Porto Alegre-Praia do Rosa, via Piauí

A gota de suor que começou a escorrer da minha testa perto do meio-dia da sexta-feira santa era o retrato perfeito da viagem que enfrentava naquele momento. Ela descia um pouco e estagnava, avançava, parava. Assim sucessivamente. De forma igual a que o ônibus no qual estava indo para a Praia do Rosa, em Santa Catarina, a quatro horinhas de Porto Alegre.
Era uma excursão. Nela estavam: patricinhas, gurizões de 18 anos querendo aparecer para elas, um guia idiota, alguns chapados, raríssimas gurias inteligentes – talvez quatro ou cinco –, meu melhor amigo, sua namorada, meu primo e eu. Antes mesmo de fechar a primeira hora de atraso na hora da partida, pensei: “Isso não vai dar certo.”

Pneumático

Buuum!!! Foi o barulhão ouvido do ônibus quando esse não tinha nem superado a marca de 50km de viagem. Pelo rasgo do pneu, pôde-se pressupor que ele já não era grande coisa. Revisão pra quê?!
A free-way é uma rodovia pedagiada. Em seguida ao incidente, o socorro chegou e guiou o motorista até a borracharia mais próxima. Apesar de ser 24 horas, ela estava devidamente fechada e com cadeado. Sei lá, vai que apareça algum cliente…
Buzinas, ligações e dez minutos na frente do local foram necessários para acordar o mirrado borracheiro. Com uma cara de sono, ele se enfiou por debaixo do ônibus. Enquanto ele estava lá – trabalhando – algum playboy infeliz fez uma gracinha ainda mais infeliz com o labutador. Por essas e outras é que defendo o serviço militar obrigatório para TODOS.
Ainda na borracharia. Não vou nem adjetivar o estado do step do veículo. Apenas revelo que o motorista, ao vê-lo, preferiu comprar um novo pneu para substituir os estragado. “Tá, mas e se esse aí estragar?” – perguntou alguém. “Ele não vai estragar. Não vai estragar, entendeu”, respondeu o convicto motora.
O resultado da parada foi uma hora e 20 minutos brecados. “Ainda bem que a free-way é pedagiada”, diziam os boys enquanto olhavam o borracheiro se arrastando no chão. Sem oferecer nenhum auxílio, é claro.
Como não tenho experiências úteis em trocas de pneus de ônibus, estava com sono e temia que aquela idiotice toda fosse contagiosa, retornei a minha poltrona. Reclinei o banco, puxei Vinícius de Moraes para cantar em meus ouvidos, abracei o travesseiro e dormi.

Fumaças

Para não me estressar mais, tentei desligar-me de tudo o que estava acontecendo. A viagem transcorria relativamente bem, até que, simplesmente: “Aí galera, o motor fundiu”, avisou o guia idiota. O relógio marcava 4:49 e estávamos todos – pattys, boys, guia idiota, chapados e nós – parados em algum lugar da BR-101 gaúcha. Merda, merda, merda.
As patricinhas falavam tanta bobagem, do tipo: “Aí, tô com medo! O ônibus vai explodir, preciso tirar minha bolsa daqui, a gente vai morrer”, que até mesmo a turma do goods* e do cachimbo da paz** mandaram elas calarem a boca. Diga-se de passagem, esses chapados são muito engraçados. Graças a eles, demorei bastante até perder a paciência lá.
E foram três longas horas. A todo momento, o guia imbecil dizia que o novo ônibus chegaria em meia hora. Apesar de só ter chegado mais de três horas depois. “Por que tu demoraste?” – perguntaram ao motorista. “Não demorei, me avisaram há uma hora”, respondeu. Talvez o guia não era idiota e sim, nós, passageiro. Devia estar escrito nas nossas testas.

O nascer do sol na 101

Juro que, nesse momento, acreditei que iríamos direto até o Rosa. Mas não. Claro que não. Houve ainda duas paradas misteriosas e desnecessárias até lá. Nessa ocasião, nem conseguia dormir mais e estava num misto de brabo, faminto, sonolento, desconfortável e com calor.
Deste calor, surge uma gota de suor na minha testa. Ela aparece de repente, escorre um pouco e pára. Da mesma forma que o ônibus. Sem nada melhor para fazer, pego meu bloco e começo a escrever esse texto. As pessoas me olham espantadas. Naquela altura, azar, pouco me importava. Cada drogado com suas drogas, ué…
Ainda bem que a Praia do Rosa é suficientemente linda e capaz de fazer com que as pessoas esqueçam dos percalços que têm até chegar lá. Até mesmo 12 horas da mais pura e desgastante indiada.

*godã
**canabis sattiva

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9 pensamentos sobre “Porto Alegre-Praia do Rosa, via Piauí

  1. Tiago, excursão é coisa de louco! Eu fujo delas faz uns 200 anos.
    Ainda bem que o destino compensou.
    Não sei o que é pior, se fazer excursão ou desconfiar do motorista.
    Abraço e bom final de semana.

  2. Que vício esse de escrever, hein? Como tu bem dissestes, cada um com sua droga. Se tu não tivesse escrito na hora, não escreveria mais. A beleza do Rosa ia fazer tu esquecer a crônica. Muito boa!

  3. Caramba, Tiago! que sufoco pra chegar no Rosa, heim?
    vou lembrar de ti quando eu pegar um ônibus urbano aqui em Porto ou quando precisar ficar só 2h num intermunicipal até Bento. É, mas no fim, chegar no Rosa faz tudo valer a pena. Ou não, já que tem a volta!
    bjo pra ti!

  4. Que programa de índio. Claro que me refiro à viagem e não ao cenário final. Espero que a volta tenha sido mais calma. Beijo!

  5. Ah, quando rende um texto desses tudo vale a pena.

    Me vi muito nesse texto. A desgraça tá acontecendo, eu abstraio, pego o companheiro bloquinho e pratico meu vício.

  6. Pingback: Pedaço de Paraíso - Parte IV « Telha do Tiago

  7. to pensando em fazer essa viagem de moto, um conhecido disse que leva umas 4 horas.será que uma titan aguentaria???abraços.

    • Saindo de Porto Alegre – e sem motoristas que estragam ônibus – dá umas quatro horas mesmo, Marcelo. Talvez, de moto, um pouco mais, já que há de se parar mais vezes.
      Uma Titan bem regulada aguenta, certamente. O problema seria no Rosa, que tem bastante areia. Vê a previsão do tempo e te programa para pegar uma semana de sol, evitando qualquer contratempo.

      No mais, boa viagem!

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