O gol da desonra

     Era pra ser só mais uma pelada de domingo à noite. Mas era impossível ser só mais uma pelada de domingo à noite por um mero detalhe: Laura estava na torcida. E, em campo – e em times opostos –, estavam Rodrigo e Daniel. Respectivamente, o ex e o atual namorados dela.
     Nenhum dos dois costumava jogar lá, contudo como tinham o mesmo grupo de amigos, o acaso os reuniu novamente naquela cancha. Eles, que outrora foram amigos, não se falavam desde que Daniel iniciou seu romance com Laura, dois meses depois do fim do relacionamento entre ela e Rodrigo. Motivos óbvios, portanto.
     Rodrigo era goleiro. Daniel, atacante. Não se olharam, muito menos se cumprimentaram antes, durante e depois da partida. Enquanto os outros disputavam uma pelada, os dois jogavam uma final de Copa do Mundo em jogo noturno. Queriam provar que eram melhor que o outro. A juíza estava ao lado da quadra, assistindo a tudo.
     O time de Rodrigo vencia fácil: 4 a 0, porém, estranhamente, ele comemorava mais as suas defesas do que os gols de sua equipe. Já Daniel corria, se movimentava, procurando o espaço e a chance ideal para liquidar com aquele goleiro. Um golzinho só já o deixaria feliz. O resultado final não interessava.
     Já o arqueiro estava concentrado. Não era à toa que o escore do outro time ainda estava zerado. Jogava concentrado, obstinado e com atenção especial naquele movediço atacante que teimava em rondar a área. Que tomasse gols, tudo bem, mas não dele. Era mais que uma partida, era uma disputa pessoal.
     Do lado de fora, Laura olhava friamente. Não demonstrava torcida por nenhum. Estava muito feliz com o atual, cujo namoro já superava em tempo o relacionamento que teve com o ex. No entanto, também fora bem feliz com o anterior. Preferiu não se manifestar, optando pela indiferença feminina.
     Como em toda pelada, um time que aplica uma goleada logo no começo do jogo, não necessariamente mantém o resultado até o final. Aliás, quase sempre deixa empatar. Naquela de domingo à noite não era diferente: 4 a 3. No entanto, Daniel ainda não havia conseguido um bom arremate contra Rodrigo que, mesmo com o adversário encostando no placar, parecia não dar muita bola para isso.
     A partida já se aproximava do final. Os times tiravam pé e afrouxavam a marcação pelo cansaço. Rodrigo sabia disso. Os dez minutos finais seriam o clímax não só do jogo, como também de sua disputa particular. Naqueles momentos que se seguiriam, Daniel provavelmente teria mais chances. E teve.
     Num lançamento em profundidade para o atacante, o zagueiro antecipou-se. Ciente da situação, tinha como missão evitar uma trombada entre os dois. Um encontro de frente poderia resultar se não em morte, em uma fratura exposta numa tíbia descuidada. E pensar que tudo ocorria por causa de uma mulher.
     Restando pouco menos de cinco minutos para o término, a vitória para a equipe de Rodrigo já estava assegurada. O tradicional placar peladeiro: um montão a um montinho. Com isso, a defesa afrouxou de vez. Pouco antes, fizera duas interceptações importantes, em que o atacante estava livre na sua frente.
     Nesse último ataque, o adversário da vez era Daniel. Livre, leve, solto, correndo pelo flanco esquerdo do campo. O embate agora era inevitável. Da entrada da área, desferiu o chute. A bola não foi forte, a mão do goleiro a encontraria sem maiores dificuldades. Mas teve um pé no meio do caminho. Um pé de zagueiro atrasado. Na ânsia de cortar, desviou para própria meta.
     Gol!
     O goleiro tomba, o atacante comemora. O resto dos jogadores não entendem tal vibração e tamanha desilusão dos protagonistas do lance. Porque era pra ser só mais uma pelada de domingo à noite. Mas era impossível ser só mais uma pelada de domingo à noite, pois Laura estava na torcida.

Anúncios

7 pensamentos sobre “O gol da desonra

  1. Alguém entendeu a disputa particular: a Laura. Como mulher, ela percebe essa luta quase primitiva por ela. E ela vibra com isso. Mas mantém a pose. Finge ficar indiferente. Até porque, pra ela não importa quem vença. Importa é que lutem por ela.

    Boa história.

  2. Mais brasileiro que futebol é esse sentimento de posse, não é, não?
    Um abraço e aproveite muito bem o final de semana(que domingo volta a chover).

  3. Muito bom o texto. Passa uma angústia e leva até a última linha em segundos.

    Gostei porque ressalta as “motivações individuais” de cada jogador em uma partida. É como dizia o Oscar, no basquete, ele criava pequenos desafios pra poder vencer. Foi assim contra o Dream Team Americano, ele achava que nao venceria o jogo, então queria apenas, ser melhor que o seu marcador.

    Aaa, li sim aquela matéria do inter onde falam do Magrão. Muito boa mesmo, ele é um ótimo jogador. A questão dele ser volante, sim, ma no esquema do Abel ele ganha liberdade com um primeiro-volante no time

    Abraço Tiago.

  4. Ba olha aqui, se eu tivesse na defesa, a Laura ia abraçar o Rodrigão no final do jogo, certo. Mas assim é o jogo, um dia se perde, outros se ganha. Nesse a disputa era nobre. O coração de uma moça

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s