O maior espetáculo da Terra

Trilha sonora para esse texto: “O Circo Chegou“, de Jorge Ben Jor.
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     Poucas coisas são capazes de me remeter tanto à infância quanto um circo. Lembro-me bem, dessa época. Uma ou duas vezes por ano, vinha algum a Porto Alegre. Quase sempre ficavam no Parque Marinha do Brasil, perto do Beira-Rio. E eu ia.
     Não era fã de circo, nem nunca quis ser um artista. Naquela época ainda sonhava em ser jogador de futebol e fazer muitos gols pelo meu time – que não era europeu. No entanto, gostava de ir naquele fantástico mundo iniciado ao se adentrar sob a gigantesca lona colorida.
     Sentava em algum lugar da arquibancada improvisada feita de madeira e esperava ansiosamente algum gordinho bem arrumado bradar do palco: “Respeitável público, vai começar o maior espetáculo da Terra” – e os aplausos começavam. As palmas, na maioria, eram de gente simples, de crianças, de pessoas desejando se surpreenderem com o que assistiriam logo a seguir, bem como os habitantes de Macondo quando os ciganos chegavam no vilarejo criados por Gabriel García Márquez, em Cem Anos de Solidão.
     Confesso que tinha um pouco de medo dos palhaços. Não deles, propriamente – muitos têm medo de palhaços, os acham assassinos. Eu não, gosto deles. Temia, simplesmente e não sei o porquê, o fato de ir a um espetáculo e não rir das palhaçadas. Ainda bem que isso nunca aconteceu e sempre me diverti um monte.
     Nos circos nos quais fui, havia, além dos palhaços, bichos. Feras enjauladas perigosíssimas. Tigres, leões. Eles pulavam no meio de arcos ardendo em chamas. Um risco! Tinha também animais mais simpáticos, como os elefantes. Além, claro, de equilibristas, trapezistas e mais uma série de bizarrices só existentes naquele mundo fantástico sob a gigantesca lona.
     Bem, como disse: nunca fui fã, mas eu gostava daquilo tudo.
     Faz um tempinho já e reparei: os circos não vêm mais a Porto Alegre. No seu lugar – quando vinham – eram os parques de diversões com seus brinquedos capazes de deixar qualquer um tonto só de vê-los rodopiar. Porém, sem leões, trapezistas e outras excentricidades.
     Onde será que eles estão? Talvez tenham se perdido no interior ou estejam fazendo algum tipo de boicote à capital. Não sei. Sabia que estavam em decadência, tornando-se boas pautas para jornalismo literário. Nessas reportagens, certamente o repórter escreveria sobre o fatídico dia em que o anão começou a crescer, os pêlos da mulher barbada caíram e os palhaços entraram em depressão.
     Quem perde com isso são as crianças de hoje. Quando penso nisso, me pergunto: será que meu sobrinho de dois anos não vai fazer a mesma cara que outrora fiz ao chegar para alguém e dizer espantado e maravilhado: “Eu vi um leão hoje!!!”? É uma parte da minha infância que ele não terá. Uma parte onde ele se socializaria. Entraria numa fila onde estariam ricos, pobres e ricos levando suas crianças conhecerem um novo mundo.
     Aquele novo mundo não acabou. Contudo, já não é mais o mesmo. Dia desses, estreou, depois de muitos anos, um circo em Porto Alegre. Só que, diferentemente dos meus, esse não é brasileiro e sequer fala português. “Cirque du Soleil“. Glamourizado, globalizado, chique, arrumado e não duvido que seja até cheiroso, totalmente alterado dos que eu ia. Tão dessemelhante que fica até difícil de chamá-lo de circo.
     Os ingressos para ver as ‘bizarrices’ foram colocados à venda meses atrás. Houve filas enormes, inclusive na chuva, para adquirir as entradas. Os preços, na casa dos três dígitos, exorbitantes se comparados aos que meus pais pagaram há anos, perto do Beira-Rio.
     Não que isso seja melhor ou pior e sim, como falei, diferente. No entanto, dessa forma, com esse circo de adultos, quem se afasta da apresentação são as crianças. E isso é triste, pois justamente elas que eram há pouco tempo a razão de ser e existir do “maior espetáculo da Terra”.

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9 pensamentos sobre “O maior espetáculo da Terra

  1. muita concidência com a minha pauta. incrível!
    mas essa história de não ter mais circo em porto alegre vai dificultar bastante pra minha reportagem…

    mas, enfim. eu gostava de circo. mas passei a gostar mais ainda depois de marmanja, quando passei a entender melhor seu significado. e, claro, mais ainda depois dos ciganos de macondo.

  2. É que hoje em dia, se evita a utilização de animais em espetáculos circenses por causa da grande quantidade de denúncias de maus tratos aos bichos. Entidades de defesa dos animais colocaram barreiras, a legislação ficou mais rigoroso. No Brasil, por exemplo, há forte punição para quem detém animais silvestres ou selvagens em cativeiro. Enfim, são os novos tempos. Mas eu também tenho saudade daquela época, tão romântica da nossa infância.

  3. Tiago, o Luan foi ao circo sabádo passado!
    Gostou muito.. mas tb teve medo dos palhaços.. hehe
    te amo muito!
    beijos

  4. Até ver um documentário sobre o modo como são tratados e treinados os animais eu era uma fã de circo. Até os atletas sofrem um bocado.
    Aqui em SC houve um caso bem recente de um leão velho abandonado, dentro da jaula, na beira da estrada, em pleno verão, sem água, sem comida e mais magro que pau de virar tripa.
    É romântico e faz parte de minhas lembranças de infância também, mas às vezes a consciência de respeito nos obriga a mudar nossos conceitos. Hoje em dia sou radicalmente contra circo com animais. Rodeios então…
    Abração e curta o feriado(aqui estamos de volta ao verão, pelo menos até sábado).

  5. Tenho ótimas lembranças de circo. Não sei exatamente quais os elementos característicos de um circo, mas o da China e o Du Solei são mega empresas que só atraem um público que PODE ter acesso.
    Enfim, há complicações em manter animais enjaulados. Há que ter cuidado com as piadas e graças dos palhaços. Há complicações com a segurança da estrutura de lona, dos efeitos de iluminação e até a pirotecnia. Há tantas normas e regulações que realmente o circo como desenhamos do passado já não pode ser montado no presente.

  6. Não pagaria essa grana toda para ver este circo. Me dá um ruim esse negócio de acrobacia. Fico tenso, torcendo para que dê certo. Acho esse tipo de artista um cara meio angustiado com a perfeição. Essa angústia acaba passando para mim, quando assisto.
    O que salva a coisa são, realmente, os palhaços…esses eu curto! (talvez por ser um deles).
    Há braços!!

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