e Seleção Argentina com equipes como Torrense. Impossível? Não. Na Confraria União Pelo Futebol de Mesa, esses jogos ocorrem toda terça-feira à noite, a partir das 19h30min

  “A gol!” – anuncia a plenos pulmões Valter, que vai tentar abrir o placar. Ele enquadra o corpo na melhor posição, olha fixamente para a goleira, pressiona o botão e arremata. “Uh”, se assusta Max, . O minúsculo bólido que serve de bola no futebol de mesa, foi para fora. O jogo continua 0 a 0.

  Toda terça-feira à noite, uma sala um tanto apertada, bem à esquerda da entrada da sede Moinhos de Vento do Clube Grêmio Náutico União, recebe o encontro da Confraria União pelo Futebol de Mesa. Engana-se quem pensa que os confrades são crianças com aparelhos nos dentes ou pré-adolescentes de bonés virados. Dela fazem parte advogados, engenheiros, médicos, aposentados e até mesmo crianças.
  “A confraria completou dois anos em maio. Antes jogávamos no salão de festas do meu edifício ou na casa de outro. Como o número de participantes foi crescendo, levamos a idéia para o clube, que nos cedeu um local para jogarmos”, conta o representante comercial David Ainhoren, 49 anos, um dos fundadores do grupo.
  A União pelo Futebol de Mesa tem mais de 50 participantes. Desses, 22 participam regularmente de campeonatos. E sempre há algum acontecendo. No ano, a confraria promove oito torneios – uma metade utiliza a regra gaúcha e outra, usa a brasileira. O torneio mais valorizado é o que vai de maio a dezembro, o “Brasileirão” dos botonistas. Isso garante emoção a cada encontro.

  Novamente Valter está no ataque. Em boa posição, manda o aviso: “A gol!” A concentração é grande. Max ajeita cuidadosamente o goleiro. Valter preme o botão a partir do meio campo. Bateu na bola e… Goool! Valter abre o placar aos quatro minutos de jogo.

  Atualmente, existem quatro regras para o esporte. No Estado, há duas: a brasileira e a gaúcha. As normas diferem entre si, começando pela duração da partida. A nacional é de 50 minutos e a regional, 30. Ambas com dois tempos de períodos iguais. Na brasileira, os botões são idênticos, inclusive da mesma cor, e a goleira e o campo têm maiores dimensões. Além disso, na gaúcha, ocorre uma grande variação no tamanho do botão, o que possibilita o comércio e torna-o um produto de mercado.
  “O botão é um jogador!”, garante Celso Renato Gonzatto, 46, funcionário público e coordenador da Confraria. Ele comprova sua tese revelando como funciona o negócio entre os “jogadores” dos botonistas. “A gente troca e vende uns botões entre nós. Se tem um que começa a se valorizar demais, o preço aumenta”, conta. O preço dos botões varia muito. Existem os de R$ 3, mas o preço médio beira os R$ 50. “Eu conheço gente que já pagou mais de R$ 500 por um”, explica Celso, que desvenda o segredo: “Os botões artesanais ‘jogam’ mais que os industrializados”.
  O cuidado com as peças de acrílico é grande. A maioria dos jogadores (de verdade) guarda seus respectivos times em caixas protetoras especiais. “É o ônibus da equipe”, diverte-se um dos participantes. Nada de amontoação. Os botões têm um depósito individual, para que não haja riscos de trincarem e, assim, comprometerem o rendimento em campo. Antes das partidas, um a um, são limpos e polidos por uma flanela, para deslizarem melhor sobre a tábua.

  Valter provoca. Faz som de torcida para pressionar o adversário, que parece sentir o golpe. Numa dividida entre os botões, no ataque de Max, a bola é espirrada para longe da meta. “Mas que sorte que ele tá hoje”, resmunga Max, passando a mão na cabeça, incrédulo.

  A grande vantagem de um jogo de futebol de mesa é a possibilidade de fazer clássicos históricos ou jogos simplesmente impossíveis, por questões de tempo e espaço. Apenas na confraria do União, há formações clássicas como a do Internacional de 1975, e times tradicionais como Real Madrid, Grêmio, Boca Juniors, Milan e por aí vai, até uma Seleção Argentina com nomes de atletas de diferentes épocas estampados no escudo.
  No entanto, nem só de grife vivem os botonistas. As equipes do Torrense, do próprio Grêmio Náutico União e até dos formandos em Odontologia de 1999 na UFRGS também estão representadas.
  Muitos dos botonistas têm mais de um time. Entre eles não está, necessariamente, o que testa o coração nos gramados de verdade. O gremista Kevin Kopper, de 11 anos, o mais jovem do grupo, considerado um novo talento no esporte, é um exemplo. Apesar de torcer para o Grêmio, ele possui em sua caixa duas equipes com a cor vermelha do tradicional rival: o Bahia e o Liverpool, da Inglaterra. Com isso, fica imune às más campanhas que o time real possa ter.
  Já o mais experiente da confraria, o colorado Sérgio Souza Silveira, de 64 anos, prefere não jogar com a dupla Gre-Nal por um simples motivo: todo mundo tem. “Tenho o meu time do União, o único, assim não corro risco de ter que enfrentar a equipe que defendo”, conta.

  De toque em toque, Max parte para o ataque. Perto da área, anuncia confiante: “A gol.” É uma grande chance de empatar o confronto. Silêncio, tensão. Partiu para a bola, bateu. Pra fora! A bola tira tinta da trave esquerda. O jogo continua 1 a 0. Valter suspira.

  Apesar de organizarem campeonatos, os participantes da confraria defendem que o futebol de mesa não é um esporte competitivo. “Tem que ter prazer em jogar”, acredita Celso Gonzatto, que define: “O futebol de mesa é um esporte de lazer”.
  Essa diversão, aliada ao clima de bom humor presente nas noites de terça do União, faz os confrades retornarem para o clube toda a semana. Muitos deles voltam ao esporte por causa dos filhos, mas vão sozinhos para a confraria. E como futebol de botão não exige perfeccionismo com o condicionamento físico, os mais gordinhos jogam com os magros em condições iguais. Da mesma forma, Kevin encara de frente todos os mais velhos que ele.
  A receita de um botão perfeito não existe. Existem as mais diversas preferências, entre os artesanais e os fabricados industrialmente. O importante para se jogar bem é a técnica. Sergio, com décadas de experiência no esporte, garante: “O botonista é alguém que gostaria de ter sido técnico de futebol”.

  Último minuto. Ótima chance de Max empatar. É uma boa jogada movimentação pelo flanco esquerdo do campo. Em meio a dois zagueiros, o atacante tem condições. “A gol”, arrisca Max. Valter posiciona o goleiro. É o lance derradeiro da partida e o placar está 1 a 0. Max partiu, preme o botão meticulosamente. A bola quica na pequena área, mas morre pela linha de fundo. Placar final: Valter vence por 1 a 0. Max lamenta e passa a mão nos cabelos: “Ainda bem que era só um amistoso”.

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12 pensamentos sobre “Toda noite, um jogão

  1. Tiago, está excelente a matéria. O texto está de fácil leitura e transmite perfeitamente o que é o nosso Futebol de Mesa. Sou um dos Confrades do UniãoFutMesa que toda terça está lá batendo uma “bolinha”, e lendo o teu texto me senti como que remetido àquelas jornadas à exemplo do jogo Valter X Max, que tão bem soubeste transmitir as emoções. Tu vai longe, guri. Um abraço e parabéns.

    • Oi Renato Gonzatto, desculpe te enviar isso, aqui, quando o assunto não tem nada a ver com o tema em questão. Eu busco informações sobre meus bisavós, quem sabe são os teus também já que não tantos Gonzatto assim por aqui. meus bisavós são Luiggi ou Luiz Gonzatto e Maria Marchioro, meu avô Orlando Gonzatto, todos já morreram, claro, mas eu preciso saber quando teria chego o Luiggi no Brasil, a única informação é a data de nascimento do meu nono, no Brasil, em 1906. Algum parentesco? Alguma idéia? Você tem pessoas mais velhas para perguntar isso?
      Agradeceria qualquer informação, estou querendo tirar minha cidadania italiana.
      obrigado
      abraço

  2. Joguei futebol de botão com meu filho(eu era, apesar dos protestos dele, sempre o time do Grêmio). O importante é deixar que o filho ganhe sem perceber a manobra. O importante é manter os encontros, as amizades.

    O assunto escolhido para a reportagem é ótimo. Fará muita gente lembrar que ainda é tempo. Que ainda há tempo.
    Abraço.

  3. E aí Tiago, tudo certo? Esses dias você deixou um comentário lá no blog, desculpe a demora em responder… Não sei te dizer ao certo quanto valem 130 CUC, ainda mais agora que Cuba passa por uma fase de mudanças muito grande. No final do ano passado, quando estive lá, isso dava mais ou menos 100 Euro, ou 80 dólares. Não leve dólar, é roubada! Enfim, espero poder ter ajudado. Boa viagem, você vai curtir com certeza… Um abraço!

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